Matilde Campodonico/Arquivo/AP
Matilde Campodonico/Arquivo/AP

Chanceler conhecido pelo pragmatismo é novo vice e possível sucessor de Chávez

Líder venezuelano escolhe ministro das Relações Exteriores, Nicolás Maduro, para função ocupada por Elías Jaua

O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2012 | 03h02

CARACAS - O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, anunciou na quarta-feira, 10, que seu atual chanceler, Nicolás Maduro, ocupará a função de vice-presidente. O cargo ganhou importância desde que o presidente venezuelano anunciou, em julho de 2011, ter um câncer pélvico cuja extensão não é conhecida. A troca tem efeito imediato.

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Maduro substituirá Elías Jaua, que disputará a eleição para governador do Estado de Miranda em 16 de dezembro contra Henrique Capriles, o opositor que no domingo foi derrotado por Chávez. O anúncio foi feito durante a proclamação oficial do líder bolivariano como vencedor da eleição pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE).

"Ao chanceler Maduro, desejamos muito sucesso", disse o presidente, segundo o jornal El Universal. "Vamos aplaudi-lo. Ele tem sido um grande servidor público todos estes anos em diversas frentes de batalha: na Assembleia Nacional e na chancelaria."

Chávez também agradeceu a Jaua pelos serviços prestados nos dois anos e meio em que foi seu vice. "Obrigado a Jaua, à sua família e aos que trabalharam com você por terem me aguentado", brincou o presidente.

No dia da eleição, após votar, o líder bolivariano destacou Maduro, sua mulher - a deputada Cilia Flores - e Jaua, como "jovens nomes do chavismo". Chávez afirmou também que sua revolução bolivariana "não é um projeto de um homem só" e "será levada adiante pelo povo", dando a impressão de pensar em um sucessor.

Proeminência. Analistas venezuelanos de ambos os lados do espectro político concordam em um ponto: Maduro sai fortalecido com a nomeação. Ele se torna - no momento - o favorito do presidente. "Maduro é o herdeiro ideológico de Chávez. É seu delfim", avalia o cientista político Omar Noria, da Universidade Simón Bolívar (USB), crítico ao chavismo. De acordo com o analista, Maduro vem ganhando força nos bastidores há pelo menos dois anos. Com a doença de Chávez, aproximou-se ainda mais do presidente.

Durante o período em que esteve em Cuba para tratar o câncer, Chávez recusou-se a transferir o cargo para Jaua. A doença também motivou debates sobre quem seria o herdeiro do chavismo. Ao longo de 14 anos no poder, o presidente evitou escolher um sucessor. Sempre que um nome ganhava proeminência era afastado ou trocado de cargo. "Era previsível que Maduro, que apareceu muito próximo do presidente antes da eleição e durante suas viagens a Cuba, recebesse esse apoio", acrescenta Noria. "O chanceler é, até agora, o melhor intérprete de sua política."

Jaua, Maduro, o presidente da Assembleia Nacional, Diosdado Cabello, e Adán Chávez, um dos irmãos do presidente, foram apontados no começo do ano por analistas venezuelanos como os mais cotados para substituí-lo em caso de morte. Jaua e Adán representam o núcleo ideológico do chavismo e Cabello é ligado aos militares. Maduro é tido como pragmático.

Para o sociólogo Óscar Reyes, consultor do canal estatal TVES, além de uma demonstração de proximidade de Chávez com o chanceler, a nomeação de Maduro para vice ecoa o discurso de conciliação que o presidente reeleito adotou nos últimos dias. "Chávez colocou seu chefe de diplomacia como vice e isso é significativo. Jaua não tem esse perfil de negociação", avalia. "Vão especular muito sobre a saúde de Chávez agora. E, pensando num sucessor, de fato Nicolás é um dos nomes mais fortes, porque pode negociar com os setores radicais de esquerda."

Noria, no entanto, contesta o real significado da moderação do discurso de Chávez. "São palavras vazias", diz. "Além disso, Maduro está completamente alinhado ideologicamente ao presidente. É um lugar-tenente."

Sindicalista. O chanceler, de 49 anos, foi condutor de trens do metrô de Caracas e líder sindical. Com a ascensão de Chávez ao poder, elegeu-se deputado em 1999 e presidiu a Assembleia Nacional entre 2005 e 2006, quando assumiu a chefia do ministério de Relações Exteriores. Sem diploma universitário, ganhou proeminência dentro do chavismo e é tido como um dos interlocutores mais próximos do presidente. Durante a última internação do presidente em Cuba, o acompanhou durante o tratamento.

Na Venezuela, o cargo de vice-presidente é de livre nomeação do governo. Em quase 14 anos na presidência, Chávez já nomeou sete vices - alguns acumularam a função. Segundo a Constituição, se Chávez for obrigado a deixar a presidência até o quarto ano de seu novo mandato (que se inicia em 2013), nova eleição presidencial deve ser convocada em 30 dias. Se a ausência ocorrer no biênio final do mandato de seis anos o vice completa o mandato. / COLABOROU LUIZ RAATZ

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