Cérebros fogem de Caracas

Para os venezuelanos que não compraram o projeto revolucionário do presidente Hugo Chávez, o momento ainda é de glória. Após uma década às mãos do homem forte do "socialismo do século 21", uma rara união entre partidos da oposição os rendeu a maioria de votos na eleição parlamentar do domingo. Não é ainda a contrarrevolução. Com o novo mapa eleitoral, retalhado a dedo bolivariano, Chávez ganha mesmo perdendo. Mas o salto da oposição garante que o próximo parlamento não seja mais um mero acelerador do chavismo. Só que entre evitar o atropelamento e reavivar uma sociedade, vai uma boa distância.

MAC MARGOLIS, O Estado de S.Paulo

10 de outubro de 2010 | 00h00

Depois de 11 anos do experimento bolivariano, a Venezuela está arriscada a se tornar um país acéfalo. Tutelados pela cartilha chavista, sufocados pela burocracia, ou simplesmente pauperizados pela penúria do Estado, dezenas de milhares de profissionais desiludidos já jogaram a toalha. São artistas, advogados, médicos, gerentes de empresas e engenheiros que saíram do país, enquanto outros tantos já no exterior engavetam planos de regressar. Os mais abastados compram apartamentos na Cidade do Panamá ou em Miami. Engenheiros de petróleo estão trabalhando em plataformas no Mar do Norte ou prospectando nas areias betuminosas do Canadá. Quem tenha parentesco europeu corre para tirar passaporte. Bolsas de estudo são coletes salva-vidas.

Ninguém sabe ao certo quantos venezuelanos qualificados já foram embora durante essa última década (fala-se em meio milhão ou mais) mas inclui-se nessa conta boa parte da classe média. O êxodo racha famílias e estanca carreiras individuais, mas também sabota o futuro do país. Justamente quando outras nações emergentes conseguem resgatar seus expatriados (os indianos que regressam do Vale do Silício ou as "tartarugas marinhas" chinesas, jovens estudantes que nadam de volta para casa), a fuga de cérebros venezuelana solapa universidades, institutos de pesquisa e indústrias. A maré de partidas agrava ainda mais a desorganização econômica e ameaça provocar um apagão num dos países mais ricos do hemisfério. Esqueçam minérios, petróleo e gás natural. O maior produto de exportação bolivariana é o talento.

O difícil é dizer qual a profissão que mais sofre com a sangria, mas a ciência é um caso especialmente grave. Até os anos 80 e 90, médicos, físicos, químicos, biólogos e engenheiros venezuelanos faziam pesquisas de ponta e registraram na média 25 patentes por ano. "Publicamos o mesmo número de estudos científicos que México, Chile e Colômbia", me disse o biólogo Jaime Requena, da Academia de Ciências da Venezuela. Desde 2002, no entanto, o escritório de patentes dos EUA não registra mais nenhuma patente em nome de venezuelanos. E pela primeira vez em meio século de avanços, o número de pesquisas publicadas por cientistas do país em jornais internacionais começou a cair.

Alguns cientistas fogem da tutela ideológica que discrimina as pesquisas desprovidas do carimbo oficial da "relevância social". Outros são "aposentados" à força, como o biólogo Requena, formado na Universidade de Cambridge, que publicou um estudo sobre o declínio da produção cientifica na gestão chavista e foi destituído do seu posto no Instituto de Estudos Avançados, sem direito a aposentadoria. Seu pedido de indenização ainda tramita na Justiça. E com a iniciativa privada acuada pela patrulha oficial, "não há uma única empresa que tenha um laboratório respeitável de investigação tecnológica", disse Requena ao jornal Tal Cual.

Isso apesar de o governo venezuelano declarar a prioridade da ciência por meio da Missão Cientifica, inaugurada com toda a pompa e honraria bolivarianas em 2005. Os resultados são igualmente bolivarianos: a Venezuela ostenta uns 4.800 cientistas formados em atividade no país (6.800 mil, contando os cientistas sociais), mas já passa de 25 mil o número dos pesquisadores no exílio. Um deles, o premiado engenheiro químico Pedro Pereira Almao, hoje dirige um centro de pesquisas energéticas na Universidade de Calagary, no Canadá, com 1.500 funcionários.

Mais do que uma série de tragédias pessoais, a diáspora bolivariana é uma calamidade coletiva. No século passado, a Venezuela abrigou milhares de migrantes fugindo da repressão e do totalitarismo do Velho Mundo. Os estrangeiros ajudaram a tornar Venezuela uma das sociedades mais cultas e prósperas do hemisfério, uma ilha de esclarecimento e riqueza numa região aflita pela pobreza e instabilidade. Hoje, após uma década da revolução bolivariana, a Venezuela é novamente um país de emigrantes, sangrando talento. É um problema que vai muito além das urnas.

É COLUNISTA DO "ESTADO"

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