AP/Geert Vanden Wijngaert
AP/Geert Vanden Wijngaert

Cenário: Trump dá vitória de mão beijada a Putin na estreia na Otan

O presidente americano rejeitou endossar a cláusula pétrea de defesa coletiva da organização e ser mais duro com a Rússia

Robbie Gramer / Foreign Policy, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2017 | 05h00

Líderes europeus tinham esperança de que o presidente Donald Trump fosse endossar explicitamente a cláusula pétrea de defesa coletiva da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) em Bruxelas, depois de passar a campanha sugerindo que essa cláusula tinha se esvaziado. Mas não endossou. Além disso, ele teve com outros líderes algumas discussões que só fizeram salientar as tensas relações EUA-Europa desde que ele assumiu o governo.

Trump rejeitou reafirmar o mérito do Artigo 5 da Cláusula de Defesa Coletiva da Otan, que é elemento básico para a unidade e capacidade de resposta da aliança desde sua fundação, em 1949. Esse artigo prevê que todos os membros da Otan ajudem qualquer país-membro que seja atacado. Trump fez essa observação em frente ao memorial dos atentados do 11 de Setembro, data em que, pela primeira e única vez na história, a Otan invocou o Artigo 5, para ajudar a defender o país de Trump.

Embora tenha abordado a ameaça do terrorismo, Trump rejeitou ser mais duro com a Rússia e, assim, aplacar temores dos aliados. Especialistas e ex-funcionários do governo dos Estados Unidos, chocados com a omissão, criticaram o presidente. “O comportamento de Trump nesse encontro da Otan em Bruxelas foi uma vitória definitiva de Putin”, disse Jorge Benítez, especialista em Otan no Conselho Atlântico, que se encontrava na reunião. “Essa atitude só fez aumentar muito as dúvidas, temores e preocupações de nossos aliados.”

“Todo presidente americano desde Truman prometeu apoiar o Artigo 5, segundo o qual os Estados Unidos defenderão a Europa. Trump não. Grande erro”, disse no Twitter o ex-embaixador dos Estados Unidos na Otan Nicholas Burns. A recusa em endossar explicitamente a cláusula da defesa comum pode abalar ainda mais os aliados dos Estados Unidos já nervosos ante a dúvida sobre se Washington sairá em sua defesa em caso de ataque.

Países bálticos, em particular, estão preocupados com que as enormes forças militares russas possam dominá-los, e esperavam um típico e sólido compromisso de Washington. Saíram desapontados da reunião em Bruxelas.

As coisas não foram muito melhores fora das discussões, com a agressividade muitas vezes à solta. O presidente francês, Emmanuel Macron, deixou Trump esperando por um aperto de mão na hora da troca de cumprimentos.

Em outra saia-justa, o americano deu um empurrão no líder de Montenegro, Dusko Markovic, para sair à sua frente na foto oficial. Montenegro havia se empenhado de corpo e alma para poder ser membro da Otan, para desgosto do Kremlin, e deve conseguir isso no próximo mês. O próprio Trump apoiou o acesso.

Depois do discurso, e de algumas tensas trocas de ideias com outros participantes, Trump e outros líderes da Otan reuniram-se no palco para fotos, enquanto participantes conversavam e misturavam-se uns com os outros. Nenhum líder da Otan foi visto aproximando-se de Trump para falar com ele na saída. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

É EX-RESPONSÁVEL PELOS ASSUNTOS DE OTAN NO CENTRO DE ESTUDOS ATLANTIC COUNCIL

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