AP Photo/Pavel Golovkin
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Certificados falsos de vacinação criam mercado paralelo em Moscou

Exigências cada vez maiores para confirmar vacinação obrigatória na capital e em outras regiões russas deram impulso ao trabalho de falsificadores

Isabelle Khurshudyan, The Washington Post, O Estado de S.Paulo

28 de junho de 2021 | 20h00

MOSCOU - Demorou apenas algumas horas para os fraudadores agirem depois que o prefeito de Moscou anunciou neste mês que a vacinação contra o coronavírus seria obrigatória para os funcionários do setor de serviços da cidade.

Sites anunciando a disponibilidade de certificados falsos de vacinação contra o coronavírus repentinamente pipocaram, com avisos nas redes sociais para quem se identificasse como trabalhador de restaurantes ou bares.

Um novo mercado paralelo nasceu com uma clientela potencial: os muitos russos que ainda hesitam em ser vacinados, mesmo em meio a um aumento nos casos de coronavírus.

Um barman, que forneceu ao The Washington Post uma cópia de suas mensagens privadas no Instagram, enviou uma consulta a uma das contas que anunciava o custo de um certificado de vacinação falso.

A resposta foi imediata: o preço era o equivalente a cerca de US$ 25 e o barman só precisava fornecer suas informações pessoais. O barman falou sob condição de anonimato por discutir o envolvimento em uma operação ilegal.

O aumento no número de pessoas vendendo certificados de vacinação falsos ocorre após Moscou ordenar que 60% dos trabalhadores que interagem com o público - professores, motoristas de táxi, vendedores e outros - sejam vacinados ou consigam empregos diferentes. Seus empregadores estão sujeitos a pesadas multas por descumprimento.

As novas regras, que entraram em vigor nesta segunda-feira, também exigem que restaurantes e bares limitem a admissão de pessoas com um código QR confirmando sua vacinação ou um teste de PCR negativo para coronavírus nos três dias anteriores. As autoridades de Moscou alertaram ainda que os hospitais negarão atendimento médico de rotina aos não vacinados.

As medidas extraordinárias - Moscou agora tem uma das regras de vacinação mais rígidas - decorrem da incapacidade da Rússia de controlar a pandemia, apesar de duas vacinas nacionais, lideradas pela Sputnik V, que estão amplamente disponíveis e gratuitas. A última onda de covid-19 da Rússia também mostra como a hesitação vacinal ameaça prolongar a pandemia em todo o mundo.

Apenas 15% dos moradores de Moscou foram vacinados, disse o prefeito Sergei Sobyanin em 16 de junho. A taxa de vacinação em toda a Rússia é ainda mais baixa, 11,5% - menor do que em qualquer outro lugar na Europa, exceto a Macedônia do Norte, de acordo com o Our World in Data. Os Estados Unidos vacinaram totalmente mais de 45% de sua população. Mas a pressão de Moscou para vacinar seus cidadãos deixou muitos insatisfeitos.

Algumas pessoas dizem que têm mais medo de serem vacinadas do que de contrair o coronavírus. Isso torna a compra de um certificado de vacinação falso uma opção atraente para tentar burlar o sistema.

"Tenho festejado desde o verão passado e tenho interagido com muitas pessoas, incluindo algumas que tiveram covid-19", disse Anna, uma estudante universitária de 23 anos que falou sob a condição de apenas usar seu primeiro nome para falar abertamente sobre o assunto.

Ela havia pensado em comprar um certificado de vacinação falso, mas desistiu, porque tem medo de ser pega agora que os esquemas estão em destaque. As autoridades de Moscou disseram que iniciaram 24 processos criminais contra fornecedores suspeitos de certificados de vacinação falsos e detiveram vários entregadores que levavam os produtos aos clientes.

Sem vacina, sem férias

O prefeito de Moscou disse que cerca de 90% dos novos casos de Moscou são da variante Delta, a cepa indiana. As infecções na cidade de cerca de 12 milhões de habitantes aumentaram para mais de 8.500 por dia neste mês, com 114 mortes relacionadas ao coronavírus relatadas no domingo em Moscou, um recorde de um único dia para a cidade.

O "crescimento explosivo", como disse Sobyanin, levou a novas restrições que tornarão quase impossível para os não vacinados trabalhar na maioria dos lugares ou comer em qualquer restaurante.

Mais de uma dúzia de regiões da Rússia seguiram o exemplo de Moscou ao impor alguns padrões de vacinação obrigatórios. Os resorts de Sochi, popular destino de verão no Mar Negro, estarão fechados para veranistas não vacinados a partir de 1º de agosto.

Em meados de junho, havia 500 novos nomes de domínio na internet registrados para a venda de certificados de vacinação falsos, de acordo com a Forbes. Os certificados também são vendidos no aplicativo de mensagens Telegram.

Algumas das contas que pretendem vender os certificados foram apagadas antes de uma prometida repressão pelas autoridades.

Moscou tentou impedir os falsificadores ao exigir certificados de vacinação registrados com códigos QR em vez de apenas um documento físico.

