REUTERS/Rick Wilking
REUTERS/Rick Wilking

Chamem o traficante

A ideia é que empresários da droga sejam usados como professores para sacudir a sonolenta economia francesa

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

26 Janeiro 2018 | 05h00

Há anos a Cannabis sativa recebe atentos cuidados dos poderes públicos e é alvo de estudo de sociólogos, jornalistas, cientistas políticos e médicos.

A comunidade linguística também acompanha os sinais de fumaça da erva, uma vez que ela vive mudando de nome. Alguns dos nomes mais conhecidos: maconha, marijuana, mary jane, pamonha, diamba, bagulho... E por aí vai. Ficamos nesses porque a simples listagem de sinônimos ocuparia todo o espaço deste artigo. Vou me contentar, pois, em informar ao público brasileiro o apelido mais recente surgido aqui na França: “beuh”.

Por que essa divagação linguística? Ocorre que o governo, embora consciente de que todas as tentativas de combater a erva maldita acabam em fracassos espetaculares, acredita que é hora de fazer nova tentativa (alguns diriam, colecionar mais um fracasso...). 

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Qual seria a nova tentativa em estudo? A descriminalização, que por muito tempo andou em voga, foi por fim descartada. Procura-se cada vez mais simplificar, acelerar, tornar inteligível a luta contra o beuh. A ideia é encurtar o longo, lento e pesado trajeto do consumo da droga, pois o suspeito até hoje é tratado pelo Sistema Judiciário.

A lei de 1970 não foi modificada: o consumidor de maconha arrisca-se a 1 ano de prisão e € 3.750 de multa. A mudança é que a multa será cobrada diretamente do culpado, não pelo juiz, mas pela polícia na rua. Quanto à pena de prisão, igualmente prevista na lei de 1970, não foi engavetada. No sistema atual, porém, a prisão quase nunca é decretada. As novas regras não se aplicam aos menores. Eles se beneficiarão de um regime jurídico específico. É estranho. Os menores consomem cada vez mais drogas: entre 2000 e 2013, esse consumo aumentou 7,7 vezes. 

Especialistas não esperam muito desse novo regime. Eles buscam soluções em outros campos, por exemplo, no sistema econômico que gera o comércio da maconha. O mercado da droga não é um mercado selvagem. É civilizado, ordeiro, submisso a regras estritas, complexas, rígidas e inteligentes.

No geral, os chefes do comércio maldito reproduzem, com agravantes, uma das características mais indignas das sociedades normais: a abissal distância entre a cúpula e a faixa mais humilde. Nas redes de tráfico, o chefe é fartamente remunerado e tem sempre carro de luxo com vidro fumê. O traficante final, que é obrigado a trabalhar de 10 a 12 horas por dia, ganha uma miséria. E não adianta burlar os horários: tudo é controlado. 

É um trabalho duro. O traficante final está exposto à polícia, às quadrilhas rivais, a brigas, a represálias dos moradores locais. O chefe da rede não sofre esses inconvenientes. 

Eis alguns dos salários vigentes no tráfico, segundo a revista especializada Ihnesj, do Instituto de altos Estudos de Segurança e Justiça: o chefe da rede ganha um mínimo de € 36 mil por mês; seu adjunto, € 21 mil; o chefe de vendas, entre € 100 e €150 por dia; o gerente da boca, entre € 110 e € 300 diários; o olheiro, entre € 40 e € 100 por dia, com jornada de 12 horas; e o vendedor, entre € 60 e € 15 por dia.

Uma ideia circula por aí: a de que, com exceção do próprio chefe, todo o restante do pessoal da droga poderia ser absorvido pela economia clássica. A ideia, pois, é que toda essa mão de obra bem formada, enérgica, corajosa, poderia ser retirada das redes de tráfico e reinjetada na sociedade industrial ou de serviços após alguns cursos de aperfeiçoamento. Isso secaria a reserva de mão de obra da droga. Fábricas, metalúrgicas, ferrovias estão sempre à procura de novos talentos... 

Professores. Uma ideia ainda mais radical também aparece aqui e ali: criar escolas de formação para os altos responsáveis pela economia francesa, contratando como professores desses novos estabelecimentos antigos quadros do comércio de droga. Eles são, com efeito, homens jovens, decididos, ágeis, em boa forma física, violentos quando necessário, diplomatas se houver necessidade, habituados a enfrentar reivindicações salariais das “bases”. 

Ninguém duvida de que esse ensino organizado pelos grandes nomes da droga e empregando como professores o pessoal de campo formado no tráfico poderia dar uma grande sacudida na sonolenta economia francesa. 

Piada? No século 18 a ilha britânica da Jamaica, no Caribe, estava sufocada pelos piratas que pululavam ao longo de sua costa. A corte de Londres contra-atacou. Nomeou chefe de polícia e em seguida governador da Jamaica o mais terrível dos piratas do Caribe, Henry Morgan. Em poucos anos, o ladrão transformado em polícia livrou o Mar do Caribe dos navios de bandeira negra. A colônia britânica se tornou agradável e próspera. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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