REUTERS/Stringer
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Mais de 2 mil são detidos em protestos contra prisão de Navalni na Rússia

Oposição marcou manifestações em 65 cidades em favor da libertação do opositor de Vladimir Putin, preso desde 17 de janeiro

Redação, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2021 | 08h51
Atualizado 23 de janeiro de 2021 | 16h34

MOSCOU - Das ruas congeladas do Extremo Oriente da Rússia e da Sibéria às grandes praças de Moscou e São Petersburgo, milhares de russos se reuniram em apoio ao líder da oposição Alexei Navalni neste sábado, 23, em um dos maiores confrontos nacionais em anos entre as autoridades russas e os críticos do Kremlin.

Ao menos 2.501 pessoas foram detidas em meio a protestos realizados por apoiadores de Navalni, o principal opositor do governo do país. Os manifestantes pedem a liberdade do rival do presidente Vladimir Putin, preso preventivamente desde o último dia 17. A equipe de Navalni convocou manifestações em 65 cidades russas e os protestos se estenderam por todo o território russo - que tem 11 fusos horários.

A capilaridade demonstrou como o opositor e seu movimento anticorrupção construíram uma extensa rede de suporte, apesar da repressão governamental e de ter pouco espaço na imprensa estatal. 

As primeiras passeatas aconteceram no Extremo Oriente do país, onde milhares de pessoas saíram às ruas em Vladivostok, a 9 mil quilômetros de Moscou. Gravações na cidade mostram policiais perseguindo grupos de manifestantes. Já em Kabarovsk, quase na fronteira com a China, a multidão enfrentou temperaturas de cerca de -14ºC enquanto gritava “vergonha!” e “bandidos!”. 

“Eu nunca fui um grande apoiador de Navalni, mas entendo que esta é uma situação muito séria”, disse Vitaliy Blazhevich, de 57 anos, um professor universitário russo em uma entrevista por telefone sobre o motivo de ter ido a um ato em Kabarovsk. “Sempre há esperança de que algo mude”. 

Em Yakutsk, na Sibéria, uma das cidades mais frias do mundo e onde a temperatura chegou a -52ºC neste sábado, uma filmagem mostra policiais carregando um manifestante pelos braços e pernas até uma van. 

Na capital Moscou, a concentração estava marcada para acontecer na praça Pushkin, onde a polícia havia instalado barricadas como tentativa de conter a organização. Apesar disso, cerca de 5 mil pessoas protestaram no local. 

A polícia local havia advertido que pretendia reprimir qualquer reunião não autorizada que considerasse uma “ameaça para a ordem pública”. O prefeito de Moscou, Serguéi Sobianin, disse que manifestações são “inaceitáveis” em meio a uma pandemia. As forças policiais agiram em manifestações anteriores às de sábado também, prendendo colaboradores do opositor ao longo da última semana por incitarem os encontros.

Vasily Zimin, um sócio de 47 anos de um escritório de advocacia em Moscou, caminhou pela lama no sábado em direção à manifestação e disse que tinha vindo para protestar contra a corrupção. “O copo está cheio. Como você pode dizer 'não agüento mais isso' enquanto está sentado no sofá?”

Mikhail Dravsky, um contador de 60 anos, disse que não apoia Navalni, mas não há outros líderes de oposição. Ele comentou que não esperava que muito mudasse como resultado dos protestos de sábado, mas acrescentou que as manifestações nas ruas às vezes podem funcionar.

Ele se lembrou de ter participado dos protestos em 1991 por causa de uma tentativa de golpe por oficiais de segurança e militares de linha dura contra Mikhail Gorbachev, o último líder soviético. “Eu também não pensei que funcionaria, mas teria ficado envergonhado se não tivesse aparecido”.

No Instagram, a mulher de Navalni, Yulia Navalnaya, disse que pretendia se juntar aos manifestantes em Moscou pelo seu marido, que “jamais se renderá”. Ela foi detida pela polícia. 

Navalni foi envenenado por um agente nervoso de nível militar na Sibéria em agosto de 2020, no que as autoridades ocidentais descreveram como uma tentativa de assassinato pelo estado russo. Ele foi levado de avião para a Alemanha e se recuperou. No domingo passado, depois de voar para Moscou,  foi preso no controle de passaportes. 

​Ele acusa Putin de encomendar o seu assassinato, enquanto o presidente russo nega envolvimento com o caso. O governo afirma que Navalni violou os termos da liberdade condicional de uma pena suspensa que recebeu há seis anos e está tentando condená-lo a um ano de prisão. Por enquanto, Navalni deve permanecer detido pelo menos até 15 de fevereiro.

Navalni é uma ameaça real para Putin? 

A expectativa dos apoiadores de Navalni é pressionar as autoridades a favor da libertação do líder. Pesquisas de opinião - de valor incerto em um país saturado pela propaganda do Estado e muitas vezes com medo de se manifestar - indicam que Putin não enfrenta nenhum desafio grave para sua popularidade por parte de Navalni. 

Uma pesquisa de opinião realizada em novembro pelo Levada Center, uma organização de pesquisas independente, descobriu que apenas 2% dos entrevistados nomearam Navalni como sua primeira alternativa quando perguntados quem eles escolheriam se uma eleição presidencial fosse realizada no domingo seguinte. Enquanto isso, 55% escolheram Putin.

Essas pesquisas, no entanto, dizem menos sobre o nível de popularidade de Navalni do que o sucesso do Kremlin em entorpecer a mente de muitas pessoas até mesmo para a possibilidade de uma alternativa a Putin. Ele quase certamente venceria uma disputa eleitoral frente a frente contra Navalni, mas se recusou a permitir que o concorrente disputasse. 

Na única ocasião em que Navalni teve permissão para disputar - para a eleição para prefeito de Moscou em 2013 - ele obteve 27% dos votos e terminou em segundo, atrás de um candidato leal do Kremlin. O resultado enervou tanto o governo que Navalni foi então colocado em prisão domiciliar por acusações de fraude e peculato que o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos considerou com motivações políticas.

Embora Navalni pareça ter apenas o apoio de uma minoria entre o público em geral, ele foi aplaudido por muitos jovens russos, que constituíam a maior parte da multidão em Moscou e em outros lugares no sábado e, em grande parte, obtêm suas notícias nas redes sociais, em vez da televisão estatal. 

Pesquisas mostram que a oposição a Putin também é forte entre os profissionais e a classe média, especialmente em Moscou, e indicam que cerca de um terço dos residentes da capital se opõe ao governo.  / NYT, AFP E REUTERS

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