REUTERS/Evan Vucci/Pool
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Cenário: transferência dos códigos nucleares é feita em duas etapas

Esquema ativado em 1963 prevê a pronta resposta a um bombardeio estratégico

Roberto Godoy, O Estado de S. Paulo

21 Janeiro 2017 | 05h00

Um movimento feito com delicadeza, rápido, quase imperceptível. Menos de um minuto depois de ter feito seu juramento de dedicação aos Estados Unidos da América, com a mão sobre a Bíblia que recebeu da mãe há 62 anos, o presidente Donald Trump ganhou na sexta-feira 20 uma segunda sombra. Um militar americano, um homem não muito alto, usando o uniforme formal do Exército, assumiu uma posição a seu lado, não muito próximo, mas também não distante. Na mão, uma gorda maleta preta. Será assim pelos próximos 1.460 dias, em tempo integral. 

O oficial é o “anjo do apocalipse”, a valise é a “football”, e dentro dela estão os códigos de acesso ao arsenal nuclear dos EUA, mais os dispositivos eletrônicos que permitem ao chefe da nação reagir a um ataque atômico. A coreografia discreta, executada durante a solenidade de posse, é também a manifestação do momento em que o novo presidente assume o comando supremo das Forças Armadas. 

O esquema, ativado no formato atual em 1963, pelo então presidente John F. Kennedy, prevê a pronta resposta a um bombardeio estratégico. Mísseis intercontinentais que tenham partido da Rússia precisam de 30 a 40 minutos para atingir seus alvos nos Estados Unidos. Disparados de um submarino, silencioso e furtivo sob o mar, em um ponto bem mais próximo, levarão, talvez, 12 minutos até a explosão. 

A chave de acesso à valise nuclear americana é a “cookie”, provavelmente por ser redonda como um biscoito. A identificação por meio de senhas digitais é simples. Não há tempo para testes da íris ou de registros de voz. As máquinas de guerra estarão prontas em seguida, sob controle de uma base reservada, em Nebraska: 2.150 armas distribuídas pela mundo, de um total de 7.650 bombas e ogivas. 

Será bem diferente se o presidente decidir tomar a iniciativa de atacar preventivamente um eventual inimigo. Ontem, Trump recebeu a informação primária dos protocolos de emergência, coisa para garantir as primeiras horas sob nova administração. Hoje de manhã, toma conhecimento dos procedimentos completos. Vai ser informado formalmente do que já sabe de ouvido: lançar uma ofensiva nuclear é uma ação colegiada que envolve o Secretário da Defesa, o chefe do Estado-Maior Conjunto e diversos outros líderes, reunidos na sala de situação, cinco andares abaixo do solo, na Casa Branca. Tudo bem parecido com os cenários de filmes: muitos computadores, telas de alta resolução, imagens de satélite e comunicações avançadas. 

O modelo não vale, no entanto, para a hora de ativar os quadros convencionais, pouco menos de 1,5 milhão de combatentes, homens e mulheres distribuídos por 90 instalações espalhadas pelo planeta. O plano exige domínio da burocracia. 

O conjunto reúne uma grandeza única. Só os Estados Unidos mantêm um grupo de 10 porta-aviões de 90 mil toneladas, até 6 mil tripulantes e perto de 80 aeronaves embarcadas; 14 submarinos armados, cada um deles com 24 mísseis nucleares; e nessa escala bombardeiros, caças, tanques, canhões, blindados. 

A intervenção em qualquer ponto pode, sim, ser decidida pelo ocupante da Casa Branca, mediante avaliação do grau de risco para os interesses dos Estados Unidos. Depois, o processo chega ao Congresso, mas a escalada pode ser mantida mesmo se não houver uma declaração aberta de guerra – como acontece nas operações da luta antiterror.

 

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