Cerco começa com rebelião na base aliada

Ao anunciar que estavam fora do governo na quarta-feira pela manhã, liberais colocaram futuro de Lugo em jogo

ANDRÉS COLMÁN GUTIÉRREZ, ESPECIAL PARA O ESTADO , ASSUNÇÃO, O Estado de S.Paulo

22 de junho de 2012 | 03h02

O que até uma semana atrás era absolutamente improvável - um julgamento político do presidente paraguaio, Fernando Lugo - começou a mudar radicalmente na quarta-feira de manhã, quando a segunda força política do Paraguai, o Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA), anunciou que abandonava a base aliada.

A deserção recolocou o Paraguai em um clima de instabilidade política que levou dois grupos a se enfrentarem ontem na Praça do Congresso, reavivando o fantasma do Marzo Paraguayo, as mobilizações de março de 1999, quando o assassinato do vice-presidente Luís María Argaña e de sete manifestantes provocaram a renúncia do presidente Raúl Cubas.

Não surpreende que o Partido Colorado, base da ditadura de Alfredo Stroessner, desalojado do poder depois de 60 anos por Lugo, tenha decidido pedir o impeachment de seu principal adversário político. Isso não preocuparia o governo, já que os votos da oposição não seriam suficientes para fazer o pedido prosperar. Mas, quando os liberais, alegaram que o presidente ignorou suas críticas internas para se apoiar nos setores de esquerda, a situação mudou repentinamente.

O caso que motiva o processo - um conflito agrário entre sem-terra e policiais que deixou 17 mortos no dia 15 - foi a tragédia nacional mais grave desde o fim da ditadura de Stroessner (1964-1989) e tocou na fibra social mais sensível do Paraguai: a alta concentração da propriedade da terra e a grande pobreza no campo.

Disputa. No país, 80% das terras férteis estão em poder de 2% da população, que concentra uma alta produtividade em agronegócios, sendo responsável, em parte, por um crescimento econômico de 14,5% em 2010, mas sem que os benefícios chegassem aos 39% que vivem abaixo dos níveis de pobreza e aos 19% que estão na pobreza extrema, segundo dados do Censo Nacional Agropecuário.

Ex-bispo, Lugo chegou ao poder em 2008 com a promessa de mudar o cenário, mas fez pouco. O grande déficit agrário é também responsabilidade do Judiciário, cuja imagem está associada à corrupção e às tentativas de reaver terras griladas, e do Legislativo - derrotado há apenas um mês na tentativa de aumentar os próprios salários.

Desta vez, porém, os opositores conseguiram vender a ideia de que Lugo é o principal responsável pelas 17 mortes de Curuguaty.

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