Lucas Alvarado/Reuters
Lucas Alvarado/Reuters

Centenas de milhares de mulheres inundam as ruas do Chile no 8 de março

Manifestantes pediam ações do governo e da sociedade para enfrentar a violência contra as mulheres

Redação, O Estado de S.Paulo

08 de março de 2020 | 20h20

SANTIAGO - As ruas do Chile, especialmente Santiago, foram tomadas por centenas de milhares de mulheres neste domingo, 8, para combater o machismo e o patriarcado por ocasião do Dia Internacional da Mulher e com o impulso dado no país pelo coletivo feminista ‘Las Tesis’ e sua repercussão internacional.

A manifestação superou todas as expectativas da convocação e, por horas, grupos de mulheres se juntavam a uma mobilização que teve problemas para sair porque a avenida principal da capital chilena, por onde a marcha deveria passar, estava cheia de pessoas.

Apesar disso, com o passar das horas, a multidão avançou lentamente até cumprir o itinerário. Quando a liderança da manifestação já estava no ponto final, mais mulheres ainda chegavam ao ponto de partida.

Embora a polícia chilena tenha estimado em 125 mil pessoas a multidão que compareceu à manifestação em Santiago, a agência Efe calculou que o número de pessoas nas ruas neste domingo era muito maior do que no ano passado, quando a contagem foi de 250 mil manifestantes. A agência Reuters fala em 2 milhões de pessoas.

A grande maré roxa e verde, cores que representam a comemoração do 8 de março e a luta pelo aborto, respectivamente, dominaram as ruas de Santiago entre faixas, gritos e performances artísticas.

Entre essas performances, a mais repetida foi “Um estuprador no seu caminho”, de autoria do coletivo feminista chileno Las Tesis, apresentação que viajou o mundo gritando contra a violência contra as mulheres.

A magnitude da concentração não permitiu que todas as mulheres realizassem conjuntamente a dança característica que acompanha esse hino feminista nascido na cidade costeira de Valparaíso, mas algumas, em grupos, performavam a coreografia em diferentes pontos da marcha.

“E a culpa não era minha, nem de onde eu estava, nem de como me vestia. O estuprador é você”, diz o refrão da música, que foi reproduzida em várias línguas em todo o mundo.

Laura Poblete, farmacêutica de 38 anos, afirmou à agência Efe que o sucesso mundial do coletivo chileno ajudou muitas mulheres a ousarem apoiar os protestos deste domingo contra a violência sexista.

"Elas são um exemplo inspirador. Elas disseram e fizeram o que muitos não ousaram e aqui estamos graças a elas", disse Poblete.

Fim da violência e igualdade de direitos

A maioria das mulheres que compareceram à marcha compartilhava exigências semelhantes, mas, acima de tudo, as mais comuns eram o fim da violência e a conquista de direitos iguais.

Paula Martínez, 43 anos, juntou-se,  ao lado de sua filha estudante, às milhares de mulheres que aderiram à maré feminista no centro de Santiago.

"Eu tenho uma filha e no Chile muitos direitos são violados, especialmente os trabalhistas. As mulheres têm uma qualidade de vida tremendamente inferior à dos homens, mesmo que tenham o mesmo padrão de trabalho”, afirma. “Elas recebem metade do salário e fazem o dobro de trabalho. Essa é a minha luta”.

Já sua filha considerava que o Chile “era bastante injusto com as mulheres, como um todo”. “Temos que andar com medo na rua. Não posso andar assim porque tenho medo de que um dia não chegue a minha casa. Estupram as mulheres e eles não conseguem colocar os estupradores na cadeia”, acrescentou.

Na mesma linha, Yasna Jara, professora de 43 anos, disse que feminicídios no país "têm sido o pão do dia".

“O que muitos políticos falam é que é quase culpa das mulheres o fato de serem estupradas e violadas. Minha filha não pode sair com um shorts porque se sente assediada. O assédio e o desrespeito pelas mulheres já são o suficiente, queremos lutar contra isso para que nunca mais ninguém se sinta assediada”, explicou à Efe.

Exigência de maior proteção

Até agora, cinco feminicídios foram registrados no Chile em 2020, enquanto 2019 encerrou com um total de 46 crimes, segundo dados oficiais.

Os números não representam a realidade completa da violência contra as mulheres no Chile, uma vez que muitos casos nem são considerados como feminicídios.

A promulgação, nesta semana, da chamada "Lei Gabriela" mudou o cenário jurídico.

A nova legislação estende a estrutura legal do feminicídio a todos os crimes do gênero, não apenas em casos em que o autor viveu ou foi casado com a vítima, como era até então.

No entanto, para Gilda Flores, educadora de 68 anos, as coisas ainda não estão avançando como deveriam para as mulheres no Chile.

"O que mais nos dói é que temos que estar nas ruas novamente depois de uma ditadura tão brutal como a que tivemos desde 1973. Hoje estamos na mesma situação em que um governo de direita nos fez despir, no sentido de que não conseguimos nada, apesar de estarmos nas ruas há cinco meses", disse ela à Efe.

"Estou aqui pensando nas novas gerações. Não quero que elas vivam o que vivenciamos como mulheres".

8M une uma causa comum no Chile

Entre as novas gerações, as mais numerosas nas marchas do Chile, estava a estudante Valentina Sandoval, 19 anos, que com o rosto coberto por um capuz, como as amigas que acompanhava, apelou para lutar contra a violência que sofrem.

"No Chile e no mundo, há muito machismo e assédio nas ruas e em outros lugares. Todas vivemos e sempre são os mesmos problemas. É muito frustrante e irritante. Houve mortes. Basta de violações, de assédio nas ruas, de que eles nos toquem”, disse. /EFE

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.