Jim Huylebroek/NYT
Jim Huylebroek/NYT

Centenas de milhares fogem do Afeganistão enquanto o medo toma conta do país

Pelo menos 30 mil pessoas fogem do país a cada semana; milhares se deslocam internamente

Christina Goldbaum e Fatima Faizi, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 de agosto de 2021 | 05h00

CABUL - Haji Sakhi decidiu fugir do Afeganistão na noite em que viu dois membros do Taleban arrastarem uma jovem da sua casa e a açoitarem. Com medo pelas suas três filhas, ele colocou a família no carro na manhã seguinte e seguiu velozmente pelas sinuosas e barrentas estradas na direção do Paquistão.

Isso foi há mais de 20 anos. A família retornou a Cabul uma década mais tarde, após o regime do Taleban ser destituído com a invasão dos Estados Unidos. Mas agora o Taleban vem avançando e capturando áreas do país à medida que as tropas americanas se retiram. Sakhi, 68 anos, teme um retorno da violência que presenciou naquela noite. E desta vez, disse ele, sua família não vai esperar muito tempo para partir.

“Não temo deixar meus pertences para trás. Nem começar a vida do zero”, disse Sakhi, que recentemente requereu visto de entrada na Turquia para ele, sua mulher, as três filhas e um filho. “O que me aterroriza é o Taleban”.

Por todo o Afeganistão, um êxodo em massa vem ocorrendo à medida que o Taleban prossegue com sua brutal campanha militar, tendo capturado mais da metade dos mais de 400 distritos do país, segundo alguns cálculos. E com isso o temor de um retorno a um governo extremista cruel ou de uma guerra civil sangrenta entre as milícias etnicamente alinhadas toma conta das pessoas.

Até agora neste ano, cerca de 330 mil afegãos se deslocaram para outras áreas do país, e mais da metade abandonou suas casas desde que os Estados Unidos começaram a retirar seus soldados do país, segundo as Nações Unidas.

Muitos foram para acampamentos improvisados ou se acotovelaram em casas de parentes em cidades, os últimos nichos sob controle do governo em muitas províncias. Outros milhares tentam obter passaportes e vistos pretendendo deixar totalmente o país. Outros se abarrotam em picapes de contrabandistas num recurso desesperado para atravessar ilegalmente a fronteira.

Nas últimas semanas, o número de afegãos atravessando ilegalmente aumentou entre 30% a 40%, comparado com o período antes de as tropas estrangeiras começarem a sair do país, em maio. Agora, pelo menos 30 mil pessoas fogem do Afeganistão a cada semana.

Este é um primeiro sinal de uma crise de refugiados iminente, segundo as agências, e um alerta aos países vizinhos e à Europa de que a escalada da violência que começou no início da saída das tropas já ultrapassa as fronteiras do país.

“O Afeganistão está à beira de uma nova crise humanitária”, afirmou em julho o porta-voz do Alto Comissariado para Refugiados das Nações Unidas, Babar Baloch. “Se não se conseguir um acordo de paz no Afeganistão e sufocar a violência atual, veremos novos deslocamentos de pessoas”.

O repentino êxodo de afegãos remonta aos primeiros períodos de conflitos mais intensos: milhões fugiram do Afeganistão nos anos posteriores à invasão soviética em 1979. Uma década depois, mais cidadãos fugiram quando os soviéticos se retiraram e o país mergulhou numa guerra civil. O êxodo continuou quando o Taleban assumiu o poder em 1996.

Os afegãos atualmente constituem uma das maiores populações do mundo de refugiados e requerentes de asilo. São cerca de três milhões de pessoas. E representam o segundo maior número de requerentes de asilo na Europa, depois da Síria.

Agora, o país corre o risco de entrar em mais um capítulo sangrento, mas esta nova onda de refugiados afegãos ocorre num período em que as atitudes com relação aos imigrantes endureceram em todo o mundo.

Depois de firmar um acordo de repatriação em 2016 para conter a imigração de países afligidos pela guerra, a Europa deportou dezenas de milhares de imigrantes afegãos. Centenas de milhares mais foram forçados a fazer seu caminho de volta pela Turquia, o vizinho Paquistão e o Irã, que juntos hospedam 90% dos afegãos deslocados em todo o mundo e deportaram um número recorde deles nos últimos anos.

As restrições impostas pelo coronavírus também tornaram a imigração legal e ilegal mais difícil, com os países fechando suas fronteiras e restringindo seus programas para refugiados, levando milhares de imigrantes a viajarem para a Europa usando rotas mais perigosas.

Nos Estados Unidos, os atrasos crescentes no programa Special Immigration Visa, destinado aos afegãos que enfrentam ameaças por causa do seu trabalho com o governo americano, deixaram cerca de 20 mil afegãos e suas famílias com direito de entrar no país presos no limbo burocrático no Afeganistão. O governo Biden tem sido fortemente pressionado a proteger os aliados afegãos após a saída das tropas e o apoio aéreo dos Estados Unidos em meio a uma insurgência Taleban.

Mas à medida que confrontos entre o Taleban, o governo e milícias intensificam e as vítimas civis chegam a números recorde, muitos afegãos estão determinados a fugir do país.

Numa manhã recente em Cabul, pessoas se reuniam diante do departamento de emissão de passaportes. Em questão de horas, a fila alcançava três quarteirões e passava por um mural com um sinistro alerta: “Não prejudique você e a vida da sua família. Imigração não é a solução”.

Dissuasão

Na região oeste do país, mais distante, um enorme número de afegãos se concentrou em Zaranj, centro de migração ilegal na província de Nimruz, onde caminhões de contrabandistas seguem para o sul pelas regiões fronteiriças na direção do Irã diariamente.

Em março, 200 carros partiram para a fronteira com o Irã diariamente vindos de Zaranj  - um aumento de 300% em comparação com 2019, segundo David Mansfield, pesquisador e consultor do British Overseas Development Institute. No final de julho, eram 450 carros se dirigindo para a fronteira a cada dia.

Os que podem pagam milhares de dólares para viajar e entrar na Turquia e seguir depois para a Europa. Muitos fazem acordos com os contrabandistas e pagam antecipadamente, planejando trabalhar ilegalmente no Irã até conseguirem dinheiro para fazer a etapa seguinte da sua aventura.

No Tajiquistão, as autoridades anunciaram que o país estava preparado para receber 100 mil refugiados afegãos depois de receber 1.600 este mês.

Outros países vizinhos expressaram menos disposição a receber afegãos e, em vez disso, reforçaram a segurança na fronteira e alertaram que suas economias não têm capacidade para suportar novo influxo de refugiados. Líderes na Europa Central também aumentaram a segurança nas suas fronteiras, temendo que o atual êxodo se transforme numa crise similar à de 2015, quando quase um milhão de migrantes, a maioria sírios, entrou na Europa.

Mas, no Afeganistão, cerca de metade da população já necessita de ajuda humanitária este ano – um número duas vezes maior do que no ano passado e seis vezes mais do que há quatro anos, segundo as Nações Unidas. /Tradução de Terezinha Martino 

 

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