Ilustração: Farrell
Ilustração: Farrell

Centenário de JFK: O legado de uma presidência incompleta

John F. Kennedy, um dos presidentes mais populares da história dos EUA, faria 100 anos amanhã

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2017 | 05h00

John F. Kennedy é um dos poucos personagens cuja vida merece ser contada do fim. Assim, sua história começa no dia 22 de novembro 1963, em Dallas. Ele desfila com sua mulher, Jacqueline, em um Lincoln Continental conversível preto. Ao entrar na Praça Dealey, acena para a multidão. Em poucos segundos, dois disparos deixam o país em choque.

O caso é cercado de suspense. Lee Harvey Oswald, ex-fuzileiro que puxou o gatilho, morreu dois dias depois com um tiro na barriga disparado por Jack Ruby, gerente de casas de prostituição ligadas à máfia. Por que Oswald matou Kennedy e Ruby matou Oswald? 

A falta de respostas deu asas a teorias conspiratórias. Uns culparam o FBI e a CIA. Outros, Fidel Castro. A comoção nacional, porém, transformou o defunto em mártir. Morria o presidente mais jovem da história dos EUA, o primeiro nascido no século 20. O mais charmoso. O frasista de discursos curtos, sempre direto ao ponto. Até hoje, o único católico a ocupar a Casa Branca. Sua família ganhou status de clã, a monarquia que os americanos nunca tiveram.

Na trajetória de Kennedy, há outro mistério menos complicado de decifrar: a dissonância entre fatos e paixão popular. Os intelectuais o consideram um presidente sem brilho. O escritor Gore Vidal dizia que ele foi “um dos piores da história dos EUA”. Outros criticavam seu comportamento. “Ele não transformou suas conquistas em nada significante”, escreveu Nigel Hamilton na biografia JFK: Reckless Youth. Para o jornalista Izzy Stone, Kennedy era uma “ilusão de ótica”. “Acho que não haverá muito espaço para John Kennedy na história”, condenou o cientista político Richard Neustadt.

Mas, na contramão, a patuleia coloca John Kennedy no panteão dos semideuses americanos. O Depósito de Livros do Texas, de onde partiram as balas do rifle italiano de Oswald, virou um museu visitado por 350 mil pessoas todo ano. No livro de visitas, mensagens laudatórias comparando JFK a Jesus Cristo e americanos que se lembram do que comiam no almoço quando as TVs anunciaram o assassinato. Como explicar o descompasso? 

De fato, o primeiro ano de Kennedy na Casa Branca foi um desastre. Em 1961, nenhum projeto importante avançou no Congresso. Para piorar, ele autorizou a invasão de Cuba. Em abril, milicianos treinados pela CIA desembarcaram na Baía dos Porcos. Foi um vexame. JFK assumiu a responsabilidade pelo fiasco. “A vitória tem mil pais, mas a derrota é órfã”, disse. 

Seis semanas depois, outra humilhação. Na cúpula de Viena, ele foi fulminado por Nikita Kruchev, que lhe passou um sermão sobre vários temas internacionais. JFK se surpreendeu com a agressividade do líder soviético. “Nunca vi um sujeito assim”, disse Kennedy ao jornalista Hugh Sidey, da revista Time. “Eu disse que um ataque nuclear poderia matar 70 milhões de pessoas em 10 minutos. Ele olhou para mim como se dissesse: ‘E daí’?” Mais tarde, ele reconheceu que foi despreparado ao encontro. “Foi o pior dia da minha vida”, confessou a James Reston, colunista do New York Times

Seu comportamento levou Kruchev a concluir que os americanos haviam colocado um covarde na Casa Branca. Em Berlim, um muro começou a subir. Em Cuba, os silos se abriam para os mísseis soviéticos. Os comunistas avançavam no Laos. Precisando recuperar a credibilidade, Kennedy toma outra decisão miserável: enviar tropas para o lodaçal vietnamita.

Ironicamente, sua sorte virou no momento mais tenso. Em outubro de 1962, o mundo esteve à beira da destruição nuclear depois que um voo de reconhecimento americano descobriu 40 silos soviéticos sendo preparados em Cuba. Durante 16 dias, o presidente sofreu pressão de assessores para atacar. Com sangue frio, saiu-se bem com a imposição de um bloqueio naval à ilha. No fim, a Crise dos Mísseis causou a distensão com Moscou – cuja marca foi a instalação do “telefone vermelho”, uma linha direta entre ele e Kruchev.

