Rina Castelnuovo/The New York Times
Rina Castelnuovo/The New York Times

Chamado para oração em mesquitas provoca debate em Israel

Proposta apoiada por Binyamin Netanyahu autorizaria governo a proibir o uso de alto-falantes pelas mesquitas e outros centros religiosos pelo país

Peter Baker, The New York Times, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2016 | 12h28

LOD, ISRAEL - É fácil não prestar atenção na mesquita localizada em um prédio temporário com piso de concreto e telhado ondulado, mas é impossível não reparar no conjunto com seis alto-falantes sobre uma estrutura gigantesca de metal que lembra a Torre Eiffel.

Cinco vezes por dia, começando muito antes do amanhecer, esses alto-falantes transmitem o chamado do muezim para a oração em Lod, cidade de árabes e judeus nos arredores do aeroporto internacional Ben-Gurion. Contudo, a expressão de um grupo de fé é a poluição sonora do outro, e o governo de Israel planeja reprimir o hábito.

Uma proposta que conta com o apoio do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, e inicialmente foi apoiada por seus ministros, autorizaria o governo a proibir o uso de alto-falantes pelas mesquitas e outros centros religiosos pelo país. Para muitas pessoas nos dois lados da divisão sectária da nação, poucas questões se revelariam mais provocadoras do que pensar em calar um muezim.

"A convocação à oração é um símbolo do Islã. Isso é algo que existe há 1.426 anos", diz Adel Elfar, imã da mesquita de Lod, uma das várias que têm provocado polêmica. Ele contou que aguenta ouvir os sinos de uma igreja cristã da cidade e que os residentes judeus rodam pela região de tempos em tempos fazendo transmissões com alto-falantes nos veículos. "O chamado de toda religião, se excluirmos o extremismo, não deveria incomodar ninguém", acrescentou.

Mesmo assim, algumas pessoas se incomodam. Entre eles está o prefeito de Lod, Yair Revivo, que é judeu e anunciou em outubro que a cidade transmitiria a "shema", oração importante que começa com "Ouvi, ó Israel", para contra-atacar o chamado das mesquitas.

A primeira das cinco orações diárias do Islã começa antes do amanhecer, observou Motti Yogev, membro do Parlamento que apresentou a proposta de proibição. "O objetivo da lei é impedir que o sono das pessoas seja perturbado. Não temos o desejo de prejudicar a oração dos muçulmanos."

A briga em torno do muezim destaca um desafio social fundamental para Israel além do seu conflito com os palestinos que moram em Gaza ou na Cisjordânia ocupada. Cerca de 20% dos cidadãos de Israel são árabes e cidades como Lod, onde quase um terço dos 73 mil habitantes são árabes, vivem lutando para encontrar um equilíbrio confortável. O conflito também cresceu em Jerusalém, dividida entre grandes comunidades árabes e judaicas.

A proibição proposta, aprovada pelos ministros de Netanyahu e enviada ao Parlamento, provocou denúncias da Jordânia e da Autoridade Palestina. Também atraiu a surpreendente oposição do ministro da saúde de Israel, o ultraortodoxo Yaakov Litzman, que paralisou temporariamente o debate parlamentar e devolveu a proposta aos ministros porque ela poderia afetar o uso de sirenes para anunciar o começo do sábado judaico.

Ahmad Tibi, líder dos membros árabes do Parlamento israelense, o Knesset, assegura que Netanyahu está inflamando sentimentos antimuçulmanos. "Se a lei do muezim for aprovada pelo Knesset, vou convocar o protesto do público árabe no país, convocar um levante popular", declarou ele a um canal de televisão libanês. "Todos os muçulmanos devem ser chamados para proteger as mesquitas, para defender as convocações para oração."

Na mesquita de Elfar, o chamado para rezar foi transmitido às 4h45, às 11h25, às 14h21, às 16h47 e às 18h05. A tensão ligada aos alto-falantes era fácil de detectar em visita a uma loja de roupas e uma joalheria a poucas quadras de distância.

Vários lojistas e vendedores judeus alegaram não se importar com o chamado durante o dia, mas que o primeiro sempre os acordava. Alguns descreveram tentativas de abafar o ruído com cortina ou cobertores, sem muito resultado.

Naama Reichmann, de 32 anos, que se mudou para Lod há cinco anos, disse que a convocação das 4h45 impedia que ela e a filha de dois anos dormissem a noite inteira. "Não defendo que eles não possam fazê-lo, mas não tão alto", argumenta. Chaim Koti, de 80 anos, que vendia roupas, foi mais incisivo. "Eles transmitem intencionalmente alto para nos incomodar", diz ele.

A poucos metros dali, um grupo de vendedores muçulmanos afirma que a proposta de limitar o muezim era um ofensa. Eles observaram que o chamado para rezar é anunciado em Lod desde antes Netanyahu chegar ao poder. "Existe ódio pelos árabes. Existem pessoas contrárias ao Islã", afirma Muhyi Sharabati, 22 anos.

Safiya Matweeye, de 19 anos, acredita que as autoridades deveriam se concentrar no crime e na violência em vez de focar em coisas que possam desestimular a oração. "É uma coisa boa, porque as pessoas vêm rezar em vez de atirarem umas nas outras nas ruas. A religião mantém as pessoas honestas."

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