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Brasil não está entre as prioridades de Trump, mas isso pode ser uma boa notícia

Lourival Sant'Anna , O Estado de S. Paulo

22 Janeiro 2017 | 05h00

O governo brasileiro vai tentar tirar proveito do espírito pragmático e negociador de Donald Trump, e de sua rejeição ao México e à Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), para estreitar as relações econômicas com os EUA e com vizinhos sul-americanos do lado do Pacífico. Diferentemente do México e da China, o Brasil tem déficit comercial perante os EUA, o que provavelmente o protegerá da animosidade do novo presidente, que parece pessoalmente ofendido por países que exportam mais do que importam, ainda mais quando o fazem por meio de empresas originalmente americanas, que se deslocaram para eles atraídas por mão de obra barata. Não é o caso do Brasil.

Trump prometeu torpedear a TPP, que incluía EUA, Japão, Coreia do Sul, outros parceiros asiáticos – excluída a China –, México, Chile e Peru, num total de 12 países. A Colômbia tinha intenção de aderir também. Com o fim da TPP, o Brasil, banhado exclusivamente pelo Atlântico, considera que se abre um espaço para uma parceria com a Aliança do Pacífico, composta por México, Chile, Colômbia e Peru. 

Integrantes do governo brasileiro não comemoram e sentem uma certa compaixão pela situação delicada vivida pelo México, que foi “escolhido para Cristo” por Trump, como se fosse o causador de todos os males da economia americana, juntamente com a China. Mas avaliam que o enfraquecimento do México e as perdas que já está sofrendo de investimentos – a Ford cancelou a construção de um fábrica de US$ 1,6 bilhão no país após ameaças de Trump – e provavelmente sofrerá com a renegociação do tratado de livre-comércio com os EUA podem trazer benefícios para o Brasil.

A ideia é que tanto o México quanto os outros países do Pacífico poderão ter mais interesse de se aproximar comercialmente do Mercosul. Isso por um lado. De outra parte, os EUA também poderiam vislumbrar mais oportunidades no Brasil, em contraste com o tratamento prioritário conferido ao México nessas duas décadas e meia de vigor do Acordo de Livre-Comércio da América do Norte (Nafta).

É aí que entra em campo a tática de “mostrar serviço” à equipe de Trump, com a aceleração das negociações das parcerias mais viáveis. De um total de 50 acordos cujas negociações se arrastavam sem grande objetividade, o chanceler José Serra e o embaixador em Washington, Sérgio Amaral, selecionaram três – que estavam mais avançados e tinham chance de chegar a resultados rápidos – e investiram neles ainda com os funcionários do governo de Barack Obama, para estarem próximos da conclusão após a posse de Trump. 

Dois deles estão relacionados à facilitação do comércio, com a desburocratização dos trâmites e a convergência de normas técnicas sobre produtos. Tarifas alfandegárias e cotas de importações, instrumentos clássicos do protecionismo, não são os únicos empecilhos. Como essas coisas são mais difíceis de negociar, porque envolvem interesses de setores produtivos de ambos os países, Brasil e EUA atacaram nos últimos meses as diferenças de normas técnicas. 

Um programa-piloto foi desenvolvido no setor de cerâmica e já teve “forte impacto na expansão do comércio”, segundo o embaixador. Agora, será feito o mesmo com os têxteis. Ele acredita que regras fitossanitárias de produtos alimentícios também poderão ser harmonizadas. 

O terceiro acordo diz respeito à facilitação dos investimentos, também com a convergência de regras de entrada do dinheiro e das operações no outro país. Segundo Amaral, essa era uma demanda de empresas brasileiras, cujo estoque de investimentos nos EUA soma US$ 24 bilhões. A Gerdau tem oito siderúrgicas nos EUA. A JBS gera 60 mil empregos no país. Trump provavelmente gostará de saber disso. 

O Brasil certamente não está entre as prioridades de Trump. Mas isso pode ser uma boa notícia. O México que o diga.

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