Evgenia Novozhenina / Reuters
Evgenia Novozhenina / Reuters

Irã diz que ataque de EUA ou Arábia Saudita resultará em ‘guerra total’

Declaração é a advertência mais direta de Teerã desde o colapso de seu acordo nuclear

Redação, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2019 | 08h48
Atualizado 19 de setembro de 2019 | 20h30

DUBAI, EMIRADOS ÁRABES - Um ataque militar dos EUA ou da Arábia Saudita contra o Irã causará a uma “guerra total”, alertou nesta quinta-feira, 19, o chanceler iraniano, Mohammad Javad Zarif. Americanos e sauditas culpam o Irã pelo ataque contra instalações petrolíferas da Arábia Saudita, cuja responsabilidade foi reivindicada pelos rebeldes houthis do Iêmen. 

As declarações do chanceler são a advertência mais direta de Teerã ao rival regional e aos americanos após o colapso de seu acordo nuclear com potências internacionais. Desde que o presidente americano, Donald Trump, decidiu sair de forma unilateral do pacto, o número de ataque com drones atribuídos ao Irã no Estreito de Ormuz aumentou.

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As declarações de Zarif também parecem ser uma resposta ao  secretário de Estado americano, Mike Pompeo, que durante uma viagem à Arábia Saudita na quarta-feira se referiu aos ataques de sábado como um "ato de guerra".

Questionado pela emissora americana CNN sobre as consequências de um ataque de Washington ou Riad, Zarif declarou: "Guerra total". "Não teremos dúvidas quanto a defender nosso território", afirmou ele.

EUA denunciam ataques 'inéditos' 

Pompeo qualificou os ataques de "inéditos" em um tuíte publicado na véspera, após uma reunião em Jeddah com o príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman, com quem abordou as ações com drones e mísseis de cruzeiro à maior instalação de petróleo da Arábia Saudita.

Os rebeldes houthis, apoiados por Irã, assumiram a autoria dos ataques, mas Washington defende que foram os iranianos os responsáveis. 

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"Os EUA estão com a Arábia Saudita e apoiam seu direito de se defender", escreveu Pompeu em sua conta no Twitter. "Não será tolerado comportamento ameaçador do regime iraniano." O secretário não deu mais detalhes sobre o assunto.

Resposta militar

O governo republicano ainda avalia como reagir. No entanto, de acordo com a imprensa, Trump reluta em ordenar uma ação militar, o que explicaria declarações recentes bem menos agressivas. Questionado sobre os últimos comentários de Zarif, o secretário de Estado dos EUA confirmou que a Casa Branca quer encontrar uma “saída pacífica”. 

“Com certeza, gostaríamos de chegar a uma resolução pacífica”, disse Pompeo hoje, em visita aos Emirados Árabes, após deixar Riad. “Ainda estamos nos esforçando para construir uma coalizão. Eu estive na Arábia Saudita, em um ato de diplomacia, enquanto o ministro das Relações Exteriores do Irã fica fazendo ameaças de ‘guerra total’”, reclamou Pompeo. 

O Pentágono informou que trabalha com a Arábia Saudita para encontrar uma maneira de fornecer mais proteção à parte norte do país após os ataques. Na quarta-feira, autoridades sauditas exibiram imagens de satélite que provam que os drones vieram do norte, culpando o Irã – a responsabilidade, segundo especialistas, ainda não está clara. 

O porta-voz do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas dos EUA, coronel Patrick Ryder, afirmou que o Comando Central dos EUA está conversando com os sauditas sobre maneiras de evitar novos bombardeios, mas não detalhou o tipo de apoio que poderia ser fornecido. 

Jonathan Hoffman, porta-voz do Pentágono, informou que o presidente americano está recebendo constantemente informações sobre opções militares para qualquer tipo de resposta, mas nenhuma decisão foi tomada. Ele afirmou que a Casa Branca precisa de mais detalhes antes de determinar exatamente quem lançou os ataques e definir a resposta.

Proteção às vias navegáveis do Oriente Médio

Nos Emirados Árabes, Pompeu se reuniu com o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, o xeque Mohammed bin Zayed Al-Nahyan.

Emirados Árabes, aliado próximo a Riad e que participa com o reino saudita na guerra contra os houthis, anunciou também nesta quinta que se juntou à coalização liderada pelos EUA para proteger as vias navegáveis no Oriente Médio após os ataques.

O país entrou para a aliança com o objetivo de "garantir a segurança energética global e o fluxo contínuo de suprimentos de energia à economia global", disse Salem al-Zaabi, do Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes. 

Vistos para a delegação iraniana

Mohammad Javad Zarif disse ainda nesta quinta que Pompeo estava tentando atrasar a emissão dos vistos para a delegação iraniana viajar a Nova York para a Assembleia Geral da ONU.

"O secretário Pompeo tenta se esquivar da obrigação dos EUA de emitir vistos para a delegação americana ao recorrer a designações auto-arrogadas", escreveu o ministro em sua conta no Twitter.

Ele não esclareceu se o atraso pode estar ligado à lista dos EUA de países considerados "inimigos". "Uma lição de História, talvez para o meu mais novo colega: Nelson Mandela esteve na lista americana de possíveis terroristas até 2008, 15 anos após receber o prêmio Nobel da Paz", escreveu Zarif. / AP

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