Marcos Brindicci/Reuters
Marcos Brindicci/Reuters

Chanceler paraguaio diz que entrada da Venezuela no Mercosul é 'inaceitável'

Questionado sobre saída unilateral do bloco, José Félix Estigarribia disse que 'não se pode dizer 'nunca' na política'

Entrevista com

Roberto Simon, enviado especial a Assunção, O Estado de S.Paulo

01 de agosto de 2012 | 03h02

Texto atualizado às 08h00

ASSUNÇÃO - "Inaceitável" foi a palavra que o chanceler paraguaio, José Félix Estigarribia, escolheu em entrevista exclusiva ao Estado para qualificar a entrada da Venezuela ontem no Mercosul, à revelia do Paraguai. Estigarribia afirma que seu ministério está tentando lutar contra setores importantes da sociedade paraguaia que querem bater a porta e sair do Mercosul.

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Ao fim da entrevista, o diplomata de carreira desabafou. Disse que essa é a missão mais difícil à frente da chancelaria paraguaia desde os tempos de José Bérges, ministro durante a Guerra do Paraguai (1864-1870) - que acabou executado.

Veja infográfico:

Estado: Qual é a mensagem do Paraguai hoje, dia da entrada da Venezuela no Mercosul?

José Félix Estigarribia: Consideramos inaceitável essa decisão, que em nada contribui ao bom desenvolvimento da integração regional. Sobretudo, a entrada da Venezuela posterga novamente a possibilidade de os quatro países fundadores do Mercosul sentarem-se à mesa de negociação e encontrar as soluções para o futuro do bloco, incluindo aí a discussão do tema da incorporação da Venezuela. A situação que estamos vivendo fez com que o governo paraguaio enviasse hoje (ontem) ao Congresso o protocolo de adesão da Venezuela ao Mercosul. Vai depender agora do Congresso paraguaio a admissão ou não de Caracas no bloco.

Estado: E provavelmente o Congresso recusará a entrada de Caracas.

José Félix Estigarribia: Não posso dar instruções ao Congresso, como a presidente Dilma Rousseff diante do Parlamento brasileiro. Se os parlamentares paraguaios recusarem, surge uma nova dificuldade, algo que confirma minha tese: sentemos para dialogar, que encontraremos o caminho da solução. A presidente Dilma falou hoje que éramos cinco países (no Mercosul), mas o Paraguai não teve direito de decisão diante dessa adesão.

Estado: A imprensa paraguaia fala o tempo todo da "morte" do Mercosul e de uma retirada do Paraguai. Há risco de Assunção unilateralmente deixar o Mercosul?

José Félix Estigarribia: Reafirmo a vontade da chancelaria paraguaia de não sair do Mercosul. Mas meu ministério está submetido a um bombardeio da sociedade paraguaia, que encontra cada vez mais dificuldade de se sentir parte do espírito de integração. Há uma enorme quantidade de vozes na imprensa paraguaia afirmando que nós não estamos agindo corretamente, que estamos sendo brandos demais. O espírito de integração está morrendo. Algo que afetou muito os paraguaios foram as medidas tomadas pela Argentina, contrárias também ao Brasil e ao Uruguai - isso antes do julgamento político (de Lugo). Agora, sob sanções, é muito difícil mostrar ao país e à sociedade as virtudes e vantagens de participar do bloco.

Estado: Mudando, então, o sentido da pergunta: a possibilidade de uma saída paraguaia do Mercosul não está descartada?

José Félix Estigarribia: Na política é muito difícil dizer "isso nunca vai ocorrer". Mas a chancelaria paraguaia fará tudo o que for possível para permanecer no bloco. Estamos em uma sociedade democrática e devemos respeitar o que as pessoas dizem. Sabiamente, a Constituição paraguaia proíbe a submissão de assuntos internacionais a referendo, pois se nossa permanência no Mercosul fosse a uma votação popular, muito provavelmente iríamos embora. Quando um presidente sul-americano, cujo nome não vou falar, diz que o político prima sobre o jurídico na integração regional, convencer os paraguaios a permanecer no bloco é ainda mais difícil.

Estado: E qual é a saída para a crise?

José Félix Estigarribia: Que nos aceitem, que todos os membros sentem-se à mesa de negociação, nos escutem e nós os escutaremos atentamente.

Estado: Em seu primeiro dia como chanceler, o sr. afirmou ao 'Estado' que Lugo de fato teve pouco tempo para se defender. O sr. mantém essa opinião?

José Félix Estigarribia: Sim, essa ainda é minha opinião. Mas muito mais grave é o fato de os países vizinhos nos condenarem sem nos dar nenhum direito a defesa. Os que nos acusam foram muito mais radicais. Você é testemunha do que está acontecendo no Paraguai. Onde está o estado de emergência aqui? Como estão as ruas? Quantos editoriais da imprensa brasileira se referem aos ataques à liberdade de imprensa em países que agora se sentem juízes do Paraguai? Não fechamos nenhuma rádio, jornal, TV ou qualquer veículo de comunicação aqui. A imprensa é livre. Aqui não acontece nada disso e os órgãos de imprensa atuam livremente, mesmo que nos criticando todos os dias. Teremos eleições livres em abril, das quais o presidente não é candidato, por um compromisso público que fez. Parece uma das melhores democracias do mundo. Pelo menos parece.

Estado: Há congressistas brasileiros em defesa do governo paraguaio. O sr. mantém que tipo de contato com eles?

José Félix Estigarribia: Me comunico com muita gente no Brasil. Há pessoas importantíssimas do lado do Paraguai, como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os ex-chanceleres Luiz Felipe Lampreia e Celso Lafer, ou o embaixador José Botafogo Gonçalves. Isso indica que nossa posição é a correta - como não podemos agradecer a eles?

 

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