REUTERS/Sergei Karpukhin
REUTERS/Sergei Karpukhin

Centenário da Revolução tem comemorações modestas na Rússia

Enquanto o aniversário da Revolução bolchevique a cada 7 de novembro foi celebrado com suntuosidade no período soviético, hoje o Kremlin evita glorificar mudança de regime pela força; programa oficial prevê exposições e colóquios de especialistas

O Estado de S.Paulo

07 Novembro 2017 | 10h56

MOSCOU - A Rússia comemora, nesta terça-feira, 7, sem grandes pompas, os 100 anos da Revolução bolchevique de outubro, grande marco político do século 20, com o Kremlin temendo uma glorificação da mudança de regime pela força.

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Enquanto o aniversário da Revolução foi celebrado com suntuosidade no período soviético, com um grande desfile no Praça Vermelha a cada 7 de novembro - correspondente ao 25 de outubro do calendário juliano em vigor em 1917 -, o programa oficial de agora prevê, muito modestamente, exposições e colóquios de especialistas.

O desfile militar realizado nesta terça na Praça Vermelha, por exemplo, foi uma celebração ao histórico desfile militar de 1941, foi realizada em pleno cerco das tropas nazistas, durante a 2ª Guerra.

Para as autoridades, os poucos eventos previstos para o grande público são uma ocasião de destacar a importância da unidade nacional e da reconciliação, evitando, sobretudo, os temas sensíveis. "Por que deveríamos celebrar um evento desse tipo?", disse à imprensa em outubro o porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov.

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O Partido Comunista, que continua sendo a maior força de oposição no Parlamento russo, deve fazer uma concentração perto de uma estátua de Karl Marx, não muito distante do Kremlin. A expectativa é que o evento reúna pouco mais de cinco mil pessoas.

Já o movimento de esquerda nacionalista Outra Rússia, liderado pelo escritor Eduard Limonov, também fará uma manifestação autorizada pelas autoridades. Na segunda-feira, cerca de 20 de seus simpatizantes foram detidos em São Petersburgo.

Fim das divisões

Até o momento, o presidente Vladimir Putin evitou participar da maior parte dos eventos organizados para celebrar o centenário, incluindo um show de luzes em 3D projetado, neste fim de semana, sobre a fachada do Palácio de Inverno de sua cidade natal, São Petersburgo.

Um dos poucos eventos relacionados à data dos quais ele participou foi a inauguração de uma nova igreja em Moscou. Segundo Putin, tratou-se de algo "profundamente simbólico", na medida em que a chegada dos revolucionários ao poder em 1917 implicou a destruição do clero e a perseguição dos fiéis.

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No final de outubro, Putin inaugurou um memorial em homenagem às vítimas da repressão política, afirmando que deseja "deixar para trás" as divisões do passado.A Revolução "é uma parte integral e complexa da nossa história", que tem de "ser tratada objetivamente e com respeito", declarou Putin em novembro.

Desde sua chegada ao Poder, o presidente se esforçou para reconciliar a sociedade e a memória nacional. Para ele, não é conveniente se decantar entre a Rússia czarista, que se destaca por sua estabilidade e seus valores tradicionais, e a Rússia soviética.

O comitê criado para a comemoração reflete a prudência de Putin. Embora tenha incluído personalidades independentes e críticas do poder, ministros e autoridades da Igreja Ortodoxa, não há qualquer membro do Partido Comunista, tampouco qualquer ativista a favor da monarquia.

'Silêncio ensurdecedor'

Para o Kremlin, as comemorações da Revolução devem servir para "tirar lições do passado". Essas lições, acrescenta o governo, são claras: trata-se de prevenir qualquer contestação mínima ao poder vinda das ruas, ainda mais a poucos meses da eleição presidencial de março de 2018. Ninguém tem dúvida de que Putin se apresentará para um quarto mandato.

Qualquer possibilidade de questionamento é imediatamente demonizada pelo governo, que vê em qualquer protesto social, ou político, o trabalho de forças "antipatrióticas" mais ou menos ligadas ao exterior.

No fim de semana passado, a Polícia russa prendeu centenas de manifestantes contrários a Putin, que foram às ruas em resposta ao chamado de um líder opositor no exílio e de dezenas de pequenos grupos nacionalistas e de extrema direita.

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Para uma grande parte dos russos, este centenário da Revolução deveria passar despercebido. Segundo um estudo encomendado pelo Partido Comunista, 58% da população sequer está a par das comemorações.

"O país que uma vez contou sua existência a partir de Outubro, agora assiste ao Centenário com um silêncio ensurdecedor", resumiu o historiador Ivan Kurilla, no jornal Vedomosti. / AFP

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