Cerco à livre informação no Egito

Pressão do governo leva empresas de mídia a mudar linhas de cobertura e se alinhar sob pena de censura

DAVID KIRKPATRICK &, MERNA THOMAS , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

28 de outubro de 2014 | 02h03

A pressão do governo egípcio sobre a imprensa livre levou um grupo de jornais a prometer restringir suas críticas a instituições estatais um dia depois de o presidente do Egito, Abdel-Fatah al-Sissi ter advertido sobre uma "conspiração" por trás de um ataque de militantes que matou pelo menos 31 soldados na semana passada.

Os editores disseram que condenaram o ataque, que ocorreu na sexta-feira na Península do Sinai, e também se comprometeram a enfrentar a "cultura hostil ao projeto nacional e às bases do Estado egípcio".

A declaração reforçou a probabilidade de aumentar a restrição às dissensões e pareceu uma tentativa de agradar a Sissi, que endureceu drasticamente seu tom, no sábado, quando tratou da efervescente insurgência islâmica na Península do Sinai, que experimentou uma escalada após o golpe militar, em julho de 2013.

Ao discutir o ataque de sexta-feira - o mais mortal contra militares egípcios em muitos anos -, Sissi ficou visivelmente irritado, culpando vagamente conspirações estrangeiras que, segundo ele, pretendiam "passar por cima da vontade do Egito".

"O Egito está travando uma batalha existencial", disse ele, acrescentando: "Precisamos conhecer as dimensões da grande conspiração contra nós que pretende derrubar este Estado". Sissi advertiu que novos endurecimentos virão. "Há luta, sofrimento e sangue", afirmou, enumerando as centenas de soldados e policiais que foram mortos em ataques de militantes.

"A batalha do Sinai está em curso. Ela não terminará em algumas semanas ou meses. Por favor, vamos permanecer firmes e não podemos deixar que ninguém passe por cima da vontade do povo ou do Exército." Nos últimos dias, instituições estatais e grupos leais ao governo se uniram na condenação ao terrorismo, mas também atuando contra qualquer tipo de dissensão contra o governo.

No sábado, o dono de uma importante rede privada de satélites substituiu um apresentador de talk-show, Mahmoud Saad, que havia sido levemente crítico ao governo. Em declaração, a TV Al-Nahar não se referiu a um incidente específico, mas disse que a "liberdade de expressão não pode justificar a ridicularização do moral do Exército egípcio".

Outros programas de televisão, conhecidos por exibir opiniões de oposição, nos três últimos anos ou mais, saíram discretamente do ar. A mídia noticiosa privada do Egito falou em apoio virtualmente unânime ao governo atual, desde que Sissi, então um general, depôs o presidente Mohamed Morsi, da Irmandade Muçulmana, no ano passado. As declarações da Al-Nahar e dos editores de jornais pareceram formalizar as políticas de apoio da mídia ao governo.

Também no domingo, um tribunal criminal do Cairo sentenciou 23 ativistas não islâmicos a três anos de prisão, seguidos por três anos de vigilância policial, por organizarem uma manifestação de rua não autorizada, em junho.

Os ativistas estavam protestando contra as rígidas restrições a protestos de rua e outras formas de reunião impostas depois do golpe militar - eles foram condenados por essa mesma lei.

Entre os acusados de maior visibilidade estavam Sanaa Seig, de 20 anos, que integra uma conhecida família de ativistas de esquerda, e a advogada Yara Sallam, de 28 anos, da Iniciativa Egípcia por Direitos Pessoais. Cada condenado foi também multado em US$ 1,4 mil. Outros milhares - incluindo islamistas e outros ativistas - foram encarcerados por protestar. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

DAVID KIRKPATRICK É JORNALISTA E

MERNA THOMAS É ATIVISTA

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