Chacina em prisão líbia é crime mais lembrado

Vala comum achada ao lado do presídio de Abu Salim materializa ferida aberta com matança de 1.269 presos, admitida só 8 anos depois pelo regime

LOURIVAL SANTANNA, O Estado de S.Paulo

27 Setembro 2011 | 03h03

Ao longo de 42 anos, a ditadura de Muamar Kadafi acumulou uma coleção de atos perversos difícil de rivalizar. Houve o massacre de torcedores que protestaram contra Saadi, filho de Kadafi, no Estádio 28 de Março, e a ordem para continuar o jogo; além da contaminação de 400 bebês com o vírus da aids no Hospital Infantil Al-Fateh.

Também houve a repressão brutal a uma manifestação que o próprio governo havia convocado contra as caricaturas de Maomé em frente ao consulado Italiano, matando cerca de dez pessoas. Os três episódios ocorreram em Benghazi.

Mas nada parece tão profundamente marcado na consciência dos líbios como o massacre de 1.269 pessoas na prisão de Abu Salim, em Trípoli, em 1996. A escavação de uma vala comum encontrada ao lado da prisão e revelada no domingo materializa essa ferida aberta. Só em 2004 o governo reconheceu o acontecimento. Visitas eram proibidas. Durante anos depois do massacre, funcionários foram às casas das vítimas e disseram a seus parentes para prepararem comida e objetos de uso pessoal para os presos. Geralmente, davam pouco tempo. As mães e irmãs passavam a noite cozinhando e preparando os pacotes, sem saber que seus destinatários estavam mortos.

O professor Mustafa Dahmani é um dos sobreviventes do massacre. Ele contou ao Estado que foi preso em julho de 1993, assim que voltou de sua peregrinação a Meca, na Arábia Saudita, quando tinha 28 anos. Um dos cinco deveres de todo muçulmano, a peregrinação, assim como a oração antes do amanhecer, era proibida por Kadafi, que se sentia ameaçado por movimentos fundamentalistas islâmicos - a única oposição que restara.

No dia 28 de junho de 1996, eclodiu uma rebelião na prisão por melhores condições, como comida e tratamento médico para os doentes. Dois guardas foram tomados reféns. Um acabou morto. Funcionários do governo foram negociar. Prometeram atender às reivindicações. Os presos amotinados concordaram em voltar para suas celas. Quando retornaram aos pátios, na manhã seguinte, o complexo havia sido cercado por peças de artilharia. Os pátios são cobertos por alambrados. Os guardas, incluindo um dos haviam sido tomados reféns, Atiyah, subiram no alambrado e abriram fogo.

Dahmani estava numa ala com 270 presos que não se haviam rebelado. Ele conta que ouviram as rajadas e os gritos entre 10 horas e 12h30. "Eu não podia acreditar que estavam matando todo mundo", recordou, durante uma visita à prisão. "Os guardas daqui não eram humanos."

Dahmani disse que em torno de 20 presos eram amontoados nas celas maiores, de cerca de 5 por 3 metros. Ele contou que, durante dois anos, ficou confinado, sem sair da cela. Recebia comida pela pequena janela na porta. Hoje, Dahmani é professor de sharia, a lei islâmica, numa madrassa, ou escola religiosa. Sua profissão, sua barba e robe marrom indicam sua inclinação islâmica.

Num certo sentido, as histórias da ditadura convergem para Abu Salim, onde Kadafi trancafiava sem julgamento, torturava e matava seus desafetos. A própria revolução está relacionada ao mesmo tempo com a repressão à manifestação do consulado Italiano e com o massacre de Abu Salim.

A repressão ocorreu em 17 de fevereiro de 2006, uma sexta-feira. Aos fiéis nas mesquitas foi passado o recado de que o regime consentiria uma manifestação na frente do consulado contra a publicação das caricaturas por um jornal dinamarquês, reproduzidas pela imprensa italiana. As forças de segurança dispersaram a aglomeração com munição real.

Este ano, no calor da primavera árabe, circulou nas redes sociais a ideia de um protesto em 17 de fevereiro, para lembrar os cinco anos do episódio e pedir reformas. Dois dias antes, o regime prendeu Fathi Terbil, advogado de parentes das vítimas do massacre de Abu Salim. Cerca de 500 pessoas reuniram-se diante da Alta Corte de Justiça para exigir sua libertação. Advogados e juízes juntaram-se à manifestação, duramente reprimida. Começava a rebelião líbia.

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