AP/Gregorio Borgia
AP/Gregorio Borgia

Cenário: Uma nova onda de fúria ameaça Europa em 2017

Eleitores de vários países querem enfatizar para a elite que o status quo ficou inaceitável

Alissa J. Rubin / The New York Times, O Estado de S.Paulo

07 Dezembro 2016 | 05h00

Para a Europa, 2016 trouxe uma série de choques políticos: um número recorde de imigrantes chegando do Oriente Médio e da África; a decisão britânica de deixar a União Europeia; e as novas ameaças da Rússia de se meter no continente. Mas 2017 poderá ser ainda mais agitado. Haverá ao menos três eleições na Europa no próximo ano: Alemanha, França e Holanda, programadas, e agora talvez também na Itália. 

Em quase toda parte, o establishment político vem sendo responsabilizado pelo crescimento tímido, pelo desemprego e por favorecer o mercado financeiro em detrimento do cidadão comum. O último indicador do descontentamento foi o referendo de domingo na Itália, quando os eleitores rejeitaram as mudanças constitucionais propostas pelo premiê Matteo Renzi, que renunciou. 

Após o voto britânico pela saída da UE, o referendo italiano é considerado nova perturbação em décadas de esforços para estreitar as relações entre os 28 países do bloco. Além disso, levanta dúvidas sobre a capacidade de a UE se manter unida nos próximos anos.

Essa instabilidade ocorre particularmente com referendos do tipo “sim ou não” – primeiro na Grã-Bretanha, agora, na Itália – em que uma rejeição populista do establishment político pode ser uma oportunidade de mandar uma mensagem aos funcionários não eleitos de Bruxelas que trabalham próximos a líderes europeus. 

A motivação para os eleitores britânicos e da Itália é quase a mesma dos americanos que votaram em Donald Trump: enfatizar para a elite que o status quo ficou inaceitável. Acrescente-se à frustração nos dois continentes, especialmente na Europa, os teimosos efeitos da recessão de 2008, dos quais vários países europeus nunca se recuperaram. Na França, por exemplo, o crescimento mal chegou a 1% em 2015.

O desemprego entre os jovens continua perto dos 25% (na Itália, na Espanha e na Grécia o índice é até mais alto). Trabalhadores mais velhos e com menos estudo estão sufocados por uma economia que parece tê-los deixado para trás. “O cinturão da ferrugem não existe só nos EUA – há um no norte da França”, diz Alexandra de Hoop Scheffer, diretora do escritório parisiense do German Marshall Fund. “Eles sentem que perderam o controle de seu país e de sua economia.”

Longe de reduzir essas ansiedades, a filiação à União Europeia é acusada de exacerbá-las. E o regime de austeridade exigido pelos funcionários de Bruxelas e financistas internacionais tem alimentado ainda mais a raiva, especialmente no sul da Europa. Essas vozes vêm crescendo há mais de 25 anos, à medida que a UE se expandia, a burocracia de Bruxelas crescia e muitos começavam a achar que os regulamentos e exigências da UE traziam mais problemas do que benefícios.

As tensões existiam já em 1992, quando o Tratado de Maastricht, destinado a unir mais a Europa, quase não obteve aprovação da Dinamarca e da França. 

Hoje, as posições anti-UE fazem parte da plataforma de quase todos os partidos populistas, incluindo a Frente Nacional, de Marine Le Pen, na França; o Partido da Liberdade, de Geert Wilders, na Holanda; e o Movimento 5 Estrelas, de Beppe Grillo, na Itália. A morte política de Renzi e de sua agenda de reformas afasta um líder pró-europeu que tentou reativar o crescimento econômico pondo fim a uma era de austeridade. Ele poderá ser lembrado justamente por dar espaço a políticos hostis à Europa e ao euro. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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