Chá com a rainha

Britânicos cujos sonhos giram em torno da realeza agora temem uma era pós-Elizabeth

Neil Ascherson, The New York Times, O Estado de S. Paulo

02 Setembro 2015 | 05h46

A rainha Elizabeth é uma senhora bastante idosa. De dia, seus súditos a veem bem menos do que antes. Mas, à noite, é diferente. De noite, ela e a família visitam milhões de casas em todo o reino. Cerca de um terço dos britânicos sonha com Sua Majestade e a realeza.

Segundo Dreams About H. M. the Queen and Other Members of the Royal Family, o clássico estudo de Brian Master, autor de vários livros sobre a aristocracia britânica, os sonhos frequentemente giram em torno de xícaras de chá. Um cenário característico é aquele em que ela, ou às vezes ele, senta à mesa de chá de um súdito. Ela elogia o chá que ele faz, e então confessa: “Você não sabe que alívio é conversar com alguém normal e comum como você. Vou lhe contar, não sei mais o que fazer com os meus netos”.

Em resumo, os sonhos com a realeza em geral são assim. E não são somente os monarquistas leais que têm este tipo de sonho; para sua profunda vergonha, os republicanos mais inflamados, também. Às vezes, quando aparecem as princesas, há até mesmo um tímido aceno erótico. Mas, na maioria das ocasiões, são sonhos que transmitem uma sensação de segurança, de confiança. O simples fato de a realeza descer a nosso nível e ser “normal”, na realidade reforça seu caráter particularmente especial, mágico.

Em menos de duas semanas, a rainha, de 89 anos, terá reinado 63 anos e 217 dias, ultrapassando o recorde estabelecido por sua assombrosa tataravó, a rainha Vitória (1837-1901). Na época em que a viúva da família Windsor por fim morreu, a Grã-Bretanha imperial percebeu que uma era pós-vitoriana era uma perspectiva desconcertante. Para os britânicos de hoje, que também envelheceram com esta obstinada senhora, mas muito amada, uma era pós-elizabetana parece um abismo sombrio.

O recente estardalhaço provocado pela descoberta de algumas imagens de um filme amador, em que Elizabeth menina e sua mãe fazem uma cômica saudação nazista, foi reveladora. Ninguém ousou perguntar se os Windsors, a família, eram pró-nazistas no início dos anos 30. Assim como a persistência dos sonhos reais, essa relutância em encarar questões incômodas e inconvenientes mostra quão poderosa é a imagem da monarquia na imaginação britânica. (A atitude dos escoceses é diferente; a da Irlanda do Norte, também.)

Mas a lealdade inglesa à realeza está se tornando visivelmente ambivalente. A veneração mística está mesclada a um melindroso ressentimento social – a sensação de que: “no fundo, no fundo, eles não são melhores do que todo o restante”. Mais extraordinário será ainda se o establishment britânico mudar sua posição no caso de outra crise real como a da abdicação de Eduardo VIII, em 1936, ao decidir que a monarquia se tornara mais um peso para os próprios interesses do que uma proteção.

Ninguém sabe se a rainha pretende abdicar, ou se – como o papa João Paulo II – está determinada a morrer no cumprimento das suas funções. Mais precisamente, ela e um estrito círculo palaciano quase certamente têm conhecimento disso, e não têm nenhuma intenção de compartilhá-lo. Mas, seja como for que seu reinado acabe, o príncipe Charles deverá suceder à mãe como rei.

Charles, atualmente na terceira idade, não provoca nenhuma magia onírica. Parece excessivamente humano: uma pessoa bem-intencionada, atormentada por aquilo que considera a crescente insensibilidade, ganância e feiura do mundo. Ser o príncipe de Gales, para ele, é quase um castigo: algo que, tem a plena convicção, é seu dever suportar, mas não aprecia absolutamente.

Alguns anos atrás, acreditava-se que ele rejeitaria a sucessão após a morte da mãe e transferiria diretamente a coroa para o filho William. Mas isso não é mais provável, apesar do casamento extremamente popular com Kate Middleton. O senso do dever de Charles prevalecerá. Talvez ele deteste se tornar rei, mas terá de apertar os dentes e pensar na Grã-Bretanha.

A imprensa e alguns políticos temem que ele se revele um monarca dado a interferir. Charles é conhecido por escrever cartas particulares a ministros do gabinete sobre projetos que afetam suas causas favoritas: arquitetura, meio ambiente, alimentos orgânicos. Essas cartas da “viúva negra”, assim chamadas por serem escritas à mão, foram consideradas por alguns como a prova de uma interferência real direta nos assuntos do governo, violando a Constituição da Grã-Bretanha, que não é escrita, de acordo com a qual o soberano deve manter estrita neutralidade política.

As cartas em si, quando os defensores da liberdade de informação finalmente as retiraram do sigilo, revelaram-se inócuas: elas continham brandas sugestões de que deveria ser levada em conta esta ou aquela consideração. Em todo caso, os membros da realeza não são politicamente neutros. A rainha não escondeu sua preocupação com a independência da Escócia, no ano passado, e o primeiro-ministro da Grã-Bretanha, David Cameron, revelou que, quando foi falar com a rainha para dizer que os escoceses haviam votado por uma pequena margem para continuar na União, Elizabeth vibrou de satisfação.

Mas a Escócia, com um movimento de independência que continua acelerado, permanece um desafio para a monarquia. O Partido Nacional Escocês insiste que uma Escócia independente convidaria Elizabeth para continuar como rainha dos escoceses, rememorando a época, no século 17, em que Inglaterra e Escócia eram Estados separados sob o mesmo monarca.

Mas essa promessa ignora os republicanos resmungões da Escócia, que constituem uma minoria muito mais ativa do que na Inglaterra. O fato de milhares terem assinado recentemente uma petição contra a criação de um novo hospital em Glasgow com o nome de Rainha Elizabeth indicou até que ponto está desgastada a tradicional deferência na Escócia.

Os escoceses costumam julgar a monarquia pela personalidade que está no trono. Os ingleses, ao contrário, reverenciam a instituição: um rei ou uma rainha ruins não afetaram o mágico glamour da coroa.

Mas isso está mudando e a própria rainha contribuiu para provocar a mudança. Concedendo à imprensa um acesso maior à família real, ela desviou o foco da anacrônica pompa da corte para a moderna cultura da celebridade. Como observou ironicamente: “Preciso ser vista para que confiem em mim!”

O estardalhaço que se seguiu à morte da princesa Diana, em 1997, mostrou que o povo inglês podia repreender a rainha pessoalmente por desprezar “a princesa do povo”. A tempestade passou e, hoje, Elizabeth é bem-vinda nos sonhos de seus súditos como sempre foi. Mas enquanto seu reino se aproxima do fim, a ênfase na pessoa, e não na coroa, tem um sentido fatídico.

Os britânicos temem cada vez mais que Charles seja um rei fraco, imprevisível. Se estiverem certos, acaso o esplendor milenar da coroa falará mais alto do que a impaciência do povo para com um homem idoso, melancólico, que acha penoso reinar? / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

NEIL ASCHERSON É JORNALISTA E ESCRITOR

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