Chade condena franceses por tentativa de seqüestro de crianças

Seis voluntários da ONG Arca de Zóe devem cumprir 8 anos de trabalhos forçados por tentar levar 103 menores

Agências internacionais,

26 de dezembro de 2007 | 16h48

A Justiça do Chade condenou nesta quarta-feira, 26, seis voluntários franceses pela tentativa de seqüestro de 103 crianças. Os membros da ONG Arca de Zóe deverão cumprir oito anos de trabalhos forçados no país. A sentença foi anunciada no quarto dia do julgamento dos membros da organização que tentaram levar ilegalmente os menores para a França, onde seriam adotados. Segundo a BBC, a investigação da ONU e de funcionários do Chade revelaram que a maioria das crianças não era formada por órfãos e não estava doente. Algumas delas disseram que lhes ofereceram doces e bolachas para deixarem suas casas. A tentativa frustrada de transferência de 103 crianças do Chade à França, que envolveu nove franceses e sete espanhóis, gerou uma crise diplomática entre o país africano, a Espanha e a França. Sete espanhóis eram tripulantes do avião fretado que levaria os menores. Dos nove franceses detidos, três eram jornalistas e os outros seis trabalhavam na ONG Arca de Zoé. No sábado, o refugiado sudanês Souleyman Ibrahim, que trabalhou para o grupo assistencial francês disse que os membros da entidade mentiram para ele, escondendo seu plano de levar as crianças de avião para a Europa. Ibrahim disse que os membros da Arca de Zoé lhe pediram para encontrar crianças pobres em vilarejos no leste do Chade, na área que faz fronteira com a região problemática de Darfur, no Sudão. Ele afirmou que os membros da entidade lhe disseram que as crianças receberiam educação em centros que seriam dirigidos pelo grupo na região fronteiriça.  A idéia de retirar do Chade dez mil crianças órfãs provenientes da região de Darfur, no Sudão, havia sido anunciada pelo presidente da ONG, Eric Breteau, em abril. O caso Em 25 de outubro, Breteau, acompanhado de outros cinco membros da ONG e de três jornalistas franceses, aterrissou em Abéché, no leste do Chade e próximo ao Sudão, em um avião da companhia espanhola Girjet. As autoridades locais os prenderam por tráfico de seres humanos, além de quatro chadianos, do belga Jacques Wilmart e de toda a tripulação do avião. Ao se encontrar com os detidos em Abéché, o presidente do Chade, Idriss Déby, foi agressivo com todos e disse que eles "pagariam caro por serem pedófilos". A visita e as declarações do presidente marcaram o início de uma crise política internacional entre o país africano, a Espanha e a França e o começo de um caso jurídico complicado. No início de novembro os réus foram levados a N'djamena para serem ouvidos por magistrados chadianos, que julgariam a gravidade do caso, quais crimes teriam ocorrido, a responsabilidade de cada um e a abertura de um processo ou o arquivamento da ação judicial. Em 4 de novembro o presidente francês, Nicolas Sarkozy, foi a N'djamena e, depois de conversar com o presidente do Chade, retornou à Europa com os três jornalistas franceses e quatro aeromoças espanholas. A tensão no país cresceu por causa da revolta da população, irritada com a atuação de Sarkozy e incitada por Deby. Diariamente, centenas de chadianos se reuniam nas portas da embaixada francesa e do palácio de Justiça para pedir pena de morte para os quatro chadianos envolvidos e condenações exemplares para os franceses e espanhóis. A situação se complicou quando, em Washington (Estados Unidos), Sarkozy disse que retornaria ao Chade para "levar todos os franceses sem considerar a gravidade dos crimes", pois era seu dever proteger seus compatriotas. O discurso do presidente francês foi interpretado como um comportamento pós-colonialista, intolerável para os políticos e para a opinião pública, e como uma ingerência política internacional em assuntos internos por parte do Judiciário do Chade. De maneira abrupta o caso deixou a esfera judicial e se tornou uma crise internacional. Para os juízes e promotores chadianos, o caminho para resolver o problema com tranqüilidade e pela via rápida permanecia aberto, em virtude do acordo bilateral entre França e Chade assinado em 1976. No entanto, a população alimentava o sentimento antifrancês e os espanhóis também corriam o risco de se transformarem em alvo do ódio popular. Quando começaram as acareações diante da Justiça, o advogado encarregado da defesa dos réus espanhóis, Jean Bernard Padaré, e um dos representantes dos franceses, Mario Stasi, confirmaram que Breteau havia desvinculado a tripulação espanhola do avião do caso, o que abriu caminho para que eles pudessem deixar a prisão. Em 9 de novembro, os últimos espanhóis que permaneciam no Chade foram libertados.

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