Cerco insurgente tem fissuras

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

Lourival Sant?Anna, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

Em meio a divisões internas, os combatentes rebeldes apertaram ontem o cerco à cidade de Bani Walid, onde filhos de Muamar Kadafi - e suspeita-se que o próprio ditador - têm estado. Eles impuseram um prazo para que as forças leais ao regime na cidade se rendam, caso contrário ela será invadida. Assim como ocorre em Sirte, cidade natal e reduto de Kadafi, os combatentes usam líderes tribais para convencer as forças leais ao regime a se entregar. O ultimato impõe rendição até hoje.

"Se eles não erguerem a bandeira revolucionária até amanhã (hoje), entraremos pela força", disse à Associated Press Abdel Razak al-Nathori, comandante de uma das brigadas que cercam Bani Walid (ver mapa na página 18). Segundo o comandante, um dos filhos de Kadafi, Moatassem, esteve ontem na cidade, aparentemente para convencer os líderes tribais a continuar apoiando seu pai. Outro filho de Kadafi, Saif al-Islam, que era preparado para substitui-lo, também esteve em Bani Walid recentemente, mas fugiu, segundo o comandante rebelde.

Enquanto prossegue a caçada a Kadafi e a seus filhos, bem como a disputa pelas cidades sob seu controle, a normalidade vai sendo lentamente restabelecida em Trípoli e no restante do país. O vice-primeiro-ministro interino Ali Tarhouni, que é também ministro da Economia e do Petróleo, anunciou ontem que dois grandes campos de petróleo retomarão sua produção em uma semana.

Com a consolidação do domínio rebelde, no entanto, crescem as discordâncias entre as diversas correntes políticas e as divisões geográficas entre as brigadas que se mantiveram unidas em torno do objetivo comum de derrubar Kadafi. O Conselho Nacional de Transição (CNT) deu ordem para que as brigadas de outras cidades que participaram da tomada de Trípoli voltem para seus locais de origem, mas algumas delas resistem.

"A partir de sábado (ontem), haverá um grande número de agentes de segurança e policiais que voltarão ao trabalho", disse à France Presse Ahmed Darrad, ministro interino do Interior e da Segurança. "Agora os revolucionários de Trípoli podem proteger sua própria cidade."

O Estado ouviu, no entanto, um membro do comando da Brigada de Misrata, que disse que seu contingente de 1.700 homens, distribuídos em 14 batalhões, não deixará a cidade a não ser a pedido do Conselho Militar de Trípoli. O assessor explicou que, com exceção do presidente Mustapha Abdul Jalil, os combatentes de Misrata não confiam nos outros membros do CNT e temem perder influência nas decisões se deixarem Trípoli agora.

Alheios a essas tensões, muitos moradores de Trípoli celebraram ontem com tiros para o alto e buzinas a vitória da seleção líbia sobre a moçambicana, por 1 a 0, no Cairo. Foi a primeira vez que a seleção líbia usou a bandeira verde, vermelha e preta anterior a Kadafi, adotada pelos insurgentes. O jogo, transferido para o Egito por causa da insegurança na Líbia, fez parte da rodada classificatória da Copa Africana de Nações.

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