Ukrainian Presidential Press Service/Handout via REUTERS
Ukrainian Presidential Press Service/Handout via REUTERS

Chanceler da Alemanha vai a Moscou tentar impedir ação militar russa contra a Ucrânia

Criticado em casa por omissão, Olaf Scholz viaja à Rússia para tentar pressionar Putin e demonstrar unidade com EUA

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2022 | 10h03
Atualizado 14 de fevereiro de 2022 | 11h27

BERLIM - Em meio a temores de que o tempo para encontrar uma saída diplomática e impedir uma ação militar da Rússia contra a Ucrânia está prestes a se esgotar, o chanceler da Alemanha, Olaf Scholz, pretende usar a sua viagem a Moscou, nesta terça-feira, para pressionar Vladimir Putin a não atacar o país vizinho. Antes, ele visita Kiev nesta segunda-feira, 14.

"Esperamos de Moscou sinais imediatos de desescalada. Uma nova agressão militar teria duras consequências para a Rússia", afirmou ele no Twitter. Scholz classificou a situação como "muito, muito grave".

Scholz deve ameaçar Putin com sanções econômicas e transmitir uma imagem de unidade total entre EUA, União Europeia (UE) e Reino Unido. No domingo, 13, o chanceler prometeu sanções “imediatas” caso a ação militar - que, segundo a Inteligência americana, pode acontecer a qualquer momento, embora também possa vir a não acontecer - se concretize.

“Caso ocorra uma agressão militar contra a Ucrânia, que ponha a sua soberania e a sua integridade territorial em risco, isso levará a sanções duras, que preparamos cuidadosamente e que poderemos aplicar imediatamente com nossos aliados da Europa e da Otan”, disse Scholz.

Nas últimas semanas, a Alemanha recebeu críticas da Ucrânia e de vários de seus parceiros ocidentais por ser muito comedida com Moscou. Isto levou o chanceler a perder popularidade internamente, em função da percepção de parte da população de que ele agia para preservar interesses de empresários alemães e era omisso na defesa de países do Leste Europeu que se sentem ameaçados.

Vários representantes do governo alemão se manifestaram no domingo com um tom mais vigoroso contra Putin. Neste domingo, o vice-chanceler e ministro da Economia, Robert Habeck , disse que a Europa pode estar à beira da guerra. “Podemos estar à beira de uma guerra na Europa. É absolutamente opressivo e ameaçador”, disse Habeck à emissora RTL/NTV.

O presidente da Alemanha, Frank-Walter Steinmeier, também responsabilizou diretamente a Rússia pela possibilidade de um conflito militar. Steinmeier - que ocupa um cargo principalmente cerimonial e reelegeu-se neste domingo para um novo mandato de cinco anos - é uma figura muito respeitada e próximo de Scholz. O fato de acusar Moscou não é trivial.

“Existe o perigo de um conflito militar, uma guerra na Europa Oriental e a Rússia é responsável por isso”, disse Steinmeier, pouco depois de se eleger com apoio da centro-direita e da centro-esquerda em uma eleição secreta no Parlamento.

Aludindo a uma crescente "distância" da Rússia da Europa, Steinmeier, que esteve à frente da diplomacia alemã durante anos, exigiu firmeza diante de Moscou.

“Como vemos, a paz não pode ser dada como certa, é preciso sempre agir para preservá-la. No diálogo, mas também, quando necessário, as coisas devem ser ditas com clareza, mostrando dissuasão e determinação”, disse, sob aplausos.

Antes da viagem, Scholz conversou no telefone com Putin no domingo, e, durante a ligação, segundo a inteligência alemã, afirmou que a concentração de cerca de 130 mil soldados perto da fronteira não pode ser entendida senão como uma ameaça.

Para Entender

Entenda a crise entre Rússia e Otan na Ucrânia

O que começou como uma troca de acusações, em novembro do ano passado, evoluiu para uma crise internacional com mobilização de tropas e de esforços diplomáticos

Uma autoridade alemã, em conversa com jornalistas, afirmou que Scholz não oferecerá a Putin qualquer espécie de moratória que vete a entrada da Ucrânia na Otan. A fonte disse que Scholz espera discutir maneiras de avançar na implementação dos acordos de paz de Minsk, de 2015, que buscam encerrar um conflito separatista no leste da Ucrânia. A autoridade disse não esperar “resultados concretos, mas essas conversas são importantes”.

