Miraflores Palace/Handout via REUTERS
Miraflores Palace/Handout via REUTERS

Cenário: Um autocrata do qual Trump não gosta

Depois de fazer amizade com autocratas em todo o mundo, presidente americano adota postura de enfrentamento em relação ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro

Peter Baker e Edward Wong* / NYT, O Estado de S.Paulo

28 de janeiro de 2019 | 06h30

O presidente dos EUA, Donald Trump, finalmente encontrou um homem forte do qual não gosta. Depois de fazer amizade com autocratas em todo o mundo, Trump traçou uma linha vermelha com Nicolás Maduro, exigindo que o presidente que governa a Venezuela com mão de ferro transfira o poder à oposição.

O forte desafio de Trump a Maduro é a primeira intervenção desse tipo em sua presidência anti-intervencionista, um drástico distanciamento de uma política externa do tipo “Estados Unidos em primeiro lugar”, com o objetivo de retirar o país dos atoleiros no exterior e ficar fora dos assuntos internos de outras nações.

A decisão do presidente de defender o que equivale a uma mudança de regime na Venezuela, incentivada pelo senador Marco Rubio, republicano da Flórida, e outros críticos de longa data da liderança esquerdista instalada em Caracas, é o tipo de afirmação internacional que Trump menosprezou em administrações passadas - e uma com enormes riscos.

Como as forças armadas venezuelanas apoiam Maduro, a situação poderia facilmente decair para mais violência, com diplomatas dos EUA potencialmente na mira. Trump disse que “todas as opções estão na mesa”, sugerindo a possibilidade de uso da força militar. Mas mesmo que não chegue a esse ponto, o republicano enfrentará uma perda de credibilidade se Maduro desafiar a pressão dos EUA e se mantiver no poder.

“A postura do governo em relação à Venezuela é uma aposta política externa que, em retrospectiva, poderia parecer uma prevenção se Maduro for expulso ou então uma imprudência, se isso não acontecer”, disse Rob Malley, presidente do International Crisis Group e ex-assessor dos presidentes Barack Obama e Bill Clinton. “Nesse ponto, a bola estará inequivocamente na quadra dos EUA, com o risco de que pouco se possa fazer e seja uma mostra de impotência ou, pior, o país venha a intervir militarmente e demonstre precipitação.”

Por enquanto, o governo enfatizou as opções diplomáticas e econômicas, na esperança de manter a solidariedade regional. Em uma reunião na quinta-feira em Washington, o secretário de Estado Mike Pompeo classificou o governo de Maduro de ilegítimo. “O regime do ex-presidente Nicolás Maduro é ilegítimo”, disse Pompeo. “Seu regime está moralmente falido, é economicamente incompetente e profundamente corrupto. É antidemocrático ao extremo.”

Assim também são, é claro, muitos outros países, mas Trump fez amizade com líderes autoritários em lugares como Rússia, China, Coreia do Norte, Egito, Arábia Saudita, Turquia e Filipinas. O fato de a Venezuela tropeçar em seu medidor de indignação reflete uma confluência de fatores quando se trata da América Latina.

“É tão diferente do que vimos em outras partes do mundo”, disse Michael Shifter, presidente do Inter American Dialogue, um centro de estudos sobre assuntos do Hemisfério Ocidental. “Mas a América Latina é diferente. É onde a política interna tem um papel maior do que em outras partes do mundo.”

Rubio tem sido uma figura fundamental em pressionar o governo Trump a adotar uma linha mais dura em relação a Maduro. Para ele e outros líderes cubano-americanos, os laços entre a Venezuela de Maduro e a era cubana são grandes.

Poucas semanas após a posse de Trump, Rubio organizou uma reunião na Casa Branca com Lilian Tintori, mulher de Leopoldo López, líder da oposição atualmente sob prisão domiciliar e arquiteto da ascensão de Guaidó. Trump ficou impressionado com Tintori e, a partir de então, pediu regularmente a assessores ajuda em atualizações sobre a Venezuela. Rubio também entregou à Casa Branca uma lista de autoridades venezuelanas que deveriam ficar na mira, e eles receberam sanções do governo.

Na terça-feira, Rubio visitou novamente a Casa Branca para conversar com Trump sobre um plano para reconhecer Guaidó como o legítimo presidente da Venezuela se ele anunciasse formalmente sua nova posição, segundo um assessor do Senado que acompanhou a reunião. O senador e os funcionários da Casa Branca também discutiram as medidas a serem tomadas se Maduro resistir e agravar a situação, disse o assessor, que se recusou a descrever os planos de contingência.

Quando Guaidó reivindicou a presidência no dia seguinte, alegando que a última eleição presidencial foi fraudada, Trump passou a reconhecê-lo, levando Maduro a romper relações diplomáticas e mandar diplomatas dos EUA para fora do país no prazo de 72 horas.

Dentro do governo Trump, Pompeo e Mauricio Claver-Carone, diretor sênior de assuntos do Hemisfério Ocidental no Conselho de Segurança Nacional, foram dois dos maiores defensores de uma posição forte em relação à Venezuela.

Pompeo desempenhou um papel importante durante uma viagem no início deste mês ao Brasil e à Colômbia, disse uma pessoa ligada a líderes da oposição na Venezuela. Ele sinalizou aos líderes dos dois países que, se as nações latino-americanas tivessem um plano razoável sobre a Venezuela, os Estados Unidos os apoiariam, disse essa pessoa. Esse foi um fator que contribuiu para que o Canadá e 12 países latino-americanos emitissem uma declaração em 4 de janeiro dizendo que não reconheceriam a presidência de Maduro.

A declaração foi mais forte do que as autoridades dos EUA esperavam, disse o informante. Pompeo também esteve em contato próximo com Chrystia Freeland, ministra do Exterior do Canadá, que desempenhou um papel de liderança na mobilização de críticas globais a Maduro.

A dura posição de Trump esta semana atraiu algum apoio bipartidário. O democrata Adam Schiff, da Califórnia, um dos maiores críticos do presidente, chamou o reconhecimento de Guaidó de “um passo apropriado para apoiar as aspirações democráticas do povo venezuelano”.

Mas, como outros, Schiff observou a disparidade entre a abordagem de Trump em relação a Maduro e a outros autocratas. “Também devemos lembrar que o apoio dos Estados Unidos à democracia e aos direitos humanos deve ser aplicado universalmente, para ser confiável”, disse ele.

Essa não era a opinião de Trump quando assumiu o cargo. Em sua primeira viagem ao exterior como presidente, Trump disse em público na Arábia Saudita que ele não ditaria como outros países devem tratar seus próprios cidadãos. “Não estamos aqui para dar lições”, disse ele. “Não estamos aqui para dizer a outras pessoas como viver, o que fazer, quem ser ou como adorar.”

Seu conselheiro de segurança nacional, John Bolton, rejeitou perguntas sobre o motivo de Maduro ser pior do que outros autocratas dos quais Trump se tornou amigo. “Bem, suas perguntas são cheias de falácias”, disse Bolton aos repórteres. “O fato é que a Venezuela está em nosso hemisfério. Eu acho que nós temos uma responsabilidade especial aqui, e eu acho que o presidente se interessa muito quanto a isso”. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

* PETER BAKER E EDWARD WONG SÃO JORNALISTAS

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