Chamamento para concórdia

Logo começarão as audiências sobre a disputa a respeito da fronteira marítima entre Chile e Peru, que está na Corte Internacional de Justiça, de Haia. Muitos teriam preferido que a divergência fosse resolvida mediante negociações bilaterais, no ambiente discreto das chancelarias, mas, como o acordo não foi possível, o litígio está onde a razão e o senso comum assinalam que deve estar: perante uma instância jurídica internacional reconhecida por ambos e cuja sentença os governos se comprometeram a acatar.

MARIO VARGAS LLOSA, O Estado de S.Paulo

12 de agosto de 2012 | 03h05

No dia 25 de julho foi anunciado simultaneamente em Lima, Santiago e Madri um "Chamamento para a concórdia", assinado por 15 chilenos e 15 peruanos (entre os quais eu), de diferentes profissões, vocações e posições políticas, mas todos firmemente comprometidos com a cultura democrática. Trata-se de uma iniciativa de dois escritores, Jorge Edwards e eu.

Há 33 anos, em junho de 1979, por ocasião do centenário da Guerra do Pacífico, ambos lideramos também uma declaração assinada por dez chilenos e dez peruanos proclamando nossa vontade de agir para que os nossos países vivessem "sempre em paz e amizade". Naquela ocasião, lembramos que os inimigos do Peru e do Chile não eram nossos vizinhos, mas o subdesenvolvimento, e a batalha contra a fome, a ignorância, o desemprego, a falta de democracia e liberdade. "Só poderemos vencê-la unidos, lutando solidariamente contra os que pretendem nos tornar inimigos e criar obstáculos ao progresso".

Quando aquele primeiro manifesto apareceu, Chile e Peru sofriam debaixo de ditaduras militares (presididas pelo general Pinochet e pelo general Morales Bermúdez, respectivamente) que censuravam a imprensa, perseguiam os dissidentes e cometiam bárbaras violações contra os direitos humanos. Hoje, felizmente, ambos desfrutam de liberdade e de legalidade, têm governos nascidos de eleições livres que respeitam o direito de crítica e exercem uma política de mercado, de respeito pela propriedade privada, pela livre concorrência e de fomento aos investimentos, que deram um grande impulso ao seu desenvolvimento econômico.

Embora, indubitavelmente, haja muito a fazer ainda e as desigualdades da renda e de oportunidades continuem sendo muito grandes, a redução da pobreza, o crescimento das classes médias, o fluxo de investimentos estrangeiros, o controle da inflação e dos gastos públicos, bem como o fortalecimento das instituições em ambas as sociedades são notáveis, os mais rápidos registrados por sua história.

No âmbito do progresso sustentado, os intercâmbios econômicos entre Chile e Peru denotam um dinamismo sem precedentes. Empresas chilenas operam em todo o Peru, criaram muitos milhares de empregos, enquanto, há alguns anos, várias companhias peruanas começaram também a investir e trabalhar no Chile.

O número de peruanos que, desde o início da recuperação econômica chilena, emigraram para o país vizinho e lançaram ali suas raízes chega a dezenas de milhares.

Tudo isso é bom e benéfico para ambos, e deve ser estimulado porque, além de contribuir para o progresso material do Chile e do Peru, contribuirá para que desapareçam cada dia mais as suscetibilidades, resistências, os ódios e preconceitos que setores nacionalistas exaltados e irresponsáveis se empenham em manter vivos e atiçam em razão da disputa sobre as fronteiras que está sendo dirimida em Haia.

Essas manifestações de falsos patriotismos com que certos órgãos da imprensa e grupos políticos extremistas procuram semear a discórdia entre os dois países não são desinteressadas. Sua intenção secreta é justificar a corrida armamentista, ou seja, os vertiginosos investimentos que significam comprar nos nossos dias os brinquedos mortíferos com que os Exércitos brincam, desviando recursos que deveriam ser destinados às áreas da saúde, educação e infraestrutura, indispensáveis para que o desenvolvimento econômico não fique confinado às faixas de renda altas e médias, e chegue também onde mais faz falta, como os setores desfavorecidos e marginais.

