Cercas contra a ameaça jihadista

Cada vez mais países do Oriente Médio e do Norte da África erguem muros para se proteger do Estado Islâmico

SALMA EL WARDANY & CAROLINE ALEXANDER*, BLOOMBERG NEWS

25 de julho de 2015 | 02h02

Enfrentando a ameaça crescente da violência jihadista, muitos países que estão mais em risco buscam se refugiar atrás de uma das mais antigas formas de defesa. A Tunísia foi o mais recente país a investir num muro de proteção na fronteira depois de dezenas de turistas estrangeiros serem mortos em dois ataques cometidos por militantes islâmicos treinados na vizinha Líbia e armados por contrabandistas. O muro e as torres de observação, erguidos por ordem do primeiro-ministro Habib Essid, terão 160 quilômetros de extensão - da costa para o interior ao longo do trecho mais vulnerável da fronteira entre os dois países.

Do Marrocos à Arábia Saudita, as fronteiras vêm sendo fortificadas a um ritmo que não se observava desde os meses posteriores aos atentados de 11 de setembro de 2001. "Hoje, o Oriente Médio e o Norte da África são as regiões mais fortificadas do mundo", disse Said Saddiki, professor de relações internacionais e direito internacional da Universidade de Ciência e Tecnologia Al-Ain, em Abu Dabi. "São desde cercas dentro de cidades a muros contra a entrada de imigrantes e fortificações que servem como barricadas contra a insurgência."

As construções foram motivadas pelo temor do EI, após suas conquistas no Iraque e Síria e a capacidade do grupo de inspirar extremistas muçulmanos por toda a parte, ou por preocupação com nações vizinhas em colapso. O grupo jihadista construiu seus próprios muros para conter ataques e impedir que as pessoas fujam em torno das cidades iraquianas de Tal-Afar e Mossul. O governo acossado da Síria instalou muros de concreto em torno de áreas de apoio ao regime em Homs. As barreiras oferecem uma solução rápida, mas são caras e, no final, podem não resolver os problemas.

Das mais famosas defesas físicas do Oriente Médio, a maior parte fracassou. As antigas muralhas de Jerusalém não detiveram a sucessão de conquistas e as fortificações da Constantinopla bizantina não impediram a chegada dos otomanos. Embora as barreiras modernas consigam conter o tráfico e as travessias ilegais de fronteiras no curto prazo, nunca oferecem uma segurança duradoura sem que haja uma cooperação entre os países fronteiriços.

"As barreiras erguidas por Israel funcionaram bem até agora", afirmou Brent Sterling, autor de Do Good Fences Make Good Neighbors? (Boas cercas produzem bons vizinhos?) e professor da Universidade Georgetown. Mas, no longo prazo, eliminam o incentivo para se tentar alcançar um acordo permanente com os palestinos", disse.

Na luta contra os movimentos jihadistas, quando aspirantes a militantes com frequência são nativos e imperceptíveis no meio da multidão e a instrução ou doutrinação pode ser fornecida pela internet, as barreiras são ineficazes. A Arábia Saudita, que possui cercas fortemente militarizadas ao longo de suas fronteiras terrestres, sofreu dois atentados à bomba contra duas mesquitas este ano. "Os construtores de muros estão tentando aumentar seu controle e esperam pelo melhor", disse Sterling. "Não são um remédio e se você constrói um muro, tem também de lidar com o problema e não ficar sentado ali eternamente esperando que ele desapareça."

Na Tunísia, onde turistas europeus foram mortos numa praia em junho, a militância é insuflada pela pobreza longe da próspera costa do nordeste do país. Embora o governo de Túnis tenha prometido enfrentar os pregadores radicais e conter as viagens para as zonas de guerra na Líbia, os ativistas dizem que pouca coisa foi feita para pôr fim à marginalização econômica e manifestações exigindo mudanças são sempre recebidas com tropas de choque.

"As dificuldades nas zonas de fronteira podem até ser exacerbadas pelas barreiras e as pessoas que mais lucram com isto são os contrabandistas", disse Elisabeth Wallet, bolsista na Universidade de Quebec, em Montreal, e autora do livro Borders, Fences and Walls. A construção, porem, tem um preço. O "grande muro" da Arábia Saudita, separando sua região norte do Iraque, inclui torres de observação com câmeras e detectores de movimento, parte de um sistema de segurança avaliado em US$ 3,4 bilhões.

A Tunísia pretende gastar pelo menos US$ 81 milhões na primeira fase de seu muro de proteção. Ele deverá ser mantido e patrulhado. "Se tivéssemos investido na aquisição de um bom serviço de inteligência ou na resolução de alguns problemas econômicos e sociais, em vez de erguermos muros, estaríamos econômica, social e moralmente numa situação muito melhor", disse Liza Schuster, ex-professora na City University London, que estuda o tema. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

* SÃO JORNALISTAS

 

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