Chamando os EUA: Alô? Alô? Alô?

Os governantes americanos não apenas deixaram de ser inovadores; eles são incapazes até mesmo de copiar boas ideias

Thomas L. Friedman*, O Estado de S.Paulo - The New York Times

05 de novembro de 2013 | 02h15

Morando e trabalhando no exterior há muitos anos, percebo a mudança da maneira como os estrangeiros veem os EUA. Ao longo dos anos, vi o país sendo respeitado, odiado, temido e amado. Mas viajando pela China e para Cingapura na semana passada, defrontei-me repetidamente com uma atitude para com o meu país da qual nunca me dei conta antes: "O que há com vocês?"

Amados ou odiados, os EUA sempre foram o padrão desmedido ao qual todos os outros eram comparados. O que os americanos construíram e sonharam foi, para muitos, a definição do futuro. Mas hoje, para muitas pessoas, os EUA parecem a definição do motorista bêbado - o inspirador de toda uma vida que caiu na farra e não é mais previsível. E, quanto à definição do futuro, o país que mostrou ao mundo ter posto um homem na Lua graças à união de todos os seus cidadãos, derrotou o nazismo e o comunismo, hoje apresenta uma política que pode ser resumida por três frases: "Não se pode fazer isso", "Não está em discussão" e "O presidente não sabia".

Uma respeitada personalidade de Cingapura, que há anos visita os EUA, disse ter ficado chocado, enquanto estava em Washington durante o fechamento do governo, ao constatar como a capital pareceu velha e emocionalmente deprimida. "Poucos americanos estão conscientes do quanto os EUA perderam no episódio recente que levou a economia americana à beira do abismo", disse Kishore Mahbubani, decano da Faculdade de Política Pública Lee Kuan Yew, de Cingapura, e autor de The Great Convergence: Asia, The West, and the Logic of One World (A Grande Convergência: Ásia, o Oeste e a Lógica de Um Mundo, em tradução livre). "As pessoas sempre olharam para os EUA como o país que tinha o governo melhor, o mais razoável, o mais ponderado. E agora elas perguntam: 'Os EUA conseguirão se governar? Quais serão as implicações para nós'" - se não conseguirem?

Falando a estudantes universitários, professores, diplomatas e empresários asiáticos, eu diria essencialmente que o que eles pensam é o seguinte: "Vocês vão realmente fechar o governo mais uma vez? Quem faz isso? E, a propósito, não pensem que isso não afeta o meu negócio aqui, porque tenho muitos dólares e não sei quanto valerão no futuro. Além disso, como é possível que as pessoas que nos deram a Amazon, a Apple, Microsoft, IBM e Google não saibam criar um site sobre saúde que funcione? Eu sei que ele tinha 5 milhões de usuários, mas há 48 milhões de indonésios no Facebook!"

Pior ainda, sempre que visitávamos a China ou Cingapura, eram sempre as pessoas do lugar que ficavam na defensiva quando discutíamos sobre democracia. Agora, são os americanos que querem mudar de assunto.

Afinal, até quando vai se brigar a respeito de um sistema no qual alguém precisa dispor de US$ 20 milhões para se eleger no Senado? Onde a maioria dos membros do Congresso escolhe seus eleitores por meio de tramoias, em vez os votantes os escolherem. Onde a lei sobre o direito de voto está perdendo força. Onde os parlamentares passam a maior parte do tempo livre arrecadando dinheiro, em vez de estudar os problemas do país. Onde o Congresso tornou-se um foro de corrupção legalizada. Onde apenas uma minoria de uma minoria ameaçou comprometer a classificação de crédito dos EUA se não fosse derrubada uma lei em vigor sobre a reforma da saúde. Onde não se pode aprovar nem a mais simples legislação sobre posse de armas de assalto depois do assassinato em massa de criancinhas.

Não acredito que haja tantos americanos que aceitem o comentário publicado na agência oficial de notícias chinesa Xinhua, depois do fechamento do governo, sugerindo que "talvez esteja na hora de esse mundo confuso começar a pensar na possibilidade de construir um mundo 'desamericanizado'". A agência entendeu perfeitamente o sentido de confuso. Muitas pessoas ainda fariam fila em meio a uma tempestade de neve para ir para os EUA, embora muitas delas, agora, o fariam não mais por se tratar do "farol sobre o rochedo", mas da "camisa menos suja".

Cingapura não é uma democracia plena. O que ela tem é um governo que acorda todos os dias perguntando: em que mundo vivemos, e qual será a melhor maneira de usar os recursos de que dispomos para permitir que um número maior dos nossos cidadãos possa prosperar? Pequenas coisas chamam a minha atenção aqui, como o sistema eletrônico de cobrança de pedágio que cumprimenta o motorista que se dirige para o centro da cidade e, por meio de um painel eletrônico, informa os minutos e quanto cobrará automaticamente quanto ele chegar ao centro. O sistema atualiza continuamente o preço de acordo com o número de carros que podem circular confortavelmente nas estradas.

O governo de George W. Bush tentou introduzir um sistema semelhante para reduzir o congestionamento e a poluição em Manhattan, mas isso acabou em razão de outros distritos e dos legisladores em Albany. E é isso que mais me aborrece hoje em dia. Não é apenas o fato de que os americanos não podem mais se unir para colocar um homem na Lua. É que nem podem implementar soluções de senso comum que outros dominam há muito tempo - algum sistema nacional de saúde, controle de armas, cobrança de pedágio, imposto sobre a gasolina para evitar o problema do orçamento e das emissões de carbono.

Como Andy Karsner, ex-secretário-adjunto de Energia que participou de um fórum do New York Times, na semana passada, comentou: "É a primeira vez que visito Cingapura e sua modernidade não é uma novidade, mas um contraste deprimente". Isso porque, acrescentou, toda a modernidade e a prosperidade que vê aqui "não tem base em recursos naturais, mas em uma engenhosidade natural - e na simples implementação das práticas mais eficientes, muitas das quais ironicamente surgiram nos EUA".

*Thomas L. Friedman é colunista.

TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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