Jim Wilson/The New York Times
Jim Wilson/The New York Times

Cenário: Trump quer derrubar muro que já existe

O México repatriou duas vezes mais migrantes centro-americanos do que os EUA. A pergunta, então, é essa: conseguirá o muro de Trump substituir essa barreira?

Eduardo Porter / NYT, O Estado de S. Paulo

23 Fevereiro 2017 | 05h00

Há pouco mais de 10 anos, agentes da patrulha de fronteira dos EUA foram surpreendidos por um elemento que surgiu na sua batalha para conter a imigração ilegal: os brasileiros. Em 2005, milhares de brasileiros começaram a atravessar a fronteira com o México. Mais de 31.000 foram capturados pelos guardas americanos quando tentavam entrar nos EUA, um número superado somente por mexicanos, salvadorenhos e hondurenhos.

Abruptamente, o fluxo diminuiu. Sob pressão de Washington, o México restabeleceu a exigência de visto de turista para brasileiros, que havia sido eliminada cinco anos antes. Ficou prejudicada a rota que começava com um simples voo do Rio de Janeiro para Cancún e terminava em uma caminhada pelo deserto ao sul do Texas. Em 2006, as apreensões de brasileiros pela Patrulha de Fronteira americana diminuíram em 95%, para 1.460. Hoje, são poucos os que tentam a travessia. 

Nos últimos três anos, têm sido principalmente os guatemaltecos, hondurenhos e salvadorenhos que vêm fugindo às dezenas de milhares, na esperança de chegar aos EUA. Mas como em 2005, a barreira que os EUA têm para impedir que imigrantes da América Central entrem ilegalmente no país – um muro, se houvesse – é o México. E essa barreira, o México, o governo Trump deve perder.

A estratégia de desenvolvimento adotada pelo México nas últimas três décadas envolveu uma ligação da sua economia com a dos EUA. O Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta) tornou-se seu motor de crescimento, atraindo investimentos de multinacionais para atender ao enorme mercado americano. 

A imigração para o norte serviu como válvula – permitindo ao país suportar as repetidas crises financeiras enquanto o mercado de trabalho americano absorvia mexicanos ociosos. Não por acaso, isso também contribuiu para o crescimento econômico dos EUA.

Com a promessa de Trump de dar as costas ao seu vizinho do sul, as autoridades mexicanas tentam desesperadamente convencer o governo americano de que os EUA também precisam do México. Mas suas esperanças provavelmente serão frustradas.  Uma medida que indignou os mexicanos determina que as autoridades da imigração devem devolver os imigrantes de qualquer país que entram ilegalmente nos EUA “para o território de país estrangeiro contíguo do qual eles vieram” enquanto aguardam os procedimentos para a remoção nos EUA. País contíguo significa o México.

O que o México pode fazer em resposta? Recusar-se a receber os que não são comprovadamente mexicanos? Como afirmou o ex-ministro do Exterior Jorge Castañeda, uma alternativa é retirar os entraves e deixar que cidadãos da América Central cruzem o México sem problemas para os EUA.

É isso que está em jogo. No ano passado, o México devolveu 143.057 migrantes da América Central para seus países de origem. Foram mais de 59 mil guatemaltecos devolvidos e repatriados, 48 mil hondurenhos e 31 mil salvadorenhos, segundo a Organização Internacional para Migrações.

O México repatriou duas vezes mais migrantes centro-americanos do que os EUA. A pergunta, então, é essa: conseguirá o muro de Trump substituir essa barreira? Atualmente, a imigração ilegal do México é mínima. O número de apreensões de imigrantes mexicanos é o menor desde os anos 70. Menos mexicanos partem para o norte e um número muito maior vem retornando para o México. No ano passado, foram presos mais centro-americanos do que mexicanos. O México funciona mais como passagem.

Governos americanos anteriores reconheceram a importância da cooperação do México. Washington forneceu ao país US$ 24 milhões de ajuda para o policiamento da imigração e se obrigou a fornecer mais US$ 75 milhões. Naturalmente, o México não age apenas por simpatia pelo seu vizinho do norte. Mesmo que os EUA sejam o destino final, as dezenas de milhares de centro-americanos que seguem para o norte sobrecarregam as comunidades mexicanas também. Se as autoridades do país liberarem a passagem, elas criarão enormes problemas para as cidades mexicanas ao longo da fronteira.

Ao ameaçar construir um muro e deixar o Nafta, além de outras medidas contra o México, Trump muda a equação. Se for apenas hostilidade o que ele tem a oferecer, o preço político para o México ser o muro dos EUA poderá ser exorbitante. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO 

*É COLUNISTA

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