Rebecca Blackwell/AP
Rebecca Blackwell/AP

Centro de apuração na Pensilvânia vira ponto de protestos

Democratas e republicanos acompanham de perto a contagem dos votos

Robin Siteneski, Especial para o Estadão

06 de novembro de 2020 | 21h11

FILADÉLFIA - Desde terça-feira, o Pennsylvania Convention Center, onde é feita a apuração dos votos no Estado, tem um apelido: é a “fábrica de votos”. É dali, um centro de eventos com quase um milhão de metros quadrados, que os democratas esperam que saiam os votos que levarão Joe Biden à presidência – a Pensilvânia tem 20 votos no colégio eleitoral, mais do que ele precisa para chegar à Casa Branca.

Por ser decisivo, o local tem recebido manifestantes democratas e republicanos. A esquina entre N12 St e Arch St foi fechada quinta-feira à tarde. De um lado, em frente ao centro de convenções, apoiadores do presidente Donald Trump hastearam bandeiras da campanha e cartazes com o imperativo “Pare a fraude”. Barricadas e um cordão de policiais de bicicleta separavam aproximadamente 50 republicanos dos apoiadores de Joe Biden, que somavam pelo menos 100. Um helicóptero da polícia sobrevoava o local e cerca de 50 agentes estavam alertas em um parque próximo.

“O meu presidente está sendo trapaceado e eu estou aqui para apoiá-lo”, disse ontem Pete Franklyn, de 45 anos, que trouxe os filhos Aidan, de 4 anos, e Isabele, de 5, para a manifestação. Ele afirmou que as duas únicas vezes em que ele votou foram em Trump. “Eu tive uma vida difícil, passei dez anos na prisão. Eu deveria estar daquele lado”, disse, se referindo aos democratas. “Há 20 ou 30 anos, minha mãe estava assistindo ao programa de televisão em que ele demitia pessoas, O Aprendiz, e eu dizia: Por que não podemos ter alguém assim como presidente?”, contou.

Do outro lado da barreira, DJs e bandas com tambores animavam os democratas, que dançavam e pediam para que os votos fossem contados. Com o filho de um ano nas costas, Annie Anderson, de 37 anos, engrossava o protesto. “Quero que meu voto conte para mostrar para meu filho que a democracia funciona quando as pessoas comparecem”, afirmou a doutoranda em Estudos Socais que votou antecipadamente pelo correio.

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As manifestações na Pensilvânia tiveram o incentivo do presidente. Na manhã de quarta-feira, um dos filhos de Trump, Erik, e o advogado e ex-prefeito de Nova York Rudolph Giuliani foram à Filadélfia anunciar que estavam acionando a Justiça para interromper a apuração. A campanha republicana repetiu a estratégia em outros Estados onde a vantagem do presidente diminuiu com o avanço da contagem dos votos a distância, contabilizados só depois das cédulas depositadas no dia da eleição.

“Eu precisava vir aqui apoiar o presidente, ele está isolado na Casa Branca. O povo precisa mostrar que sabe da fraude que está acontecendo nesse país”, afirmou Ken Cooper, de 26 anos. A lealdade dos apoiadores de Trump é proporcional ao entusiasmo dos democratas. Victor Torres, de 45 anos, participa de protestos antirracismo desde a metade do ano. Agora está na frente da “fábrica”. “O presidente Trump faz pouco para condenar o ódio nesse país e agora tenta suprimir o direito do voto dos negros. Ele quer que as nossas cédulas não sejam contadas”, disse Torres.

Espelho do país

Uma vitória de Biden na Pensilvânia deve servir de laboratório para que os democratas conduzam uma nova gestão com o objetivo de anular os efeitos do trumpismo, segundo o professor de ciência política da Universidade Hamline, David Schultz.

O Estado, afirmou ele, pode ser considerado quase um espelho do país com duas zonas urbanas expressivas, extensos subúrbios, população rural relevante e um parque industrial atingido com força pela globalização, que levou as indústrias a deixarem os Estados Unidos para produzir com mão de obra mais barata no exterior.

Schultz disse que uma derrota de Trump nas urnas é diferente de uma derrota do movimento criado por ele. “Trump é somente a persona do trumpismo, da mesma maneira que Juan Perón era o personagem do peronismo. Existem muitas forças que criaram Donald Trump que não vão desaparecer”, disse.

De acordo com o professor da Universidade Hamline, “o que alimenta o trumpismo é ansiedade e o medo”. “Medo de mudanças demográficas e raciais e desconforto econômico incomodam muita gente”, disse. “A administração Biden e os democratas têm de fazer com que essas pessoas se sintam confortáveis e seguros com essas mudanças. O quão bem-sucedidos eles vão ser, eu não sei.”

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