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Censura segue firme na China

Jornalistas recebem ordens de escritório de propaganda sobre como publicar matérias

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

31 de maio de 2019 | 05h00

Foi há 30 anos, em 4 de junho, que o mundo aprendeu, consternado, a palavra Tiananmen, nome de uma grande praça em Pequim. O drama vinha fermentando desde que os estudantes manifestaram desejo de homenagear Hu Yaobang, um dirigente que tinha morrido, e fora deposto de seus importantes cargos pelas autoridades.

Os alunos não saiam do local. No dia 3 de junho, os tanques entram em cena e esmagam os jovens. A repressão completa o trabalho. Balanço do drama: nenhum morto, dizem as autoridades. Milhares de mortos, corrige a Anistia Internacional. 

Mais tarde, em 2013, Xi Jinping assumiu o controle da China. Sob seu reinado, a economia realiza “saltos quânticos”, torna-se a segunda maior do mundo, e acredita-se que em breve alcançará a dos EUA. Sucesso brilhante, mas com um sombrio reverso de medalha. Gradualmente, se desenvolve um “culto de personalidade”, de memória sinistra. Ao mesmo tempo, o regime aperta cada vez mais as travas que sufocam as opiniões livres, o pensamento.

Os jornalistas estão no olho do ciclone. Após anos de intimidação, eles retomam a esperança. Xi Jinping completará em breve seu segundo mandato e seu sucessor pode ser menos duro. Mas, numa noite em março de 2018, Xi adota uma emenda que lhe permite permanecer no poder até quando quiser. Nas redações, consternação.

Os processos que permitiram monitorar a imprensa são complexos, perversos, variados e muitas vezes renovados. Pequim recorre a muitos meios. Os chefes usam seu trabalho sujo para as dificuldades que a imprensa chinesa, como a de todos os países do mundo, sofre em razão de seus deslumbrantes desenvolvimentos tecnológicos. A imprensa se verga frente a seu concorrente, por isso enfraquece e fica mais vulnerável. Mas Pequim acrescenta seu toque particular a essa tabela, usando salários.

Até mesmo os jornalistas mais respeitáveis ganham baixos salários. O que desencoraja as almas mais fortes. Um conhecido jornalista recebia ¤ 2 mil por mês. Com um filho, ele “desiste”. Entra em uma empresa de gestão de ativos e ganha de cinco a seis vezes mais do que ganhava quando era repórter.

Há outra estratégia. Jornalistas que são vítimas da internet tentam transformá-la em uma arma a seu favor. Pequim não gosta disso e contra-ataca graças ao escritório de propaganda partidária, que bombardeia os sites de dicas que sempre começam nos mesmos termos. Essa agência chega a dizer aos jornalistas o que fazer: “Coloque o artigo sobre a conferência aberta por Xi Jinping no topo da página inicial. Em seguida, insira o artigo sobre dignitários estrangeiros. Utilizar apenas informações divulgadas pelas autoridades competentes.”

Outra mensagem amigável dos chefes. “Sobre o atentado de Jiangxi diante de uma escola, que deixou 11 feridos (fevereiro 2010), as fotos mostrando o sangue são proibidas. Não envie jornalistas ao local.” Esses conselhos são, na realidade, ordens.

Uma jornalista trabalhou 16 anos na Província de Shanxi e abriu um site no We Chat, uma rede muito popular. Até 2006, seus artigos eram acessíveis por um dia ou dois. Dezenas de internautas os seguiam. Seu nome é Jiang Xue.

Para escapar da censura, ela mudou de nome, mas a censura se saiu melhor. Os artigos são apagados após algumas horas. Ela faz acrobacias pela internet. Ela não ganha nenhum dinheiro. Ela consome suas economias. Mas por quanto tempo? / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

 

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