Fernando Bizerra Jr / EFE
Fernando Bizerra Jr / EFE

Cesare Battisti faz greve de fome e diz estar sofrendo 'vingança' do Estado italiano

Terrorista teve pedido de revisão de seu regime de encarceramento negado pela Justiça da Itália

Redação, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2020 | 13h34

ROMA - Em greve de fome desde a terça-feira, 8, o terrorista Cesare Battisti declarou que está sendo vítima de uma "vingança" do Estado italiano por atos que cometeu há mais de 40 anos. Preso em isolamento desde meados de janeiro do ano passado, Battisti teve pedido negado na Justiça para mudar seu regime de encarceramento.

A declaração de Battisti foi transmitida pelo seu advogado, Gianfranco Sollai, que visitou a penitenciária onde ele se encontra, na Sardenha. "1968 na Itália durou 15 anos. A guerra das instituições contra mim foi externada com a segregação dos atos, o isolamento forçado e ilegítimo e com uma classificação retroativa de 41 anos. Essa é a vingança do Estado, vingança contra mim na distância de mais de 40 anos de contradições sociais", disse.

Condenado à prisão perpétua pelo assassinato de quatro pessoas na década de 1970, Battisti, de 65 anos, cumpre pena no presídio de segurança máxima de Oristano, na Sardenha, sem qualquer tipo de contato e atividade.

Na quarta-feira, a Justiça italiana validou definitivamente o regime de isolamento penitenciário de Battisti. O Tribunal de Cassação italiano, a mais alta jurisdição criminal do país, confirmou a decisão do Tribunal de Apelação de Milão, anunciada em 2019, e rejeitou o pedido dele, que pretendia rebaixar o regime.

O sistema prisional italiano divide os presos em categorias e alguns só podem entrar em contato com presos da mesma categoria. Battisti é o único de sua categoria - classificação AS2, para terroristas - em sua prisão, explicou um de seus advogados, Davide Steccanella.

"Ele só fala com os guardas e raramente com a família, porque a Sardenha é muito longe, é preciso pegar um avião", acrescentou.

Na terça-feira, 8, Battisti escreveu uma carta, na qual anunciou que entraria em greve de fome e reclama que a administração penitenciária não responde, segundo ele, a seus pedidos escritos e orais para "restabelecer a legalidade" de sua situação.

Battisti reivindica a transferência para uma prisão onde possa ver seus familiares mais facilmente, assim como a revisão de seu rígido regime de detenção - "a segurança máxima prevista para os terroristas" -, alegando que "as condições de risco que o justificariam não existem mais".

Refugiado na França - e depois no Brasil -, o terrorista foi capturado em janeiro de 2019 na Bolívia, após cerca de 40 anos foragido. Na sequência, foi extraditado para a Itália. Poucas semanas após seu encarceramento, reconheceu perante um juiz, pela primeira vez, sua responsabilidade pelos assassinatos, assim como o erro da luta armada.

Durante sua estada na França de 1990 a 2004, Cesare Battisti se beneficiou da proteção do presidente François Mitterrand, que se comprometeu a não extraditar nenhum militante de extrema esquerda que aceitasse renunciar à luta armada. Em 2004, porém, o governo do presidente Jacques Chirac decidiu pôr fim à "jurisprudência Mitterrand" e extraditar Battisti. Ele então fugiu para o Brasil com uma identidade falsa e, conforme seu relato, com a ajuda dos serviços secretos franceses./ Com informações da AFP

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