AFP PHOTO / PHILIPPE HUGUEN
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Cerco amplia tensão entre estrangeiros e a polícia

Agravamento da crise migratória no Canal da Mancha não é apenas produto do aumento do fluxo de estrangeiros pelas rotas do Oriente Médio e Norte da África

Andrei Netto ENVIADO ESPECIAL CALAIS, FRANÇA, O Estado de S. Paulo

30 de julho de 2015 | 21h26

O agravamento da crise migratória no Canal da Mancha não é apenas produto do aumento do fluxo de estrangeiros pelas rotas do Oriente Médio e Norte da África. Uma mudança na segurança, o cerco completo que isolou o Porto de Calais, foi decisivo para que eritreus, sudaneses, afegãos, paquistaneses e sírios que acampam no norte da França passassem a assediar o Eurotúnel como alternativa para alcançar a Grã-Bretanha.

A reforma de segurança no porto, local de chegada de ferries turísticos e de embarque e desembarque de caminhões de carga, foi terminada há cerca de dois meses. Desde então, duas barreiras de cercas – a mais alta delas com até 6 metros de altura –, ambas reforçadas por arame farpado com lâminas cortantes, dão ao porto um visual de área militar ultraprotegida. As barreiras são tão grandes que o acesso aos cais de Calais é hoje muito limitado a pé – um teste que a reportagem do Estado realizou nesta quinta-feira, 30. 

O cerco visava a combater o assédio de imigrantes aos caminhões que embarcam em navios para cruzar o Canal da Mancha em direção à Grã-Bretanha. Nos últimos anos, esconder-se em meio à carga ou sob o chassi dos veículos era uma opção frequente dos estrangeiros acampados na França.

Desde que a nova barreira foi colocada em prática, o número de mortes em Calais cresceu. Desde junho, dez estrangeiros já morreram tentando chegar à entrada do Eurotúnel – em comparação a 15 no ano passado. Nessa região, os confrontos entre imigrantes, polícia e agentes de segurança privada da empresa concessionária da passagem subterrânea se tornaram frequentes. 

Os mais intensos choques acontecem em Coquelles, a cerca de 7 quilômetros do acampamento improvisado, transformado em favela à beira da rodovia A16, que liga Calais a Paris. Esse vem sendo o local escolhido com mais frequência pelos que tentam furar o bloqueio de 23 quilômetros em torno do Eurotúnel e ingressar na área de 650 hectares.

Na prática, a região se parece cada vez mais com os enclaves espanhóis de Melilla e Celta, vizinhos ao território de Marrocos, no Norte da África. “É um sinal da incapacidade dos poderes públicos de gerenciar os movimentos populacionais que são inevitáveis”, entende Claire Rodier, jurista do Grupo de Informação e de Apoio aos Imigrantes, uma das ONGs mais ativas na defesa dos direitos dos candidatos a asilo e a refúgio político na região de Calais.

Diante da crise humanitária, o diretor da companhia Eurotúnel insinua que os recentes movimentos de estrangeiros forçando a passagem da entrada do canal subterrâneo seja organizado. Na quarta-feira, Jacques Gounon definiu o assédio dos imigrantes como “invasões sistemáticas com vocação midiática”.


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