Cerco à oposição acirra disputa interna no Irã

Ahmadinejad apresenta-se como representante dos veteranos dos campos de batalha, enquanto Khamenei zela pelo caráter teocrático do regime

LOURIVAL SANTANNA , ENVIADO ESPECIAL / TEERÃ, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h04

Há um ditado persa que diz: "Quando não há mais nada para comer, os lobos começam a devorar uns aos outros." O regime iraniano foi tão eficaz em eliminar a oposição reformista e tecnocrata, que os conservadores agora disputam o poder entre si. Banida e silenciada, a oposição teve seus candidatos vetados, e convocou os eleitores a um boicote.

Num país em que não há pesquisas independentes nem informações confiáveis, isso tem ao menos um valor sociológico: foi possível observar, nas eleições parlamentares de sexta-feira, que tipo de pessoas apoia o regime, quais as suas razões e o seu volume.

"Votei nas pessoas que participaram da revolução, que conheço desde a revolução", enfatizou o metalúrgico aposentado Ismail Nadi, de 72 anos, mostrando um papel em que estavam meticulosamente escritos à mão os nomes de 30 candidatos - o número de cadeiras no Parlamento que cabe ao distrito de Teerã.

Defesa da revolução. Nadi votou na lista Paydari, ou Frente da Firmeza, que apoia o líder espiritual Ali Khamenei, na disputa com o presidente Mahmud Ahmadinejad.

O presidente tenta deslocar o poder do clero para seu grupo de conservadores leigos.

"Ahmadinejad é bom, mas é só uma pessoa. Ele não é especial", disse Nadi, comparando o presidente com o líder supremo. À pergunta sobre por que a Revolução Islâmica de 1979 é importante para ele, Nadi respondeu: "Só podemos contar conosco mesmos. Os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e a França deixam o seu país fazer o que querem?"

Essa é a narrativa central do regime: a de que o Irã é ameaçado pelas "potências arrogantes" e pela "entidade sionista", que não querem que o país se desenvolva.

Até mesmo a inflação alta, que acometeu o país principalmente nos últimos seis meses, e atingiu 22% no ano passado, é diretamente vinculada à intensificação das sanções internacionais por causa do programa nuclear iraniano.

Num certo sentido, para os conservadores, é como se o Irã não tivesse problemas internos: todos têm causas externas. A dinâmica é muito parecida com a de Cuba, também alvo de embargo econômico americano.

Essa narrativa não sensibiliza apenas pessoas da idade do metalúrgico aposentado, que sentem que "devem tudo" à revolução. "É meu dever votar, para defender meu país, a revolução dos nossos mártires", disse o estudante de engenharia mecânica Reza Amini, de 20 anos, enquanto esperava para votar, pela primeira vez, na Mesquita Imam Hussein, no centro-sul de Teerã. "A revolução é importante porque este é nosso país. Tenho de defender o sangue de nossos mártires."

Culto ao martírio. O discurso do martírio tem forte ressonância sobre a identidade xiita dos iranianos. O que distingue os muçulmanos xiitas dos sunitas é a aceitação de Ali e Hussein, respectivamente genro e neto do Profeta Maomé, como seus sucessores. Tanto Ali quanto Hussein foram mortos - e considerados mártires - na disputa pela sucessão que se seguiu à morte de Maomé.

Foi Hussein quem trouxe o Islã ao Irã, ao se casar com uma princesa persa. Um dos slogans mais repetidos da República Islâmica, atribuído a seu fundador, o aiatolá Ruhollah Khomeini, é: "Uma nação para a qual o martírio é felicidade sempre será vitoriosa."

É nesse campo que Ahmadinejad tenta enfrentar Khamenei, sucessor de Khomeini. O presidente lutou na Guerra Irã-Iraque (1980-88), que deixou 1 milhão de iranianos mortos ou feridos. Sua base de poder é a Guarda Revolucionária.

Ahmadinejad apresenta-se como representante dos veteranos e mártires da guerra. Sua mensagem subliminar - nunca dita abertamente - é a de que o sacrifício na revolução e na guerra representa a verdadeira fonte de legitimidade.

A invasão do Irã pelo Iraque de Saddam Hussein, com apoio dos Estados Unidos e das potências europeias, poucos meses depois da Revolução de 1979, teve como objetivo conter o fundamentalismo islâmico no Golfo Pérsico. Enquanto os veteranos defendiam a revolução, os aiatolás faziam pregações.

É um desafio importante ao poder de Khamenei, que até a primeira eleição de Ahmadinejad, em 2005, mantinha firme controle sobre a Guarda - a elite das Forças Armadas iranianas, encarregada de defender a revolução. Ahmadinejad tem contentado seus oficiais transferindo alguns dos negócios mais lucrativos do Irã das mãos da iniciativa privada para empresas controladas pela Guarda.

Khamenei segue, no entanto, controlando tentáculos importantes do Estado iraniano, como o Conselho Guardião, espécie de Corte Suprema, com poder de desqualificar candidatos por "atitudes anti-islâmicas". Nessas eleições, o Conselho vetou 1.409 candidatos, incluindo mais de 100 partidários de Ahmadinejad.

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