Antes da ida a Moscou, Scholz viaja para Kiev na segunda-feira, onde se encontra com o presidente ucraniano, Volodimir Zelenski. O chanceler alemão provavelmente oferecerá mais ajuda econômica alemã à Ucrânia, para se somarem aos quase € 2 bilhões (R$ 12 bilhões) fornecidos desde 2014.

Apesar disso, a Alemanha continua se recusando a entregar armas "letais" à Ucrânia, baseando-se em uma política estabelecida após a Segunda Guerra no país, que proíbe tais vendas em zonas de conflito. É possível que outros equipamentos não letais sejam fornecidos.

O presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, conversou com seu homólogo ucraniano na manhã de domingo, depois de ordenar a evacuação completa das duas embaixadas dos EUA em Kiev.

O presidente da Ucrânia convidou o chefe de Estado americano para fazer uma visita a seu país nos próximos dias. Um comunicado da Casa Branca disse que Biden deixou claro que os EUA "responderiam rápida e decisivamente a qualquer nova agressão russa" e os dois líderes concordaram com a necessidade de continuar buscando a diplomacia e a dissuasão militar.

No sábado, Biden falou com Putin no telefone por uma hora, mas, segundo a Casa Branca, não conseguiu fazer o líder russo mudar de ideia. Um dia depois, o conselheiro de Segurança da Casa Branca, Jake Sullivan, fez uma análise sombria da situação em uma entrevista à TV. Segundo ele, um ataque provavelmente começaria com "uma enxurrada significativa de mísseis e ataques a bomba" levando à morte de civis.

“Nos últimos 10 dias, vimos numa aceleração dramática na acumulação de forças russas e no posicionamento dessas forças, de tal forma que poderiam lançar uma ação militar essencialmente a qualquer momento”, disse Sullivan ao programa Face the Nation, da CBS News.

A Rússia nega ter planos de invadir a Ucrânia, mas houve relatos no domingo de helicópteros de ataque e transporte de tropas sendo deslocados perto da fronteira ucraniana. Moscou não respondeu a um pedido formal da Ucrânia para esclarecer o objetivo de suas ações militares em Belarus dentro do prazo de 48 horas estabelecido pelo documento de Viena, um acordo internacional que visa proporcionar transparência e reduzir o risco de guerra.

O governo belarrusso respondeu a um pedido semelhante para as nações bálticas, mas disse que algumas das unidades russas em seu território estavam lá para proteger sua fronteira Sul, sugerindo que não partiriam em 20 de fevereiro, quando os exercícios militares deveriam terminar.

A companhia aérea holandesa KLM informou que irá parar de realizar voos sobre o espaço aéreo ucraniano. Há relatos de outras companhias, incluindo a British Airways, que já o estão evitando.

Ameaça da Rússia

A agência de notícias russa Interfax entrevistou um funcionário de alta patente das Forças Amadas do país que afirmou que a Rússia está pronta para abrir fogo em qualquer embarcação ou submarino que entrar em suas águas ilegalmente.

Essa decisão, no entanto, seria tomada somente pelo nível mais alto de comando do país, afirmou o militar, que não foi identificado.

No sábado, o governo da Rússia afirmou que suas forças marítimas perseguiram e expulsaram um submarino norte-americano que estava em águas russas no Oceano Pacífico. Os EUA negaram que estivessem fazendo operações militares em águas do território russo.

Ucrânia pede reunião com a Rússia

A Ucrânia exigiu uma reunião urgentemente com a Rússia e os países da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), depois de acusar o governo russo de não compartilhar informações sobre seus grandes deslocamentos de tropas na fronteira ucraniana.

Em comunicado publicado na noite de domingo, o chefe da diplomacia ucraniana, Dmitro Kuleba, afirmou que a Rússia ignorou uma exigência de Kiev sobre o Documento de Viena, um texto da OSCE que promove medidas de transparência entre as Forças Armadas dos 57 países membros da organização.

"Passamos à próxima etapa. A Ucrânia convoca uma reunião com a Rússia e todos os Estados membros (da OSCE) em 48 horas para discutir a intensificação e os deslocamentos de tropas russas ao longo de nossa fronteira e na Crimeia ocupada", anunciou Kuleba.

A Rússia "deve cumprir seus compromissos de transparência militar para reduzir as tensões e fortalecer a segurança de todos os Estados participantes", acrescentou.

Desde novembro, a Rússia concentrou mais de 100 mil soldados nas fronteiras da região leste ucraniana, o que gerou preocupação no Ocidente, que teme uma nova operação militar contra a Ucrânia após a anexação da Crimeia em 2014./ REUTERS, AP e AFP

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.