Chacina em escola deixa alemães chocados

Um aluno expulso armado com uma pistola e uma espingarda abriu fogo nas salas de sua ex-escola hoje, matando 17 pessoas e suicidando-se em seguida neste que, acredita-se, seria o pior ato de violência na Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Testemunhas disseram que o jovem armado de 19 anos vestia roupas negras e luvas enquanto caminhava pelo primeiro andar do prédio e disparava uma pistola e uma espingarda de ar comprimido. Num ataque que talvez tenha durado 10 minutos, ele matou duas garotas, 13 professores, uma secretária e um policial que atendeu a um chamado de emergência do bedel, informou a polícia. "Não conseguimos encontrar palavras para o que sentimos na Alemanha neste momento", declarou o presidente Johannes Rau. "A Alemanha está em luto por causa de um fato incompreensível como este." Outros políticos mostraram-se chocados e pediram um momento de introspecção nacional após uma chacina que os alemães geralmente associam às ocorridas nos Estados Unidos. O governo ordenou que as bandeiras fiquem hasteadas a meio-pau e o partido do chanceler Gerhard Schroeder cancelou um comício previsto para amanhã. "Estamos incrédulos ante um crime terrível como este", declarou a jornalistas um abatido Schroeder. "Qualquer explicação que tentemos dar agora não será suficiente." Corpos nos corredoresO número de mortos em Erfurt, no leste do país, é igual ao de um crime semelhante ocorrido em 1996 na cidade escocesa de Dunblane, quando 16 crianças, uma professora e o homem armado morreram. Em 1999, 15 pessoas, inclusive os dois jovens armados, morreram no ataque contra Columbine High School, em Littleton, Colorado. De acordo com a polícia, a maior dos corpos encontrados hoje no Ginásio Johann Gutenberg jazia nos corredores. Alguns foram encontrados em banheiros. "Os oficiais de polícia confrontaram-se com um cenário terrível", contou Rainer Grube, porta-voz da polícia. Autoridades locais investigavam a possibilidade de um segundo atirador estar no local, pois testemunhas disseram ter ouvido disparos provenientes de uma direção diferente da principal salva de tiros, disse Doreen Jedersberger, uma porta-voz da polícia. Mas o barulho também podia ser um eco, comentou ela."Quero ser famoso"A polícia não revelou a identidade do suposto atirador com o intuito de proteger a família. Grube disse que o jovem havia sido expulso da escola, mas não disse quando isso ocorreu. A expulsão aparentemente impediu o aluno de fazer as provas finais. Uma mulher que dizia vir com o rapaz até a escola contou que uma vez ele disse a ela: "Um dia, quero que todos saibam meu nome. Quero ser famoso. Entrevistada pela emissora N-TV, a mulher, Isabell Hartung, disse que o jovem às vezes tinha problemas com os professores. Segundo ela, o garoto era inteligente e querido entre os colegas. Ela disse acreditar que "ele não se dava bem com os pais". De acordo com a polícia, o primeiro sinal de problema foi um telefonema do bedel às 11h05 locais reportando um tiroteio na escola. Uma viatura chegou ao local cinco minutos depois. O atirador abriu fogo contra os oficiais, matando um deles. Em seguida, ele refugiou-se no interior da escola. Nenhum outro tiro foi ouvido até o momento em que ele suicidou-se, levando a polícia a acreditar que ele foi o responsável pela morte de todas as outras vítimas nos minutos que antecederam a chegada das autoridades, disse Jedersberger."HILFE"Após cerca de meia hora, comandos policiais inspecionaram a escola, situada numa área residencial, e retiraram do local cerca de 180 alunos. O jovem armado, natural de Erfurt, suicidou-se numa sala onde refugiou-se informou a polícia. Durante o ataque, alunos mostravam um cartaz no qual se lia "HILFE" (socorro) em uma janela do quarto andar. Também era possível ver o rosto de uma menina. Na parte externa, grupos de alunos chocados que fugiram para a rua se abraçavam e choravam enquanto a polícia realizava buscas no local. "Ouvi os tiros e achei que fosse alguma brincadeira", disse Melanie Steinbrueck, de 13 anos, enquanto tentava conter o choro. "Mas depois eu vi um professor morto no corredor, em frente à sala 209, e um homem de preto com uma arma na mão." "O cara estava vestido todo de preto - luva, capa, tudo era preto", contou Juliane Blank, também de 13 anos. "Ele deve ter aberto a porta sem ser escutado e forçado a entrada na sala. Nós saímos para os corredores. Só queríamos ir embora", prosseguiu. Políticos e professores incrédulos sugeriam que a Alemanha aparentemente subestimou a potencial da violência em suas escolas e na sociedade em geral. "Agora nós temos de perguntar a nós mesmos, com sinceridade, o que está acontecendo de verdade em nossa sociedade quando um jovem causa uma tragédia como esta", declarou o ministro de Interior da Alemanha, Otto Schily.Porte de arma Edmund Stoiber, candidato conservador que enfrentará Schroeder nas eleições de setembro, disse que o crime "é um alerta para nossa sociedade". A chacina teve repercussão no exterior. Em Paris, o ministro francês das Relações Exteriores, Hubert Vedrine, disse estar "consternado e horrorizado com a tragédia". Ainda não se sabia como o jovem obteve as armas. Como a maioria dos países europeus, a Alemanha possui leis rígidas com relação ao porte de arma. Mas há milhões de armas ilegais nas casas alemãs, registradas para uso em esportes ou caça ou guardadas por colecionadores. "Se algo como isto poderia ter sido evitado é uma questão para a qual não temos resposta", admitiu Schily ao comentar que aparentemente, o jovem estava movido pelo ódio depois de ter sido expulso da escola. Erfurt, uma cidade de aproximadamente 200.000 habitantes, localiza-se no território da antiga Alemanha Oriental. A escola funciona num edifício construído em 1908 e tem boa reputação. Nela, trabalham 53 professores e estudam cerca de 700 alunos entre 10 e 19 anos. Este foi o segundo incidente do tipo na Alemanha em dois meses. Em fevereiro, um alemão de 22 anos que havia perdido o emprego matou seus dois ex-chefes e o ex-diretor da escola onde estudou nos arredores de Munique.

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