Centenas de milhares tomam as ruas do Iêmen

Oposição exige saída imediata do presidente Saleh e adoção de reformas; dois importantes líderes tribais rompem com governo

, O Estado de S.Paulo

27 de fevereiro de 2011 | 00h00

Centenas de milhares de pessoas foram às ruas das principais cidades do Iêmen - país de 23 milhões de pessoas - para exigir a renúncia imediata do presidente Ali Abdullah Saleh e a adoção de reformas democráticas. As manifestações ganharam força ao mesmo tempo em que duas autoridades tribais estratégicas para a sustentação do governo de Sanaa anunciaram ter passado para o lado dos opositores.

Até agora, líderes tribais tinham evitado tomar parte na disputa. A onda de protestos que já derrubou governos na Tunísia e Egito - e mergulhou a Líbia numa violenta crise política -, chacoalha o Iêmen há semanas. Na sexta-feira, o presidente Saleh deu sinais de que trocaria o tom conciliatório com a oposição por uma escalada na repressão.

No mês passado, ele havia prometido à oposição deixar o poder em 2013, quando ocorrerão novas eleições (Saleh governa o país há 32 anos). Na sexta-feira, porém, seus soldados abriram fogo contra manifestantes desarmados. O saldo foi de 4 mortos e mais de 45 feridos. Ontem, Saleh apareceu na TV estatal líbia dizendo aos seus generais que as Forças Armadas não hesitarão em "defender a segurança da nação, assim como a unidade, liberdade e democracia".

A nova retórica do governo, somada à defecção de líderes tribais que antes apoiavam Saleh, ameaça transformar os protestos por reformas democráticas em mais uma batalha entre facções - à exemplo do que ocorre na Líbia. "Muitos se preocupam que líderes tribais tentarão sequestrar o que hoje são protestos pacíficos, conduzidos pela população civil, e fazer deles uma luta entre clãs", analisa Robert Malley, chefe do escritório responsável pela África do Norte e Oriente Médio do Crisis Group, instituição para prevenção de conflitos.

"O presidente está em uma posição realmente muito difícil. Ele nunca ficou diante de uma crise como essa", disse uma autoridade iemenita em condição de anonimato.

Os protestos em massa de ontem ganharam força com as notícias sobre o cerco ao ditador líbio, Muamar Kadafi. Assim como Trípoli, o governo de Sanaa se sustenta em um delicado equilíbrio de forças tribais. No norte e no sul do Iêmen, grupos separatistas conduzem há décadas uma insurgência contra o governo central.

O número de pessoas nas ruas impressionou analistas. Na capital, Sanaa, 80 mil pessoas teriam participado dos protestos. Em Taiz, no sul, a cifra teria alcançado 150 mil manifestantes, enquanto em Áden, cidade diante do golfo, cerca um ato contra o governo reuniu 30 mil, segundo fontes locais.

Jovens que convocaram os protestos de ontem rejeitaram as ofertas de diálogo feitas pelo presidente. "Não perderemos tempo com uma negociação ridícula porque sabemos que isso é um esforço para demonstrar como o regime é bom", disse Abdul-Rahman al-Julbain, um ativista de Sanaa. "O regime está mentindo e a maior prova é que muitos não foram convidados para o diálogo."

Teia de apoio. As tribos Hashid e Baqil - segunda maior federação tribal do país - já romperam com o governo e realizaram protestos na cidade de Emran. Diante de opositores, o xeque Hussein bin Abdullah al-Ahmar - aliado histórico e membro da mesma tribo de Saleh, a Hashid - anunciou que deixaria o comando do partido governista. "Convoco todos os iemenitas honrados a derrubar o regime", disse al-Ahmar diante dos opositores, boa parte deles empunhando armas. "O governo deve ir embora para ser substituído por instituições de Estado."

Outro líder tribal que tradicionalmente apoiava o regime de Sanaa, Mohammad Abdel Illah al-Qadi, também anunciou que estava abandonando o partido governista. Al-Qadi é um dos principais representantes da tribo Sanhan, que também servia como um dos pilares do Estado iemenita.

Para se manter no poder pelos últimos 32 anos, Saleh costurou uma teia de lealdades com base nas rivalidades entre líderes tribais. No entanto, desde o início dos distúrbios, em meados de janeiro, o presidente viu uma debandada de líderes da Hashid, sua própria tribo.

O enfraquecimento dos laços tribais e a onda de protestos ocorre enquanto a Al-Qaeda finca raízes no Iêmen, Estado fraco e vizinho da estratégica Arábia Saudita.

Em Washington, funcionários do governo de Barack Obama afirmam que, dentre os vários regimes do Oriente Médio em crise, a maior preocupação recai sobre o Iêmen. O governo de Saleh tem sido um importante aliado americano na luta contra a Al-Qaeda na região - Sanaa até mesmo ignorou ataques de aviões não tripulados dos EUA em seu território.

Autoridades americanas afirmam que "monitoram" cautelosamente os protestos no país aliado. / REUTERS e NYT

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