No entanto, mais determinante foi seu último ano de vida. Em 1963, em discurso transmitido do Salão Oval, ele atacou a segregação racial, propondo pela primeira vez o que seria a Lei dos Direitos Civis. “Os EUA têm de examinar sua consciência”, disse. Antes de morrer, Kennedy teve tempo de esboçar um plano nacional de sufrágio universal (base da Lei do Direito de Voto, de 1965) e um programa federal de seguro de saúde para idosos (que seria o Medicaid). 

Nada disso avançou enquanto ele esteve na Casa Branca. Mas, depois do assassinato, seus projetos vingaram graças à habilidade de Lyndon Johnson, o vice que virou presidente, e à quase necessidade de estabelecer um legado para o líder martirizado nas ruas de Dallas. 

 

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Centenário de JFK: O amante

Dentre as mulheres seduzidas pelo charme de Kennedy, a atriz Marilyn Monroe sofreu quando ele resolveu abandonar o barco

O Estado de S.Paulo

28 Maio 2017 | 05h00

Marilyn Monroe, atriz e modelo 

Presente de aniversário

Era um jantar em homenagem ao presidente, em fevereiro de 1962, quando ela monopolizou o salão de um hotel de Nova York ao entrar vestida para matar. John Kennedy sorriu. No mês seguinte, os dois se encontraram algumas vezes em Palm Springs, na casa de Frank Sinatra. Foi quando circularam os primeiros boatos. Mas, enquanto ela acreditava que a relação era séria, ele a tratava como mais uma vítima do seu charme. Em maio, quando o tititi ficou mais forte, Kennedy decidiu abandonar o barco. A decisão foi tomada após uma festa do Partido Democrata no Madison Square Garden, em Nova York, no dia do aniversário do presidente. Marilyn saiu de um bolo cantando Parabéns a Você. Mais óbvio, impossível. “Foi o fim para ele”, diz Barbara Leaming, biógrafa de Marilyn. Ela ainda fez de tudo. Ligava constantemente para a Casa Branca, até que JFK enviou um amigo para convencê-la a parar.

Mimi Alford, estagiária da Casa Branca

Mergulho na piscina

Ela tinha 19 anos e havia começado um estágio na Casa Branca, no verão de 1962. Em entrevista à NBC, em 2012, Mimi Alford contou que ela e uma amiga, também funcionária da presidência, aceitaram o convite para um mergulho na piscina da Casa Branca. Para a surpresa geral, John Kennedy apareceu. “Posso me juntar a você”, disse o presidente. Nas semanas seguintes, sem constrangimento, os dois se encontravam na Casa Branca. Mimi disse que perdeu a virgindade no quarto da primeira-dama. Em outubro, quando o mundo estava à beira da hecatombe nuclear, John mandou a família para uma fazenda em Virgínia. Durante o dia, ele decidia se bombardeava os silos soviéticos em Cuba. À noite, se encontrava com Mimi. A relação, segundo ela, era estranha. Em seu livro de memórias, Once Upon a Secret, ela conta que o presidente, certa vez, pediu para assistir a ela fazendo sexo com seu assessor especial, Dave Powers. Após 18 meses, o delírio chegou ao fim.

Judith Campbell Exner, socialite californiana

Cama dividida com a máfia

Frank Sinatra e John Kennedy tinham um fascínio mútuo. O crooner admirava o estilo e a rápida ascensão do presidente, que adorava o glamour, as festas e as mulheres que Frank lhe apresentava. Uma delas era ex-namorada de Sinatra, a morena Judy Campbell. Foi durante a campanha presidencial, em 1960. Logo, os dois viraram amantes. A relação durou dois anos – documentados em ligações telefônicas e registros de entrada e saída da Casa Branca. O que Kennedy não sabia é que ela também dividia os lençóis com o mafioso Sammy Giancana. Em entrevista à revista People, em 1988, a senhorita Campbell disse que acertou vários encontros e trocas de envelopes misteriosos entre seus dois amantes. Em 1975, detalhes do caso extraconjugal do presidente vieram a público quando Judy teve de depor em uma comissão do Senado que investigava as tentativas da CIA de assassinar Fidel Castro. 

 

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