Raul Arboleda/AFP
Raul Arboleda/AFP

Chanceleres endossam denúncias da oposição e não reconhecem resultado das eleições na Venezuela

Ministros das Relações Exteriores de Brasil, Canadá e Estados Unidos se manifestaram logo após o fechamento das urna; principais líderes opositores falam em 'fraude consumada'

Renato Vasconcelos, O Estado de S.Paulo

07 de dezembro de 2020 | 10h00
Atualizado 07 de dezembro de 2020 | 11h26

Pouco depois da divulgação do resultado da eleição parlamentar na Venezuela, chanceleres das maiores potências do continente declararam não reconhecer o resultado do pleito realizado nesse domingo, 6, no país sul-americano. O processo eleitoral, que registrou 69% de abstenção após denúncias de fraude e boicote da oposição, apontou vitória do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV), liderado pelo presidente Nicolás Maduro.

Entre as principais forças geopolíticas do continente, Brasil, Estados Unidos e Canadá afirmaram não reconhecer o resultado da eleição venezuelana horas após a divulgação do resultado final. Os chanceleres dos três países afirmaram que o pleito não garantiu condições livres e justas, com alguns deles reafirmando o discurso da oposição de que o processo foi fraudulento. 

Na Europa, o governo do Reino Unido afirmou que não vai reconhecer a eleição "profundamente defeituosa". "Seguimos reconhecendo Juan Guaidó como presidente da Assembleia Nacional e como presidente constitucional interino da Venezuela", escreveu o ministro das Relações Exteriores, Dominic Raab. 

O secretário de Estado americano, Mike Pompeo, foi um dos mais enfáticos ao tratar do tema. Em sua conta no Twitter, Pompeo afirmou que "a fraude eleitoral na Venezuela" já havia sido cometida.

"A fraude eleitoral da Venezuela já foi cometida. Os resultados anunciados pelo regime ilegítimo de Maduro não refletirão a vontade do povo venezuelano. O que está acontecendo hoje é uma fraude e uma farsa, não uma eleição", escreveu.

O tom crítico do responsável pela política externa do governo de Donald Trump foi seguido pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Ernesto Araújo. O chanceler afirmou que o processo era uma tentativa de Maduro de se legitimar, o que só funcionaria "aos olhos daqueles que apreciam ou toleram a ditadura e o crime organizado". Araújo também destacou o baixo comparecimento dos eleitores e classificou o pleito como uma "farsa eleitoral".

Apesar de também não reconhecer o resultado das eleições, a abordagem do ministro das Relações Exteriores do Canadá, François-Philippe Champagne, foi mais sutil e evitou usar as palavras "fraude" ou "farsa". Em vez disso, o chanceler justificou que a eleição não reuniu o mínimo de condições para um "livre e justo" exercício da democracia.

"O Canadá não reconhece os resultados do processo eleitoral de 6 de dezembro da Venezuela porque o processo não atendeu às condições mínimas para um exercício livre e justo da democracia. Eleições livres e justas só podem ocorrer quando as regras democráticas são totalmente respeitadas. Continuamos pedindo uma transição democrática pacífica e por eleições presidenciais livres e justas. O Canadá sempre estará ao lado do povo da Venezuela em sua luta para restaurar a democracia", diz um posicionamento compartilhado pelo próprio Champagne em seu Twitter.

De acordo com o boletim divulgado pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE), a aliança do Grande Polo Patriótico, apoiada pelo presidente Nicolás Maduro, obteve 67,7% dos 5,2 milhões de votos apurados., enquanto o setor de oposição que rompeu um boicote liderado por Juan Guaidó obteve 18%. Ainda não se especificou quantos dos 277 assentos correspondem a cada sigla.

Oposição fala em 'fraude consumada'

Uma das razões para a alta abstenção na eleição parlamentar desse domingo foi o boicote promovido pela oposição, liderada por Juan Guaidó, que detinha maioria na Assembleia Nacional. As principais figuras contrárias ao presidente Nicolás Maduro e ao chavismo já vinham denunciando o processo como ilegítimo antes do dia de votação. Após o resultado, afirmaram se tratar de "uma fraude consumada".

Guaidó foi um dos se manifestar após o fechamento das urnas. Durante todo o domingo, o "presidente autoproclamado" da Venezuela ficou ativo nas redes sociais, comentando as irregularidades do pleito e republicando postagens críticas às eleições e a Maduro. Depois da votação concluída, o oposicionista se pronunciou por meio de um vídeo, no qual afirma, entre outras coisas, que o processo era uma nova fraude promovida pelo chavismo.

"A cada fraude que cometeram, só incrementaram a crise, a pressão e o isolamento internacional contra quem cometeu as fraudes hoje", disse. E completou: "Extorquem a um povo com fome, dizendo que quem não vota não come, porque sabem que jamais ganhariam uma eleição livre."

Guaidó ainda convocou o povo a sair às ruas no dia 12 de dezembro para "expressar a maioria e a vontade popular".

Outro opositor histórico do chavismo, Leopoldo López apontou o nível de abstenção nas urnas como um indicador da decadência do governo de Maduro. Ex-preso político do regime de Maduro, López também classificou o processo eleitoral como "uma armadilha, uma farsa".

"Ficou muito claro, nosso povo e a comunidade internacional sabem disso: hoje não é uma eleição, mas uma FRAUDE, uma armadilha, uma farsa. A solidão que estamos vendo nas ruas da Venezuela é o reflexo de uma ditadura decadente sem povo. Não pode ser uma eleição um processo que se dá com partidos políticos sequestrados, com líderes inabilitados, presos e exilados; sem um árbitro legítimo e nem observadores eleitorais confiáveis; e com uma ditadura que ameaça dizendo 'quem não vota, não come'."

López concluiu: "Ante essa realidade, nós venezuelanos não nos resignamos nem ficamos de braços cruzados. Estamos decididos a fazer o necessário para que nosso país possa superar a ditadura e alcançar a liberdade. Não há descanso nem pausa nesta luta."

Por fim, Henrique Capriles, que disputou a presidência do país em 2012 e 2013 - sendo derrotado por Hugo Chávez e Nicolás Maduro, respectivamente - afirmou que, no domingo, as filas para conseguir alimentos e gasolina eram maiores do que as filas nos colégios eleitorais.

"Hoje, nós, venezuelanos, e o mundo fomos testemunhas de um processo pelos interesses do PSUV e o rechaço do país foi evidente e contundente. Pouca ou nenhuma participação é o testemunho do nosso povo que não se submete à chantagem", escreveu Capriles.

"Agora quem perde hoje? O país perde, que verá se agravar uma crise política, econômica e social que já é trágica para a maioria dos venezuelanos. O show de hoje não vai resolver a situação de milhões de crianças e avós que precisam de ajuda no país. Tampouco a resposta dos setores democráticos pode ser o monitoramento de um fracasso que sabíamos que ocorreria ou apelos à mobilização sem soluções tangíveis. No meio dessas posições está a grande maioria que aguarda atenção urgente para seus problemas".

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