Mas, por um custo maior no mercado paralelo, até mesmo um certificado de vacinação comprado ilegalmente pode ser registrado online.

Funciona assim: O vendedor do certificado falso entra em contato com um profissional médico com acesso às doses das vacinas, segundo uma comissária de bordo que está em processo de obtenção de um certificado falso.

O médico então joga fora um frasco da primeira dose e anexa o número de série do frasco ao nome do cliente no sistema estadual, disse ela. Três semanas depois, a mesma coisa acontece com a segunda injeção. O certificado da vacina está então pronto e é - para todos os efeitos - real.

O regulador da Internet da Rússia, Roskomnadzor, disse que fechou 150 páginas da web e contas que vendiam documentos falsos. O Ministério do Interior russo disse que o preço médio de um certificado falso chega a US$ 66.

Russos relutantes

A Rússia foi o primeiro país a autorizar uma vacina contra o coronavírus quando aprovou a Sputnik V para uso em massa, em agosto do ano passado. Mas embora a vacina tenha sido autorizada por mais de 60 países, 62% dos russos entrevistados em abril disseram que não a tomariam, de acordo com o Levada Center, um instituto independente de pesquisas. Enquanto isso, em uma pesquisa realizada em maio pelo Levada, 55% dos russos que participaram disseram não ter medo de contrair o coronavírus.

O ator russo Egor Beroev, falando em uma cerimônia de premiação da televisão na terça-feira, usava uma estrela amarela na lapela de sua jaqueta e comparou as vacinas obrigatórias às marcas de identificação nazistas para judeus durante a 2ª Guerra.

"Hoje acordei em um mundo onde isso se tornou uma marca de identificação: você é cidadão ou vai morar em uma reserva? Você poderá ir a locais e eventos? Você desfrutará de todos os seus direitos e benefícios?", disse Beroev. E completou: "Eu tenho uma pergunta: como poderíamos nós, os descendentes dos vencedores (da 2ª Guerra), permitir que isso acontecesse?"

Uma turbulenta campanha de relações públicas é a culpada pela desconfiança dos russos nas vacinas, disse Pavel Volchkov, chefe do Laboratório de Engenharia de Genoma do Instituto de Física e Tecnologia de Moscou.

Ele citou os canais de televisão estatais russos que destacam reações adversas extremamente raras para alguns indivíduos no exterior que receberam as vacinas Oxford-AstraZeneca e Pfizer-BioNTech. Embora essas vacinas não estejam disponíveis na Rússia, as notícias contribuíram para o temor de todas as vacinas contra o coronavírus, disse ele.

A maioria das restrições ao coronavírus na Rússia foram suspensas, e as poucas que restaram raramente são cumpridas. Isso criou um ambiente em que as pessoas não tinham incentivo para se vacinar porque pensavam que o coronavírus havia sido derrotado, disse o pesquisador Sergey Kolesnikov, que estuda o sistema de saúde da Rússia na Academia Russa de Ciências.

"Tive uma proposta maravilhosa de vender vodca e tabaco apenas para pessoas que mostrassem o certificado da vacina", disse Kolesnikov. "Isso é uma piada, é claro. Mas então mais de 50% da população teria que ser vacinada. "

'Niilismo'?

O "Niilismo" é o culpado pelo aumento das infecções, afirmou o porta-voz do Kremlin Dmitry Peskov, que, por um tempo no ano passado, usou um emblema protetor chamado de "bloqueador de vírus" - um dispositivo com dióxido de cloro que pretende ajudar a proteger contra patógenos, apesar nenhuma evidência científica de que funciona.

O próprio presidente russo, Vladimir Putin, nunca apareceu publicamente com uma máscara facial. Uma oportunidade perdida de aumentar a confiança na vacina foi o sigilo em torno de sua vacinação em março. Putin, de 68 anos, disse que seria vacinado, mas nenhuma foto ou vídeo de sua vacinação foi divulgada. O Kremlin não revelou nem mesmo qual das vacinas russas Putin recebeu.

"Há um gatilho, especialmente entre a geração mais jovem aqui, que se o governo diz para fazer algo, você precisa fazer o oposto", disse Aleksey Lavrinenko, um morador de Moscou.

Além disso, na Rússia, os doentes costumam se autotratar. Isso não está ajudando na luta contra o coronavírus.

Lavrinenko tomou a vacina contra o coronavírus, a Sputnik V, no dia seguinte ao decreto do prefeito de Moscou, esperando em uma fila de uma hora em um centro de vacinação em um shopping center de luxo na Praça Vermelha. Como outros, ele recebeu uma casquinha de sorvete grátis como recompensa pós-vacinação.

Moscou também tentou encorajar as pessoas a se vacinarem com sorteios para obter um carro ou apartamento grátis.

Lavrinenko disse que só tomou a vacina porque temia perder o emprego em um restaurante sem ela. Caso contrário, disse ele, provavelmente não teria tomado.

"Parece que a população aqui está dividida pela metade", disse ele. "Há pessoas que estão dizendo 'Sim, a vacinação é necessária'. E a outra metade é 'Não, todos nós morreremos disso.' Há pessoas que simplesmente não querem fazer isso e não vão".

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