Cerimônia ilustra ausência de democracia

Novos integrantes do PC são apresentados, mas não dão declarações

O Estadao de S.Paulo

23 de outubro de 2007 | 00h00

Programa de auditório embalado com a sisudez de uma cerimônia oficial, a apresentação da nova elite do Partido Comunista chinês acabou mostrando como a democracia no estilo ocidental ainda é um sonho distante na China. No local preparado para a apresentação, uma das belíssimas salas do Grande Salão do Povo, de frente para a Praça da Paz Celestial, um locutor explicava, minutos antes, as regras que valeriam durante o pronunciamento do presidente Hu Jintao: os jornalistas deveriam permanecer sentados e em silêncio. Ou seja, perguntas, nem pensar - talvez por precaução, o evento já havia sido batizado de "encontro com a imprensa", com transmissão direta pela TV estatal, e não de entrevista coletiva.Assim, os nomes dos nove integrantes do órgão encarregado de definir as políticas que irão afetar 1,3 bilhão de chineses nos próximos cinco anos só foram conhecidos quando eles surgiram no palco - todos com terno escuro e gravata vermelha, caminhando no mesmo compasso -, sob aplausos entusiasmados dos jornalistas chineses, seguranças e militantes engravatados sentados na platéia. Enquanto os jornalistas estrangeiros tentavam identificar um a um os novos dirigentes do Comitê Permanente do Politburo, Hu deu início ao seu pronunciamento. Na verdade, fez um discurso próprio de comício, citando as expressões "desenvolvimento científico sustentável" e "sociedade harmoniosa", sob o olhar impassível (e um tanto constrangedor) dos novos dirigentes. Cada frase era interrompida por aplausos da claque e uma necessária pausa para que fosse feita a tradução para o inglês. Após o discurso, Hu finalmente apresentou os eleitos. Chamados um a um, eles davam um passo à frente, levantavam o braço direito e recuavam. Nenhum deles falou. A apresentação durou 15 minutos. Ao final, Hu pediu desculpas pelo atraso de 35 minutos, agradeceu a presença de todos e despediu-se. Sob aplausos dos jornalistas chineses, todos bateram em retirada como se estivessem marchando, em fila indiana. Os jornalistas estrangeiros foram embora da mesma forma que entraram: sem saber como os líderes foram eleitos, quantos votos receberam ou qual será sua posição na hierarquia do partido. Mas deixaram o Grande Salão do Povo "de forma ordeira", como solicitado quando foram credenciados, na véspera.

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