Chanceler: 'Se há um anão diplomático, o Brasil não é um deles'

Chefe da diplomacia brasileira rebate Israel; Planalto articula com sócios do Mercosul declaração condenando ataques em Gaza

Tânia Monteiro e Iuri Dantas / BRASÍLIA; Denise Chrispim Marin, O Estado de S. Paulo

24 de julho de 2014 | 14h33

(Atualizada às 22h) A réplica de Israel à dura nota do governo brasileiro, que classificou quarta-feira de “inaceitável” a escalada desproporcional da ofensiva militar sobre Gaza, mexeu com os brios do Itamaraty e do Planalto e resultou numa tréplica do ministro das Relações Exteriores, Luiz Alberto Figueiredo. Mas na avaliação de diplomatas e assessores presidenciais a ordem é encerrar a escalada verbal entre os dois países e evitar bate-boca.

Com o cuidado de não aprofundar o incidente diplomático, Figueiredo revidou a declaração do porta-voz da chancelaria de Israel, Yigal Palmor, de que o Brasil é um “anão diplomático” e “parceiro diplomático irrelevante”. Ao Estado, o chanceler argumentou que Brasil e Israel, na condição de nações amigas, podem “discordar entre si, sem problemas”. Figueiredo emendou, em clara lição de diplomacia a Tel-Aviv, que o Itamaraty “não usa termos que desqualifiquem governos de países amigos”.

“O Brasil vive há mais de 140 anos em paz com seus vizinhos e é um dos raros países com relações diplomáticas com todos os membros das Nações Unidas”, afirmou Figueiredo. “O Brasil sempre defendeu a paz e a segurança e teve sua voz ouvida internacionalmente. Construímos uma rede de amizades e de entendimento com os nossos vizinhos e também nosso lugar nas reuniões da ONU. Se existe algum ‘anão diplomático’, não se trata do Brasil”, completou.

A resposta do ministro brasileiro teve como pano de fundo a avaliação do Palácio do Planalto de que o governo israelense “passou do ponto” e foi “fora do tom”. Uma fonte resumiu: “Não podemos aceitar isso calados”, avaliação que resultou nas declarações de Figueiredo.

Até a noite de quinta-feira, 24, o governo de Israel não havia entrado em contato com Brasília para abrandar o impacto da declaração de Palmor. Diante disso, o governo brasileiro iniciou consultas com os demais sócios do Mercosul para a emissão de uma declaração de condenação do uso desproporcional da força por Israel contra a Faixa de Gaza. O texto deverá ser aprovado durante a reunião de cúpula do bloco, segunda e terça-feira, em Caracas.

Nos bastidores, o governo nega que esteja sendo duro com Israel e está apenas reagindo a uma ação despropositada do país contra os palestinos. Em linha com essa avaliação, o assessor internacional da presidente Dilma Rousseff, Marco Aurélio Garcia, disse na noite de quarta em entrevista ao SBT que “o que estamos assistindo no Oriente Médio, pelo amor de Deus, é um genocídio, é um massacre”. A solução para a violência israelense na Faixa de Gaza seria “usar pressão política e diplomática” e não enviar tropas das Nações Unidas à região, respondeu Garcia quando indagado se era o caso de intervenção.

Segundo fontes ouvidas pelo Estado, não há interesse do governo brasileiro de seguir com a divergência por meio da imprensa. O Itamaraty sempre optou pela discrição para conseguir interlocução com os mais diferentes atores. Foi esse o tom da resposta de Figueiredo a Israel: o Brasil faz parte do pequeno grupo de 11 países que se relacionam com todos os membros da ONU.

A posição brasileira em relação à invasão da Faixa de Gaza por Israel teve início no dia 17, em uma nota com tom ameno, institucional, fiel ao estilo diplomático nacional. Ali, o governo Dilma pedia que se retomasse o diálogo. No mesmo dia, Dilma afirmou publicamente que era “lamentável” o acirramento do conflito. / COLABOROU VERA ROSA

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