Censo muda representação por Estado e altera a geografia política dos EUA

Nova configuração. Redutos conservadores como o Texas e a Flórida terão mais dois deputados na Câmara dos Representantes e, consequentemente, mais dois delegados no Colégio Eleitoral que escolhe o presidente do país; regiões democratas encolhem

Denise Chrispim Marin, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2010 | 00h00

Ao anunciar ontem o aumento de 9,7% na população dos Estados Unidos, para 308,7 milhões de habitantes, o Escritório de Censo deu um sinal de escalada do conservadorismo no país. Estados tradicionalmente republicanos do sul e do sudoeste do país ganharão mais 12 cadeiras na Câmara dos Deputados, em razão do aumento populacional.

Celeiros de votos para os democratas, os Estados da Costa Leste e do nordeste perderão postos. O primeiro reflexo dessas mudanças será observado nas eleições de 2012, quando os americanos decidirão a reeleição de seu presidente, Barack Obama, e a nova composição do Congresso.

Concluídas em 1.º de abril, as entrevistas abrangeram todo o território americano, segundo Robert Groves, diretor do Escritório de Censo. O crescimento populacional de 9,7% na década foi a menor taxa desde o aumento de apenas 7,3% registrado em 1940. O resultado, então, refletira os efeitos da Grande Depressão dos anos 30.

Não foram detalhados no recenseamento deste ano o crescimento vegetativo e a contribuição da imigração na composição dos 308,7 milhões de habitantes. Mas, para Groves, "esses dados já nos mostram como mudamos o país".

No início de 2011, os deputados federais terão de negociar a nova partilha de cadeiras referentes a 14 Estados. Há dez anos, os resultados do censo provocaram uma verdadeira guerra na Câmara. O Texas, com um aumento de 20,6% na sua população, ganhará mais quatro assentos e passará a contar com 38 delegados no Colégio Eleitoral a partir de 2012. Esse é um dos raros Estados a manter um nível de atividade econômica acima da modesta média nacional.

A Flórida, agora com população 17,6% maior do que em 2000, terá mais duas cadeiras na Câmara - e no Colégio Eleitoral.

Arizona, Geórgia, Nevada, Carolina do Sul, Utah e Washington ganharão uma cadeira cada. Nas eleições legislativas de novembro passado, candidatos republicanos venceram a disputa pelos governos de todos esses Estados.

O berço político de Obama, Illinois, perderá uma cadeira na Câmara por causa da queda de 3,3% em sua população. Nova York e Ohio passarão a ter duas cadeiras menos. Iowa, Lousiana, Massachusetts, Michigan, Missouri, Nova Jersey e Pensilvânia perderão uma cadeira. Nas eleições de 2008, Obama venceu oito desses nove Estados.

Neste ano, os democratas ganharam as eleições estaduais em três deles e, devido especialmente à onda conservadora iniciada no país, perderam para os republicanos em outros quatro. Não houve eleição em três desses Estados.

Alvos democratas. Embora a primeira leitura desses números indique imediata vantagem para os republicanos, Thomas Mann, consultor sênior do Brookings Institution, pondera que o aumento da população nos Estados do sul e da Costa Oeste deveu-se especialmente à parcela latino-americana, nem sempre conservadora ao votar.

Conforme afirmou, Estados como Nevada, Novo México e Colorado - conhecidos por não terem fidelidade a nenhum partido, devem se tornar "alvos fáceis" para os democratas por causa do voto latino mais expressivo. "Os chamados especialistas estão superestimando os ganhos republicanos para as eleições presidencial e legislativa", criticou ele. "O novo censo trouxe uma vantagem modesta para os conservadores. Marginalmente, pode ficar mais difícil a reeleição de Obama", concordou o analista político conservador Michael Barone.

Na Flórida, onde a presença de cubanos tradicionalmente orientou a eleição de republicanos, haverá ligeiras mudanças, segundo Mann. Latino-americanos de outras origens e jovens de origem cubana surgem como uma nova massa de eleitores mais alinhada aos democratas.

No caso do Texas, berço político do ex-presidente George W. Bush, Mann acredita ver eleições com mais competitividade entre democratas e republicanos na próxima década. Barone, entretanto, pondera que os latinos desse Estado sempre votaram fortemente nos republicanos.

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