Embora seja verdade que nos últimos anos estes setores se reduziram, continuam sendo ainda intoleravelmente extensos. E não há desenvolvimento digno desse nome se uma democracia não é capaz de criar, no campo econômico, igualdade de oportunidades para todos os seus cidadãos.

Essa é a razão de ser do nosso chamamento para a concórdia. Seja qual for a decisão do Tribunal Internacional, deve servir para fixar definitivamente as fronteiras e apagar para sempre esse foco de discórdias periódicas entre os países.

E, ao mesmo tempo, mostrar ao resto da América Latina a maneira civilizada e pacífica na qual devem ser resolvidos os conflitos limítrofes. A esse respeito, é preciso lembrar que as disputas sobre limites foram, há dois séculos, uma das fontes mais fecundas do subdesenvolvimento latino-americano.

Elas provocaram guerras insensatas nas quais a maioria dos cadáveres era dos mais pobres, e serviram de pretexto para um armamentismo que, sem nenhuma exceção, permitiu que militares e políticos corruptos enchessem os bolsos com comissões ilegais.

Outra das suas consequências foi o crescimento desmedido das forças militares e seu protagonismo na vida política, uma das razões pelas quais a cultura democrática foi, até pouco tempo, uma planta exótica de aclimatação muito difícil na maior parte dos países latino-americanos.

Nacionalismo. Sem dúvida, a herança mais nefasta dessas desavenças em muitos casos artificialmente provocadas foi a implantação do nacionalismo, obtusa ideologia que separa os países e os torna inimigos.

Ela é a explicação de que, embora falem a mesma língua, compartilhem de uma tradição, de uma história e de uma problemática social, os países latino-americanos não foram capazes até agora de se unir, como conseguiu a Europa, em uma grande confederação política, e sequer de fazer funcionar de maneira eficaz os tratados de livre comércio regionais que assinam de tanto em tanto, e todos, mais cedo ou mais tarde, acabam atolados ou anulados pelo espírito paroquial com o qual são utilizados na prática. Muitos destes conflitos estão apenas dormentes e ainda se mantêm, como sinistras ameaças que por qualquer pretexto podem se concretizar e desencadear guerras ou golpes de Estado que desbaratam em dias ou semanas as conquistas econômicas de muitos anos.

É verdade que a América Latina, com as exceções da ditadura cubana dos irmãos Castro - a mais prolongada de sua história - e a semiditadura do comandante Chávez (que, se houver eleições livres, talvez termine em outubro), foi deixando para trás o nefasto período das ditaduras militares e optando pela democracia.

Hoje, a imensa maioria dos países do continente tem governos civis, eleições, uma imprensa mais ou menos livre, e as instituições começam a funcionar, apesar dos elevados índices de criminalidade, em geral associada ao narcotráfico, à corrupção e às gigantescas diferenças de renda entre o topo e a base social.

Mas, mesmo levando em conta estes fatores negativos, há um inequívoco progresso, principalmente no campo econômico, graças a políticas pragmáticas e de abertura que substituíram as políticas catastróficas de ontem, quando o nacionalismo econômico propugnava fechar as fronteiras, estatizar "indústrias estratégicas" e praticar o desenvolvimento para dentro.

Somente um punhado de nações, como Bolívia e Equador, se aferram ainda a estes anacronismos. Mas os outros estão crescendo, e alguns países entre os quais se encontram precisamente Chile e Peru, com um ritmo muito bom. Uma prova indiscutível disto é o fato de que a América Latina pouco sofreu com a crise financeira que abala Europa e Estados Unidos.

Para que este progresso se aprimore e acelere é indispensável que velhas questões de vizinhos desapareçam e estes imitem o bom exemplo da Europa, aproximando-se cada vez mais de maneira que suas fronteiras. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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