Alberto Pizzoli/AFP
Alberto Pizzoli/AFP

Cesare Battisti reconhece pela 1ª vez autoria de quatro homicídios na Itália

Até então, ex-ativista de esquerda italiano negava acusações de ser responsável pelas mortes e por ter ferido outros três nos anos 70; no Twitter, Bolsonaro diz que que sempre denunciou proteção 'dada ao terrorista' e o Brasil não será 'paraíso de bandidos'

Redação, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2019 | 10h31
Atualizado 26 de março de 2019 | 01h19

ROMA - O italiano Cesare Battisti, admitiu nesta segunda-feira ser responsável por quatro assassinatos cometidos nos anos 70. Nos 40 anos em que ficou foragido, ele negou os crimes e procurou viver sob governos de esquerda que impediram sua prisão. No mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, ganhou status de asilado político, o que lhe permitiu evitar a extradição.


Ministro da Justiça que defendeu a proteção concedida a Battisti, alegando que ele sofria perseguição política, Tarso Genro avaliou ontem a admissão de culpa do italiano, que derrubou os argumentos do governo petista. Genro admitiu que a confissão dá legitimidade à extradição de Battisti, mas ressalvou que esta pode ser uma tentativa do italiano de conseguir uma transação penal.

A defesa de Battisti na Itália não se pronunciou sobre a razão para ele ter mudado sua versão, além de ter admitido prática de roubos. A confissão foi divulgada pelo procurador-chefe de Milão, Francesco Greco. “Com essa admissão, ele esclarece muitas polêmicas, rende honras às forças da ordem, à magistratura de Milão e reconhece que atuou nestes anos de maneira brutal”, afirmou.

“Ele não colaborou, não ofereceu nomes de outras pessoas, portanto não é tecnicamente um arrependido. Terá de cumprir a pena integralmente”, completou Alberto Nobili, procurador antiterrorismo de Milão, que ouviu Battisti.

A hipótese de uma admissão em troca de benefícios penais foi levantada no Brasil. “Se sua declaração traduz a verdade ou é uma tentativa de transação penal jamais se saberá. O que se pode dizer, por enquanto, é que, se disse que é responsável por algum crime que lhe atribuem no processo, sua extradição se torna legítima”, disse Genro. Em fevereiro o advogado de Battisti na Itália, Davide Stecanella, solicitou redução da pena de prisão perpétua para 30 anos de detenção.

“Tenho certeza que é uma espécie de autodelação premiada”, disse a socióloga Silvana Barolo, integrante do Grupo de Defesa de Cesare Battisti no Brasil.

Segundo Silvana, Battisti está satisfeito com o regime atual. Ele foi levado para a Casa Reclusione di Oristano, um presídio moderno na região da Sardenha e, por ser condenado à prisão perpétua, vai passar os primeiros seis meses em uma solitária. Mesmo assim, tem direitos que seriam considerados regalias nos presídios brasileiros e até em outras prisões italianas.

Segundo Silvana, Battisti tem direito a visitas semanais da família e a uma máquina de escrever com a qual pode continuar exercendo seu ofício de escritor. Ele tem recebido visitas de irmãos, sobrinhos e filhos que moram na Europa.

A ex-mulher e o filho de Battisti que vivem no Brasil ainda não foram visitá-lo. Battisti corre o risco de ser enquadrado no regime “41 bis”, referência a um artigo da lei italiana de execução penal, também conhecido como “regime de prisão dura”, que pode ser usado em casos de crimes específicos como envolvimento com a máfia, homicídio, sequestro, terrorismo e tentativa de subverter o sistema constitucional e só pode ser suspenso quando o condenado coopera com autoridades ou tem a pena anulada por um tribunal superior.

Pouco depois da divulgação da notícia sobre o reconhecimento de Battisti, o presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, comentou o caso em sua conta no Twitter.

"Battisti, 'herói' da esquerda, que vivia colônia de férias no Brasil proporcionada e apoiada pelo governo do PT e suas linhas auxiliares (PSOL, PCdoB, MST) confessou pela 1ª vez participação em 4 assassinatos", escreveu.

"Por anos denunciei a proteção dada ao terrorista, aqui tratado como exilado político. Nas eleições, firmei o compromisso de mandá-lo de volta à Itália para que pagasse por seus crimes. A nova posição do Brasil é um recado ao mundo: não seremos mais o paraíso de bandidos!", completou em uma segunda mensagem.

"Tenho noção do mal que fiz e peço desculpas aos parentes (das vítimas)", disse Battisti no interrogatório de 9 horas, destacando, no entanto, que, na ocasião, as escolhas lhe pareciam corretas e que se tratava de uma "guerra justa". Battisti integrava o grupo Proletário Armados pelo Comunismo e foi condenado por quatro assassinatos cometidos entre 1977 e 1979

Na Itália, foi primeiro condenado por participação em bando armado e ocultação de armas a 12 anos e 10 meses de prisão em 1981. Mais de uma década depois, em 1993, teve a prisão perpétua decretada pela Justiça de Milão, em razão de quatro homicídios hediondos. 

Relembre o história de Battisti

Depois de fugir de seu país, Battisti viveu 15 anos exilado na França amparado pela chamada "doutrina Mitterrand" de não extraditar os ativistas italianos de esquerda, estabelecida pelo presidente François Mitterrand em 1985. Lá, tornou-se em um bem sucedido autor de novelas policiais.

Em 2004, foi obrigado a deixar o país e se refugiou clandestinamente no Brasil, antes de ser preso no Rio de Janeiro em 2007. No último dia de seu segundo mandato, no entanto, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva concedeu asilo político para o italiano e impediu sua extradição.

Battisti casou-se com uma brasileira, com quem teve um filho em 2013.

Depois de ter a liminar de garantia no Brasil suspensa, Battisti chegou a ficar foragido no final do ano passado quando o então presidente Michel Temer autorizou sua extradição para a Itália. / AFP

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