Wilson Dias/Agência Brasil
Wilson Dias/Agência Brasil

Chanceler diz que ingresso na OCDE é essencial para as reformas no Brasil

Em balanço da visita do presidente Bolsonaro aos EUA, Araújo diz ser necessário que o País abandone a ótica de ser sempre um país em desenvolvimento

Mariana Haubert / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2019 | 17h25

O ministro das Relações Exteriores, embaixador Ernesto Araújo, afirmou nesta quarta-feira que o ingresso do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é essencial para ajudar o País nas reformas que o governo quer fazer. "Vamos atrair investimentos desde o primeiro momento", disse, em entrevista coletiva de balanço da viagem do presidente Jair Bolsonaro e comitiva aos Estados Unidos. Durante a visita de Bolsonaro, o presidente americano, Donald Trump, declarou apoio ao ingresso do Brasil na OCDE.

Segundo Araújo, é preciso que o Brasil assuma seu papel de país grande e abandone a ótica de ser sempre um país em desenvolvimento. Araújo disse que o Brasil precisava aderir aos dois grandes instrumentos do Ocidente, a OCDE e a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). "O tratamento diferenciado (na OMC) nunca nos tirou de onde nós estávamos, então alguma coisa está errada", comentou o chanceler. 

Araújo afirmou que os resultados da visita do presidente Bolsonaro e sua comitiva aos EUA foram fundamentalmente o que foi prometido. "Desde a transição comecei a trabalhar para tornar realidade essas ideias e as minhas no que tange aos EUA", disse.

Segundo o chanceler, a ideia era mostrar um novo Brasil, "um Brasil que pensava, que não queria apenas entrar na OCDE". Seria, segundo ele, a construção de uma nova parceria em um patamar muito mais elevado. Araújo afirmou que os Estados Unidos e o Brasil foram se aproximando e os EUA não sabiam se esse novo Brasil era para valer ou era apenas discurso de campanha. "Estamos tentando fazer uma política externa e um governo com ideias. Quem não gosta disso, é porque não tem ideias", afirmou.

O ministro disse que o Brasil foi defender duas frentes na viagem aos EUA: a liberdade e a grandeza. "O Brasil em qualquer situação tem que almejar estar na primeira categoria, precisa ter status de um líder global", disse. "Nós nos víamos em um espelho que nos distorcia, nos víamos como um país pequeno, sempre como um ator secundário", completou.

Araújo ainda criticou a velha política do toma lá, dá cá. Segundo ele, é um consenso de que essa velha política não serve, que precisamos de uma nova política longe dessa prática. "A velha política externa nos deu apenas frustrações e agora estamos começando esse caminho."

Com relação à visita de Bolsonaro a Israel, Araújo afirmou que há uma grande expectativa. "Espero resultados tão bons quanto nos Estados Unidos." Bolsonaro visitará Israel entre 31 de março e 2 de abril, depois de ir nesta semana aos Estados Unidos e ao Chile, em uma demonstração de uma guinada diplomática em direção a governos conservadores e nacionalistas.

"Teremos uma mudança de patamar na relação com Israel, mas não significa mudança com os árabes", disse o ministro. "O Brasil quer contribuir para a estabilidade naquela região (Israel)", completou.

Segundo ele, o governo "ainda está estudando" se transfere sua embaixada em Israel para Jerusalém. "A questão de Jerusalém é importantíssima, faz parte da essência do que pode significar essa nova relação com Israel. A forma como será tomada [a decisão] ainda estamos estudando", declarou. Durante a campanha, Bolsonaro prometeu que transferiria a embaixada de Tel Aviv para Jerusalém, o que foi confirmado após a posse embora as expectativas tenham esfriado diante de sinais de que os países árabes poderiam adotar represálias comerciais.

O governo brasileiro ainda não divulgou o programa da viagem de Bolsonaro, que já recebeu o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu no Brasil na inauguração de seu mandato presidencial, em 1.º de janeiro. O chanceler somente adiantou que, por enquanto, não está previsto que Bolsonaro visite os territórios palestinos.

Israel considera toda a cidade de Jerusalém como sua capital indivisível, enquanto os palestinos querem que Jerusalém Oriental se torne a capital de seu futuro Estado.

Sobre a decisão do Brasil, anunciada durante a visita aos EUA, da isenção do visto para americanos, Araújo disse que a medida terá impacto "extremamente relevante para o Brasil", mas o governo ainda não conseguiu quantificar os impactos.

Questionado sobre a presença do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) no encontro de seu pai com Trump, Araújo disse ter achado "excelente" a participação dele. "O deputado Eduardo Bolsonaro e eu temos uma visão coincidente sobre a relação do Brasil com os EUA e sobre a projeção do Brasil com o mundo", disse.

Ele também afirmou que o encontro bilateral que Bolsonaro terá com o presidente do Chile, Sebástian Piñera, será importante para estreitar as relações entre os dois países. O chanceler confirmou também que os países latinos integrantes da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) deverão fazer um movimento conjunto para deixar o bloco.

"Gostamos muito da ideia chilena de substituir a Unasul, que é um organismo que não faz mais sentido. Ela foi capturada por uma agenda com vício de origem, de desintegração dos países e a ideia de substituir isso por um organismo mais leve e que terá iniciativas específicas e concretas para os países", disse.

A proposta do governo chileno e do presidente da Colômbia, Iván Duque, é criar um novo bloco que está sendo chamado de Prosul. A Unasul foi criada por Hugo Chávez há quase uma década, ainda no governo Lula, e acabou sendo esvaziada ao longo do tempo por divergências entre os governos dos 12 países da região. O ministro destacou que é preciso que continue existindo um organismo que reflita o fato de que a América do Sul precisa se integrar.

Bolsonaro embarca para o Chile nesta quinta-feira. Lá ele participará de encontros com presidentes de outros países e terá uma reunião bilateral com Piñera.

"Temos uma ótima relação com o Chile e o encontro abrirá a possibilidade de se potencializar ainda mais as relações", disse. / COM AFP

 

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