Eve Edelheit/ The New York Times
Eve Edelheit/ The New York Times

Céticos e negacionistas: 'Se eu pegar corona, peguei'

Apesar da pandemia, norte-americanos desafiam ordem de isolamento social e continuam a frequentar espaços públicos

John Branch, The New York Times

24 de março de 2020 | 09h00

NOVATO, Califórnia - Um destino de escalada no extremo leste da Sierra Nevada, em Bishop, Califórnia, estava lotado no último final de semana, tão cheio quanto em qualquer feriado, apesar dos crescentes pedidos de isolamento social antes da já prevista chegada de uma onda de casos de coronavírus.

“As pessoas estavam falando: distanciamento social? Beleza, vou para Bishop. Lá vou ficar distante de todo mundo”, disse Jeff Deikis, morador local e alpinista.

Embora os riscos da escalada estejam associados principalmente às altitudes, os aventureiros lotaram os cafés e a cervejaria a cidade. Depois de pegarem quatro horas de estrada de Los Angeles e seis horas de San Francisco, bandos de alpinistas escalaram as rochas e desfiladeiros da região, compartilhando ar fresco e, quem sabe, doenças infecciosas.

“Alpinistas de todo o país invadiram Bishop como se a pandemia global fosse uma espécie de dispensa para a responsabilidade e a solidariedade”, relatou um blog de escalada.

Nos Estados Unidos, das praias da Flórida às montanhas da Califórnia, dos cassinos aos parques nacionais, legiões rejeitaram os crescentes pedidos para se isolarem e deixarem de se reunir, enquanto o coronavírus se espalhava pelo país e desligava quase todas as facetas da vida americana.

Eram os céticos e desafiadores. Eram os que estavam ávidos para desrespeitar a autoridade ou os que estavam com a febre do confinamento - se não a da covid-19. Eram as autoridades abarrotadas na sala de reuniões da Casa Branca, falando uma coisa e fazendo outra.

Eram todas as pessoas que ignoraram os pedidos de isolamento, vendo mais recompensas do que riscos nos encontros sociais. Elas confundiram confiança com imunidade. E, como em outros tempos de crise nacional, expuseram a relação entre os indivíduos, a sociedade e a nossa responsabilidade para com os outros.

“Se eu pegar corona, peguei”, disse um jovem da Flórida numa entrevista de televisão vastamente compartilhada. “No fim das contas, não vou deixar que isso me impeça de ir para a balada”.

Sob pressão, tanto social quanto governamental, a quantidade dessas pessoas diminui a cada dia. Nunca saberemos ao certo qual terá sido seu impacto na disseminação do vírus.

Os mais desdenhosos eram, na maioria, jovens, livres das estruturas da escola e do trabalho, talvez iniciantes no conceito de responsabilidade social. Mas muitos eram mais velhos, crentes de que os últimos lugares ainda abertos ao público poderiam ser higienizados o suficiente para afastar a doença.

Alguns não queriam cancelar planos de longa data, como festas de casamentos. Outros só queriam sair ao ar livre - e acabaram descobrindo que não eram os únicos.

Para outros, as aglomerações não era uma escolha. Era a exigência de um empregador com mais medo das perdas na receita do que da disseminação do vírus.

Ainda que supermercados, postos de gasolina e restaurantes pudessem continuar abertos, a definição de “estabelecimentos essenciais” estava aberta à interpretação.

Em Rhode Island, entre os estabelecimentos que ignoraram os avisos de distanciamento social estava o Wonderland, um clube de strip-tease, onde os clientes ainda ganhavam reboladas no colo no último fim de semana. (O site diz que, desde então, o clube foi temporariamente fechado).

A GameStop, uma cadeia de lojas de videogames, gerou revolta entre seus funcionários ao instruir que suas milhares de lojas permanecessem abertas e contestar as solicitações de fechamento das autoridades locais, porque, segundo um memorando interno, a cadeia acreditava que “se enquadrava na classificação de varejo essencial”.

Na Califórnia, a Tesla, fabricante de carros elétricos de luxo, chegou a desafiar as ordens para fechar todos os negócios não essenciais, mantendo seus 10 mil operários no trabalho. Na quinta-feira, 19, a empresa disse que suspenderia as operações a partir de segunda-feira.

No meio-oeste do país, a Uline, uma grande distribuidora de materiais de embalagem e suprimentos industriais, exigiu a presença de seus trabalhadores durante a semana, apesar das reclamações dos funcionários, especialmente os de call-centers, que trabalham lado a lado em cubículos apertados.

“Nada mudou”, disse um funcionário. “É muito revoltante”.

Na quinta-feira, os funcionários receberam um email da Família Uihlein, proprietária da empresa de US$ 5,8 bilhões e grandes doadores de causas republicanas, agradecendo por seus esforços e dizendo que a “Casa Branca nos telefonou com grandes pedidos duas vezes esta semana”.

No mesmo dia, o gerente de um call-center da Uline enviou um comunicado aos funcionários.

“Se você, ou algum familiar, estiver sofrendo com resfriado e alergia - ou qualquer coisa que não seja a covid-19”, dizia o comunicado, “NÃO conte aos seus colegas sobre os sintomas e suas hipóteses. Ao fazer isso, você está causando pânico desnecessário dentro da empresa”.

