'Censura a biografias aproxima Brasil de ditaduras'

Para biógrafo, artistas brasileiros 'querem o privilégio e os lucros de ser celebridade, sem a responsabilidade social'

O Estado de S.Paulo

01 de dezembro de 2013 | 02h08

Biógrafo de Che Guevara, Jon Lee Anderson diz que a censura a biografias no Brasil aproxima o país de ditaduras como Cuba, China e Mianmar ou do regime teocrático do Irã e critica os artistas brasileiros que "querem o privilégio e os lucros de ser uma celebridade sem a responsabilidade social de ser esse personagem público."

Ainda sobre privacidade, o jornalista americano, autor de A Queda de Bagdá, sobre a invasão americana no Iraque, diz que não confia em Edward Snowden, ex-técnico da agência de segurança dos EUA. "Não sei como Snowden pode falar em liberdade de expressão da Rússia de Putin, que mata e encarcera todos os que falam mal dele, de homossexuais a jornalistas", dispara,

Como o biógrafo de Che Guevara, o que o sr. acha sobre a polêmica das biografias no Brasil?

Aqui se trata de uma celebridade (Roberto Carlos) que não queria que saísse seu livro. E outros, como Caetano Veloso, que seguramente têm coisas que não gostariam de compartilhar e buscam maneiras de impedir que seus públicos saibam mais do que queiram revelar. Mas são artistas. O dinheiro que o público lhes deu ajuda a pagar a proteção do personagem que criaram. Ou seja, querem o privilégio e os lucros de ser uma celebridade, sem a responsabilidade social de ser esse personagem público. Eu não sou adepto das biografias das celebridades. Estou farto delas e não me importam, francamente. Mas o governo proibir que se escreva sobre eles, para mim, é um mau caminho, porque isso pode se estender facilmente a qualquer figura pública. Logo será um político, um chefe de polícia, um banqueiro. E sabemos que em países como o Brasil há gente que se esconde atrás de seus títulos que são corruptos, que são assassinos. Que lugares restringem o tipo de livros que se pode ler? Cuba, China, Mianmar. Rússia e Irã. Ao fazer isso, o Brasil se aproxima deles. Se alguém ocupa um espaço na vida pública, é direito do público saber o máximo sobre ele. Há leis contra difamação ou que protegem a intimidade da família. Eu não gostaria de saber que fariam uma biografia minha não autorizada, mas sou jornalista, uma figura pública. Posso impedi-lo? Não. O que espero é levar a vida de maneira tal que não me envergonhe de nada quando publicado.

Como o sr. vê as revelações de Edward Snowden sobre a agência de segurança dos EUA?

Snowden ou Assange (Julian, do WikiLeaks) têm uma cruzada para abrir governos, pelo menos os ocidentais, e isso é uma opção ideológica. Por que não exigimos o mesmo da Rússia ou da China? Porque não se pode, porque usam a violência para amedrontar jornalistas. Também é certo que Snowden nos está proporcionando, a seu gosto, algo que não lhe foi entregue. É um ex-espião contratado que foi no arquivo de seus chefes, tomou dados, colocou numa maleta, pegou uma avião para a China, depois para a Rússia, e entregou-os a um jornalista de sua seleção. Há 20 anos, seria considerado um traidor porque tínhamos a Guerra Fria. O mundo mudou. Mas a Rússia não mudou tanto. Não sei como Snowden tem coragem de falar sobre liberdade de expressão desde a Rússia de Putin. Quem é Vladimir Putin? Um ex-agente da KGB que arrebatou os recursos naturais de seu país para se converter em um dos homens mais ricos da Terra. Que mata e encarcera todos os que falam mal dele, de homossexuais a jornalistas. Deve ser estranho e desconfortável para Greenwald (Glenn, do Guardian, que revelou documentos da NSA) que Snowden tenha se refugiado em um país que é o maior repressor de sua opção sexual. Não gosto dos abusos do governo, concordo que a NSA se tornou muito grande, mas não sei se este é o mal maior do mundo. Eu rejeito o ponto de vista clássico de que todos os pecados residem no Ocidente. Vivi minha carreira em guerras, sei quais são os riscos. Snowden ou Assange nunca estiveram em áreas de conflitos e não sei se Greenwald já saiu de Nova York ou Rio. Para mim, que espiem meu computador é incômodo. Mas é pior que me degole a Al-Qaeda na frente das câmeras, o que é uma ameaça real. / A.C.

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