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Cerco ao patrimônio cultural

Estado Islâmico ameaça Palmyra, um dos sítios arqueológicos mais relevantes do mundo

DOMINIQUE SOGUEL, CHRISTIAN SCIENCE MONITOR

16 de maio de 2015 | 02h01

A ofensiva relâmpago do Estado Islâmico (EI) no deserto sírio no centro do país levou o grupo jihadista aos portões da antiga cidade de Palmyra, inscrita como patrimônio mundial pela Unesco, despertando temores pela sorte das suas ruínas. E aumentaram também as perspectivas de uma batalha extensa nessa região estratégica, que abriga um dos maiores depósitos de armas da Síria, uma base aérea e valiosos campos de gás.

Palmyra, também conhecida como Tadmor, é uma das mais impressionantes relíquias do mundo, construída no terceiro milênio antes de Cristo. Marco Antonio e os primeiros romanos consideraram que era um prêmio inatingível, mas historiadores acreditam que ela foi integrada à província síria no reinado de Nero no primeiro século depois de Cristo.

O conflito sírio já deixou sequelas nas ruínas de Palmyra. O governo cavou trincheiras e erigiu montanhas de terra, enquanto rebeldes invadiram tumbas antigas para vender artigos no mercado negro de antiguidades. Mas uma ameaça ainda maior surge agora com o EI, que vem saqueando e destruindo tesouros das civilizações nos territórios conquistados.

Palmyra "representa um tesouro único para a população síria e para o mundo", afirmou Irina Bokova, diretora geral da Unesco. "Faço um apelo a todas as partes para protegerem Palmyra e empreender todos os esforços para impedir sua destruição."

Segundo o especialista em monumentos culturais France Desmarais, uma vitória do EI será "devastadora para a preservação de um dos mais importantes sítios culturais e históricos da Síria". O EI geralmente não destrói botins de guerra que possa vender, mas a proximidade dos combatentes das ruínas - segundo notícias, estariam a pouco mais de um quilômetro do local - é motivo de grande preocupação.

"Eles são ao mesmo tempo previsíveis e imprevisíveis, de maneira que é difícil avaliar o que destruiriam ou não", disse Desmarais, diretor de programas e desenvolvimento no Conselho Internacional de Museus. O grupo com sede em Paris publicou uma lista vermelha de objetos culturais sírios que estão em risco com o fim de ajudar os especialistas em antiguidades e a polícia a identificarem objetos roubados.

Os combatentes do EI lançaram uma grande ofensiva contra Palmyra na segunda-feira, aproximando-se da cidade pelo norte e leste. No primeiro dia capturaram a cidade vizinha de Sukhna, situada no caminho que conduz à cidade síria de Deir Ezzor, um reduto do EI. E capturaram também o vilarejo de Al-Amariya na extremidade norte da cidade. Na quarta-feira, abriram uma terceira frente ao sul, aproximando-se de Palmyra vindo do oásis, onde tamareiras e oliveiras cercam o vasto conjunto de ruínas da era romana. O governo sírio até agora mantêm o controle de uma divisão de segurança militar a oeste, sua nefasta prisão de Tadmor e o aeroporto militar.

"Os soldados do califado realizaram um ataque contra apóstatas Nuseiri na cidade de Palmyra", alardeou a Radio Raqqa, porta-voz dos jihadistas sunitas. Nuseiri é um termo desairoso usado pelo EI para se referir ao presidente Bashar Assad e sua seita alauita, ramo do islamismo xiita.

O Observatório Sírio de Direitos Humanos, com sede na Inglaterra, que recorre a uma rede de ativistas em campo para coletar informações, disse que o EI executou 26 civis capturados perto de Palmyra - 10 foram decapitados.

A cidade atual de Palmyra ficou sob um ferrenho controle do regime durante vários meses no final de 2011. Ali vivem cerca de 200 mil moradores, metade deles refugiados de outras áreas. Antes da guerra, Palmyra vivia da agricultura, da criação de gado e de um setor de turismo florescente.

Muitos dos rebeldes desta cidade se dispersaram para outras áreas ou encontraram refúgio em países vizinhos. Embora muitos apoiem o Exército Livre Sírio, um número significativo deles ingressou nas fileiras do EI e da afiliada da Al-Qaeda, a frente al-Nusra. Outros formaram unidades tribais que atuam como contrapeso.

Os que apoiam o regime formaram milícias de bairros. Ativistas de oposição há muito tempo dizem que o aeroporto militar de Tadmor é usado como porta de entrada de suprimentos e simpatizantes vindos do Irã, um dos principais patrocinadores do regime Assad.

"Se o EI capturar os depósitos de combustível e armas do regime nessa área, eles chegarão a Beirute e Jerusalém", afirmou Abu Ali al-Badia, nativo de Palmyra que vem monitorando os acontecimentos a partir da Turquia. "São mais de 150 tipos de armas no depósito ao norte da cidade. É um dos maiores da Síria".

O governo já começou a enviar reforços de Homs para Palmyra para defender as rotas de abastecimento estratégicas na direção de Deir Ezzor, onde ainda controla um aeroporto militar. Mas as vitórias já obtidas pelo EI no deserto sírio, ou Badia, são um perigo para as forças cada vez mais pressionadas do presidente Assad, de acordo com o analista sírio Malik al-Abdeh.

"Eles perderam uma área significativa de território", disse Abdeh. "Se permitirem que o EI capture Tadmor, basicamente abrirão caminho para ele atacar Damasco a partir do norte e Homs a partir do leste". / Tradução de Terezinha Martino 

* É jornalista

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