Brendan Smialowski/AFP
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Cenário: Trump tem de dividir o Partido Republicano

É hora de republicanos escrupulosos se separarem dos republicanos sem qualquer escrúpulos e dos adoradores do presidente

Thomas Friedman* / The New York Times, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2021 | 04h00

Quando todos os fatos a respeito do traiçoeiro ataque contra o Capitólio inspirado pelo presidente Donald Trump vierem à tona, nem mesmo três processos de impeachment contra ele parecerão suficientes. Considere esta manchete do Washington Post de segunda-feira: “Vídeo mostra multidão no Capitólio arrastando policial pelas escadas. Um dos agitadores golpeia policial com o mastro de uma bandeira americana.”

Dito isso, mesmo que eu queira Trump fora do poder – e não me importo que ele seja silenciado durante um período tão tenso – não estou certo se quero ele fora do Twitter e do Facebook permanentemente. Preciso que Trump cumpra um importante trabalho em seu período pós-presidencial, e preciso que ele tenha megafones apropriados para isso. Trata-se de implodir esse Partido Republicano.

Meu principal desejo para os EUA hoje é que esse Partido Republicano se frature, separando os republicanos escrupulosos de republicanos sem escrúpulos e adoradores de Trump. Isso seria uma bênção para os EUA por dois motivos.

Primeiramente, isso poderia realmente pôr fim no impasse no Congresso e nos permitir grandes realizações em infraestrutura, educação e saúde – o que beneficiaria todos os americanos, não somente os que defendem Trump, que o fazem precisamente por se sentir ignorados, humilhados e abandonados.

Se uns poucos republicanos escrupulosos de centro-direita, como Mitt Romney e Lisa Murkowski, abandonassem esse Partido Republicano ou simplesmente estivessem dispostos a trabalhar com uma equipe de centro-esquerda de Joe Biden e com os senadores de pensamento parecido – os legisladores que garantiram a aprovação do recente pacote de estímulo econômico – se tornaria mais forte do que jamais foi. É assim que começamos a reduzir a loucura que está permeando os EUA e voltamos a enxergar uns aos outros como cidadãos iguais, e não como inimigos.

Em segundo lugar, se os republicanos escrupulosos romperem com o culto a Trump, a fatia pró-Trump do Partido Republicano teria muita dificuldade em vencer eleições nacionais no futuro próximo. E, de acordo com o que acabamos de ver, esses trumpistas não são minimamente dignos de confiança, e não devemos permitir que cheguem ao poder nunca mais.

Pense no que eles fizeram. Todos esses parlamentares adoradores de Trump propagaram voluntariamente a grande mentira de Trump de que a mais heroica eleição da história americana – em que mais americanos foram votar em todos os tempos, de maneira livre e justa, em meio a uma pandemia mortífera – foi uma fraude, porque ele não venceu. E então, com base nessa grande mentira, 8 senadores republicanos e 139 deputados votaram pela anulação da vitória eleitoral de Joe Biden. Isso é doentio. É por isso que eu espero que o Partido Republicano rache. E aqui vão as razões pelas quais um Trump barulhento pode ser útil nesse rompimento.

Qual era o sonho dos senadores Josh Hawley e Ted Cruz quando tentaram que o Congresso revertesse a vitória de Biden com base na grande mentira? Eles sonhavam com o mundo do trumpismo sem Trump. Eles pensaram que herdariam a base de Trump quando ele saísse de cena. Mas eles não passam de tolos. Como Trump e seus filhos deixaram claro em um comício que inspirou alguns de seus seguidores a saquear o Capitólio, os Trumps só têm interesse no trumpismo com Trumps.

E já que uma pesquisa do instituto Quinnipiac mostra que mais de 70% dos republicanos ainda apoiam Trump, podemos ter certeza que ele vai continuar insistindo que o partido é dele, e vai continuar proferindo infâmias que constituirão testes de lealdade diários a todos os legisladores republicanos, forçando-os a responder se estão com ele ou não. Esse estresse será gigantesco.

Ou não. Este é um momento de escolhas para os republicanos. Cada um terá de se perguntar: o partido ainda é meu, também? / TRADUÇÃO DE AUGUSTO PACHECO CALIL

* É COLUNISTA E ESCRITOR

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