Reprodução/mqrp.qc.ca
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Centenas de médicos canadenses reclamam do aumento dos próprios salários

Petição na internet já foi assinada por mais de 700 profissionais que consideram receber valores adequados e pedem que recursos sejam destinados para outras áreas da saúde que apresentam déficit orçamentário e precisam de mais atenção

O Estado de S.Paulo

08 Março 2018 | 16h35

QUEBEC - Em um movimento que só pode ser descrito como totalmente canadense, centenas de médicos da província de Quebec estão protestando contra o aumento de seus salários com o argumento de que já recebem muito dinheiro.

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Até a tarde desta quinta-feira, 8, mais de 700 médicos, residentes e estudantes de medicina tinham assinado uma petição online pedindo o cancelamento do aumento. O grupo Médicos de Quebec pela Saúde Pública (MQRP, na sigla em francês) é composto por defensores do sistema público de saúde e criou a petição em 25 de fevereiro.

"Nós, médicos de Quebec que acreditam em um sistema público forte, nos opomos ao recente aumento de salário negociado por nossas federações médicas", diz o texto, em francês.

O grupo diz ainda que não poderia, em sã consciência, aceitar a elevação nos pagamentos enquanto as condições de trabalho continuarem difíceis para outros profissionais da área - incluindo enfermeiras e funcionários administrativos - e também enquanto pacientes "convivem com a falta de acesso aos serviços básicos em razão dos cortes drásticos dos últimos anos".

Nos últimos meses, um sindicato de enfermeiras de Quebec tem pressionado o governo a resolver a falta de profissionais nos hospitais, além de fazer lobby pela aprovação de uma lei para reduzir a quantidade de pacientes que cada profissional pode se responsabilizar.

O sindicato diz que seus membros estão cada vez mais sobrecarregados, o que resultou em uma série de protestos nos últimos meses para pressionar por melhores condições de trabalho.

Em janeiro, a situação foi retratada por uma postagem que viralizou no Facebook após a enfermeira de Quebec Émilie Ricard publicar uma foto sua, com os olhos marejados, depois do que descreveu como um turno noturno exaustivo. 

Émilie afirmou que como era a única enfermeira em seu andar, teve que cuidar de mais de 70 pacientes. Além disso, o trabalho a deixou tão estressada que ela teve cãibras que a impediam de dormir. "Este é o retrato de (ser) enfermeira", escreveu a profissional, criticando o ministro de Saúde de Quebec, Gaétan Barrette, que alega que a reforma do sistema de saúde é um sucesso.

"Não sei onde você está obtendo suas informações, mas não é na realidade da enfermagem", escreveu Emilie. "Estou devastada pela minha profissão, estou envergonhada pela pobreza do atendimento que forneci, ainda que dentro do possível. Meu sistema de saúde está doente e morrendo."

A publicação de Émilie foi compartilhada mais de 55 mil vezes e teve mais de 22 mil curtidas. 

"Sempre há dinheiro para os médicos, mas e para os outros (profissionais) que cuidam dos pacientes", questiona Nancy Bédard, presidente do sindicato das enfermeiras de Quebec, em declarações ao Global News.

Apesar das críticas, a federação de médicos especialistas de Quebec chegou a um acordo com o governo em fevereiro para aumentar os salários dos 10 mil médicos especialistas da província em 1,4%, elevando os custos dos atuais US$ 4,7 bilhões para US$ 5,4 bilhões em 2023, segundo a Canadian Broadcasting Corp (CBC).

Hoje, o salário médio de um médico especialista em Quebec já é alto - em média, US$ 403.537 ao ano - quando comparado com a província vizinha de Ontário - média de 367.154 ao ano -, segundo dados da CBC.

"A única coisa que parece estar imune aos cortes (do sistema de saúde) é o nosso salário", diz a petição do MQRP. "Ao contrário das declarações do primeiro-ministro (de Quebec, Philippe Couillard), acreditamos que é possível redistribuir os recursos para o sistema de saúde de Quebec para melhorar a saúde da população e cumprir com as necessidades dos pacientes sem colocar os profissionais nos seus limites."

Ainda não está claro se o movimento conseguirá impedir o aumento dos salários. Barrette, o ministro da saúde, comentou a questão pouco depois de a petição ser criada. "Se eles acham que recebem muito, podem deixar o dinheiro sobre a mesa", afirmou em entrevista à CBC em fevereiro. "Garanto que farei bom uso dele."

O ministro também disse que a situação a qual alguns trabalhadores de saúde são submetidos, como as enfermeiras, é algo que "tem que receber atenção total do governo", segundo o Toronto Star.

"Temos o dinheiro para resolver esta situação", afirmou Barrette ao jornal. "Isso não significa que temos uma quantidade infinita de dinheiro, mas temos a capacidade de resolver esta questão definitivamente." / THE WASHINGTON POST

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