Censura ocultou resistência a Kadafi em Trípoli

De acordo com moradores, capital da Líbia chegou a cair nas mãos dos manifestantes em fevereiro, mas ditador a retomou com ajuda de criminosos

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI, O Estado de S.Paulo

25 Setembro 2011 | 03h05

Nos seis meses transcorridos entre a eclosão da revolta na Líbia, em fevereiro, e a queda de Trípoli, em agosto, quase nada se sabia sobre o que se passava na cidade. Os 53 jornalistas estrangeiros credenciados pelo regime permaneceram confinados no Hotel Rixos, de onde só saíam escoltados pelo governo, para ver o que queriam mostrar a eles - como supostas mortes de civis em ataques da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Até isso era em geral fabricado. Apenas uma residência foi comprovadamente atingida por um míssil em Trípoli, matando uma família. Os aviões da Otan realizaram mais de 20 mil voos e despejaram milhares de bombas sobre a Líbia.

A qualidade da informação foi graças a dezenas de colaboradores que não desertaram do regime exatamente para ajudar na sua queda. A precisão dos mísseis chegou ao ponto de, no Escritório Nasser, que poucos sabiam que funcionava como prisão e centro de torturas, a área administrativa ser destruída pelos mísseis, enquanto as alas das celas, onde estavam dezenas de presos políticos, a cerca de 100 metros de distância, mantiveram-se intactas.

As imagens de Trípoli mostradas pela TV estatal eram de alegres manifestantes saudando Muamar Kadafi - em pessoa ou em cartazes - na Praça Verde, hoje Praça dos Mártires, de frente para o Mar Mediterrâneo e ao lado da Seraya al-Hamra, formidável fortaleza de pedra erguida pelos otomanos.

Somente depois da tomada de Trípoli, em 23 de agosto, foi possível saber o que de fato aconteceu na cidade durante a guerra civil, e como seus moradores viveram. Por exemplo, não se sabia que a capital caiu em 20 de fevereiro, o mesmo dia que Benghazi. Segundo os moradores, Kadafi retomou a cidade no dia 21, depois de reagrupar suas brigadas e mandar soltar, durante a noite, os presos comuns, entregar-lhes armas e licença para matar, estuprar e saquear em defesa do regime.

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