Chanceler britânico compara Síria aos Bálcãs e cita intervenção como opção

O chanceler britânico, William Hague, comparou ontem a situação da Síria à guerra civil nos Bálcãs nos anos 90 e disse que não pode excluir uma intervenção militar externa dos possíveis cenários para a região. Ontem, dia em que o principal grupo opositor escolheu um líder secular de origem curda, o Observatório Sírio para Direitos Humanos acusou o regime de matar 38 pessoas em Homs e atacar cidades fronteiriças.

LONDRES, O Estado de S.Paulo

11 de junho de 2012 | 03h01

"Estamos no limite do colapso ou de uma guerra civil sectária, então eu não acho que possamos excluir qualquer cenário", disse Hague em um programa da Sky News, ao ser questionado sobre o apoio da Grã-Bretanha a uma ação armada na região. "Isso está se parecendo à Bósnia nos anos 90, um conflito sectário em que comunidades vizinhas estão atacando e matando umas às outras", acrescentou. Uma intervenção estrangeira aprovada pela ONU esbarra na oposição de China e Rússia, membros permanentes do Conselho de Segurança.

Ontem, o Observatório divulgou uma estimativa de 14 mil mortos em 15 meses de conflito. Segundo a entidade, pelo menos 9.862 civis perderam a vida (incluindo rebeldes em combate), além de 3.470 militares leais a Bashar Assad e 783 desertores. Só no fim de semana, teriam sido mais de 150 mortos diante da ofensiva do governo e da decisão dos rebeldes de já não respeitar o cessar-fogo negociado pelo mediador Kofi Annan.

Segundo o Observatório, vários bairros de Homs foram atingidos por bombardeios. Os opositores relatam ataques ainda em Qusayr e Talbiseh, na fronteira com o Líbano. Na Província de Deraa, na fronteira com a Jordânia, os combates ainda provocaram a morte de dois soldados.

Tentando se defender das acusações de que a oposição a Assad é dominada pelo grupo radical islâmico Irmandade Muçulmana, o Conselho Nacional Sírio indicou o curdo de origem secular Abdulbaset Sieda como novo líder. Seu primeiro pedido foi para que membros do Exército sírio desertem. A eleição de um integrante de uma minoria teria o objetivo dar uma imagem mais plural ao grupo, acusado de autoritário, e assim facilitar as doações ao movimento.

Divisão alauita. Enquanto o conflito sírio alcança novos níveis de sectarismo, Assad recorre cada vez mais à sua base de apoio religiosa. O núcleo alauita ainda o defende, mas há uma complexa divisão mesmo nessa seita. Alguns alauitas se dizem frustrados com o fato de as forças de segurança não terem conseguido esmagar a oposição, enquanto outros afirmam que Assad coloca em risco seu futuro ao empurrá-los para uma guerra civil contra os muçulmanos sunitas.

O Partido Baath, do governo de Assad, defende um socialismo pan-árabe e secular, mas os sunitas, 74% da população, queixam-se do que descrevem como um governo sectário dos alauitas, nominalmente muçulmanos xiitas que formam apenas 13% da população. "A vizinhança está dividida. Metade dos habitantes é subserviente e o restante são animais", diz o padeiro Jaber Abboud, de Banias, alauita que se animou a criticar Assad publicamente. Quando os levantes começaram na região, muitos alauitas de Banias acreditaram que, se a família Assad fosse derrubada, estariam perdidos. Todos se uniram contra Abboud, boicotando o comércio dele e obrigando-o a deixar a cidade.

As tensões entre alauitas e sunitas atingiram um novo auge após uma sequência de assassinatos em massa, principalmente o massacre de 108 sunitas em Hula, em 25 de maio, que teve entre as vítimas 49 crianças. Sobreviventes de Hula e pessoas que moram perto de onde ocorreu a matança da última quarta-feira, no vilarejo de Mazraat al-Qubeir, disseram que os autores vieram de vilarejos alauitas. A ONU disse que, em Hula, as suspeitas se concentravam nos milicianos conhecidos "shabiha", defensores do governo. A maioria de seus membros é alauita. AP e NYT. COM JAMIL CHADE

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