Sergey Guneev, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP
Sergey Guneev, Sputnik, Kremlin Pool Photo via AP

Putin e Scholz decidem continuar negociações sobre segurança; limite à Otan segue como divergência

Scholz viajou para Moscou nesta terça-feira, 15, após passagem por Kiev na segunda, em um momento em que o Kremlin acena para a intensificação da via diplomática

Katrin Bennhold e Anton Troianovski, The New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de fevereiro de 2022 | 09h35
Atualizado 15 de fevereiro de 2022 | 15h40

Com o Kremlin sinalizando uma abertura para mais diplomacia e a Ucrânia insinuando concessões para evitar a guerra, o chanceler alemão, Olaf Scholz, se encontrou com o presidente russo, Vladimir Putin, nesta terça-feira, 15, em Moscou, tornando-se o mais recente líder ocidental a embarcar nas negociações diplomáticas para desarmar a crise no Leste Europeu.

O líder alemão chegou a Moscou -- após uma passagem por Kiev na segunda-feira, 14 -- no mesmo dia em que o Ministério da Defesa russo comunicou que algumas tropas reunidas em torno da Ucrânia estavam retornando às suas bases, um sinal provisório de que a ameaça de uma iminente invasão russa estava diminuindo.

No discurso de abertura transmitido pela mídia estatal russa, Putin disse a Scholz que uma "parte significativa" da reunião seria focada na Ucrânia e em outros assuntos de segurança europeia. Ao fim de cerca de três horas de tratativas, os dois líderes europeus participaram de uma coletiva de imprensa conjunta.

Putin e Scholz concordaram em discutir uma série de medidas de segurança que a Rússia havia proposto anteriormente, como os limites na implantação de mísseis de alcance intermediário na Europa, a transparência de exercícios militares e outras medidas de construção de confiança - mas também expressaram algumas discordâncias.

Putin afirmou que deseja "continuar trabalhando em conjunto" com os países ocidentais sobre a segurança europeia para desescalar a crise na Ucrânia e se disse disposto a "seguir o caminho da negociação", repetindo o discurso adotado pelo Kremlin desde segunda-feira. No entanto, o presidente criticou a rejeição dos países ocidentais a suas principais exigências - especialmente quanto a não expansão da Otan ao leste - as quais "infelizmente não receberam uma resposta construtiva".

"Queremos [uma guerra] ou não? É óbvio que não. Por isso apresentamos nossas propostas para um processo de negociação", afirmou Putin, acrescentando que a Rússia não vai renunciar a essas demandas, e que elas ainda serão parte das negociações entre russos e ocidentais.

Scholz afirmou que, para a Alemanha, só é possível alcançar uma segurança sustentável para a Europa com a participação da Rússia, e que é uma responsabilidade conjunta dos países evitar um novo conflito em território europeu. O chanceler também comentou sobre a retirada parcial de tropas russas da fronteira com a Ucrânia, dizendo que era um "bom sinal", mas afirmou ser necessário um esforço maior para superar a crise - em um discurso similar ao do comando da Otan.

Durante a coletiva, o líder alemão também acabou comentando sobre a situação do rival do Kremlin, Alexei Navalni, preso desde o ano passado após retornar ao país. "No que diz respeito a Navalni, minha posição é muito clara, e sua condenação é incompatível com os princípios de um Estado de Direito. E já expressei esta posição em muitas ocasiões", disse o chanceler.

A visita de Scholz segue o rito de reuniões semelhantes nas últimas semanas do presidente Emmanuel Macron, da França, e de uma série de ministros das Relações Exteriores, todos tentando impedir um confronto armado, já que Putin acumulou forças terrestres e navais em três lados da Ucrânia.

Assim como Macron, a passagem de Scholz pelo Kremlin também chamou a atenção por ser recebido em uma longa mesa no salão branco da sede do governo. A recepção pouco calorosa foi justificada por autoridades russas como uma medida de prevenção contra a covid-19, uma vez que o chanceler alemão - a exemplo do presidente francês - não aceitou passar por um teste administrado pelas autoridades russas, optando por ser submetido a um exame feito por um de seus médicos.

Scholz, que assumiu o cargo há dois meses, demorou a assumir um papel de destaque nos esforços diplomáticos para impedir que a Rússia invadisse a Ucrânia, mas se reuniu com outros líderes ocidentais quase todos os dias na semana passada.

Passagem por Kiev

A viagem também é simbólica por ocorrer um dia depois de uma ida a Kiev, onde garantiu ao presidente ucraniano, Volodmir Zelenski, o apoio da Alemanha diante da agressão russa, embora sem oferecer armas.

Em uma coletiva de imprensa conjunta na segunda-feira, Scholz e Zelenski sugeriram a possibilidade de concessões relacionadas às ambições da Ucrânia de ingressar na Otan, que estão consagradas na constituição do país, mas que autoridades ocidentais dizem que não podem ser cumpridas no futuro próximo. .

Scholz reafirmou o compromisso da Alemanha com o princípio de permitir que cada país escolha suas próprias alianças. Mas ele também disse que a questão não está na mesa no momento e pediu flexibilidade para diminuir a crise atual.

"Não há esferas de interesse na Europa sobre as quais outros Estados possam decidir", disse Scholz. “Mas ainda assim, devemos olhar para a realidade e é isso: há um conflito que queremos diminuir. Essa é a tarefa da hora.”

Scholz disse que a Alemanha está preparada para "sanções muito abrangentes e eficazes" se a Rússia invadir. Mas, como no passado, ele não disse quais seriam – e, em particular, não disse se fecharia o Nord Stream 2, o projeto de gasoduto quase concluído para fornecer gás natural russo à Alemanha.

Analistas observam que Scholz tem pouco conteúdo para oferecer a Putin, mas que a reunião pode revelar se ele está disposto a adotar uma linha mais dura contra Moscou.

“O que as pessoas ainda estão esperando para ouvir é a sentença: se Putin invadir, o Nord Stream 2 está morto”, disse Timothy Garton Ash, professor de história europeia da Universidade de Oxford. “É importante porque é a frase que todo mundo quer ouvir. E é a única maneira de resolver a ambiguidade na posição da Alemanha.”

 

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