Mas muitos americanos se aventuraram voluntariamente no mundo coalhado de germes, só para passar o tempo. Os principais cassinos de Las Vegas e Atlantic City fecharam no início da semana, mas outros, como Chukchansi Gold, no centro da Califórnia, prometeram maior limpeza, uma promessa questionável num universo de cartas de baralho e máquinas de caça-níquel.

Os cassinos acabaram cedendo, um a um. Na sexta-feira, o Chukchansi de repente anunciou que fecharia naquela noite. O Valley View Casino, perto de San Diego, planejava manter as atividades até domingo à noite, mas também fechou na sexta-feira, junto com vários cassinos da Flórida.

Com tantos lugares fechados - sem shoppings, sem cinemas - milhões de pessoas tentaram escapar para o ar livre, muitas vezes formando novas aglomerações. As calçadas estavam atoladas na Tidal Basin, em Washington, DC, pois as pessoas queriam ver as flores das cerejeiras.

A Flórida foi o lugar que mais lançou mais luz sobre o conflito entre os diferentes estados de espírito do país. Imagens de praias lotadas se espalharam pelas redes. Foi difícil impor o isolamento durante a semana de férias da primavera. Alguns estudantes, banhados de sol, cerveja e alienação, confiaram que sua juventude serviria como escudo e ignoraram os avisos de que podiam levar o vírus para seus pais e avós.

“É como se tivesse explodido na minha cara”, disse Parker Simms, estudante da Universidade de Kentucky que veio a Fort Lauderdale no último sábado com cinquenta amigos e muitos planos. “Explodiu durante a minha semana de férias da primavera”.

No debate entre economia e epidemiologia, as autoridades locais geralmente tomaram o lado do dinheiro e da folia. Mas, no final da semana, muitos aderiram à tendência de fechamento.

Na quinta-feira, a praia de Fort Lauderdale estava assustadoramente vazia, exceto por algumas cadeiras empilhadas e torres de salva-vidas. Um grupo de universitários com sacolas de praia e chapéus de palha caminhava em direção a uma SUV que aguardava para levá-los ao aeroporto.

No Brooklyn, Nova York, os judeus hassídicos desafiaram as ordens de isolamento e realizaram casamentos; outros continuaram se juntando para rezar. Em Fort Lauderdale, Flórida, um casamento marcado para o final de março foi antecipado e reduzido. Charlotte Jay e Blake Parker, ambos com 29 anos, telefonaram para o rabino, convidaram uma dúzia de parentes mais próximos para o condomínio dos pais de Parker e correram para se arrumar.

Os convidados foram recebidos com lenços e desinfetantes para as mãos num terraço ao ar livre. A mãe de Parker pôs ‘All You Need Is Love’, dos Beatles, para tocar no celular. A organizadora do casamento transmitiu a cerimônia aos 225 convidados originais.

“Meu pai e eu higienizamos as mãos, cruzamos os braços e fomos juntos até o altar”, disse Jay. “Não nos abraçamos nem beijamos. Meu pai tocou o cotovelo no cotovelo do Blake. E depois no meu”.

Entre os lugares onde não se esperava um aumento de visitantes induzido pelo vírus estavam os parques nacionais. O Parque Nacional de Big Bend, no Texas, tinha filas de carros na semana passada e estava lotado no início desta semana, mesmo com ordens de isolamento correndo todo o país.

A maioria dos parques nacionais não cobrou pela entrada, mas fechou os centros de visitantes. O Parque Nacional de Yosemite já havia fechado as hospedagens e, na sexta-feira à tarde, encerrou as atividades por completo.

No sábado, muitas pessoas na área da baía de São Francisco ignoraram as ordens de ficar em casa e lotaram lugares ao ar livre, como o Marin Headlands e o Point Reyes National Seashore, que registraram “recordes de visitação”.

Todas essas aglomerações no meio do nada criaram um novo tipo de preocupação: áreas rurais com instalações médicas limitadas sendo invadidas por turistas no momento em que a pandemia ataca com força total. Essa preocupação fechou as estações de esqui do Colorado. Ilhas no Maine e da Carolina do Norte barraram a entrada de visitantes.

Em Moab, Utah, área conhecida pelas atividades de escalada e mountain bike perto do Parque Nacional Arches, as autoridades de saúde fecharam os hotéis para qualquer pessoa que não seja residente local ou viajante a trabalho, depois que os executivos do Hospital Regional de Moab, com 17 leitos, imploraram pela ajuda do estado.

Esta era a preocupação em Bishop. A Liga dos Escaladores da Área de Bishop finalmente pediu aos “amigos que escalam” que “não viajem para Bishop por enquanto”.

“Estamos preocupados com o que acontecerá se e quando Bishop se transformar em um foco” de coronavírus, Deikis, vice-presidente da Liga, disse na quarta-feira.

Na sexta-feira, depois que as lojas fecharam e o governador da Califórnia, Gavin Newsom, decretou a ordem de isolamento, a cidade voltou a ficar relativamente tranquila. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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