Brendan Smialowski/AFP
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Chances de reeleição de Trump de repente parecem abaladas

Duas principais pretensões de seus conselheiros de campanha, uma economia em expansão e um oponente difamado, evaporam rapidamente

The New York Times, O Estado de S.Paulo

13 de março de 2020 | 05h30

O presidente Donald Trump enfrenta o maior desafio às suas perspectivas de ser reeleito, à medida que evaporam rapidamente as duas principais pretensões de seus conselheiros de campanha: uma economia em expansão e um oponente fácil de difamar como candidato de extrema-esquerda.

Depois de um ano em que Trump disse aos eleitores que eles deveriam apoiar sua reeleição ou correr o risco de ver a economia declinar, o mercado de ações está cambaleando e os economistas alertam que uma recessão pode estar no horizonte, por causa do agravamento da disseminação do coronavírus.

E, em vez de nomearem o senador de Vermont, Bernie Sanders, por quem Trump deixou claro que estava torcendo, os democratas repentina e decisivamente trocaram um flerte com o socialismo por uma aproximação ao ex-vice-presidente Joe Biden, que nas primárias vem realizando uma campanha centrada no retorno à normalidade política.

“O sucesso de Biden nos subúrbios faz dele uma alternativa aceitável”, disse Scott Reed, o principal consultor político da Câmara de Comércio dos Estados Unidos. “O aumento do comparecimento de seus eleitores nos subúrbios ameaça o Senado Republicano”.

Isso apresenta a Trump um cenário político novo e confuso, uma realidade que os conselheiros mais próximos admitem que o presidente parecia relutante ou incapaz de aceitar até quarta-feira, quando fez um pronunciamento ao país sobre a pandemia.

“Se fosse Warren ou Bernie e não tivesse coronavírus, acho que Trump poderia passar despercebido”, disse Kevin DeWine, ex-presidente do Partido Republicano de Ohio. “Mas se é Biden, com investimentos caindo e uma completa disrupção por causa do coronavírus, acho que é uma história totalmente diferente”.

Ohio, um tradicional campo de batalha presidencial que tende a votar nos republicanos, voltaria para o centro do jogo, disse DeWine. Esses estados do Centro-Oeste foram fundamentais na eleição de Trump em 2016 e provavelmente serão igualmente cruciais este ano.

Obviamente, o que acontece em março pode ter pouca influência em novembro. Trump continua ocupando o intimidador púlpito da presidência, e Biden vem evitando o escrutínio dos rivais em uma campanha primária cheia de altos e baixos.

E, se há alguma constante na era Trump, é o fato de que as manchetes mudam em questão de horas, dias ou, no máximo, semanas. O vírus pode ser abrandado, a economia pode se recuperar e as décadas de vida de Biden em Washington e sua propensão a gafes podem torná-lo um candidato tão fraco quanto alguns de seus rivais nas primárias vêm alertando há muito tempo.

No entanto, se Trump de fato perder a reeleição, poderemos concluir que as sementes da derrota foram plantadas neste início de primavera.

Um desafio para o presidente é que seu forte nunca foi o tipo de resposta gerencial que se exige dos executivos durante crises como uma pandemia. Empatia e demonstrações públicas de emoção não lhe são fáceis. No Twitter, sua mídia favorita, ele vem se concentrando em criticar os democratas e tem sido criticado pela maneira como as pessoas percebem seu jeito de lidar com a crise.

Até agora, ele resistiu às solicitações dos conselheiros para cancelar eventos ou enviar um forte sinal de que está disposto a suspender a temporada política até que os efeitos do coronavírus sejam melhor avaliados.

“Um líder precisa ser transparente, claro, empático, sério e participativo”, disse Jeb Bush, ex-governador da Flórida que concorreu contra Trump nas primárias republicanas de 2016 e recebeu elogios de ambos os partidos pela maneira como lidou com os furacões durante seu mandato. “Um líder precisa se comunicar de maneira consistente e constante. Um líder precisa mostrar o coração e precisa fazê-lo fora da mansão do governador ou da Casa Branca”.

Bush acrescentou que um líder precisa “encerrar as campanhas partidárias” e “confiar nos especialistas, permitindo que a estratégia seja desenvolvida com eles”, além de pensar em como lidar com a recuperação.

Biden, por outro lado, teve toda a sua vida política definida por tragédias pessoais – a morte da esposa e da filha décadas atrás e, mais recentemente, do filho mais velho, Beau – e por seus esforços de superá-las e encorajar as pessoas a fazer o mesmo.

Na tarde de quarta-feira, pouco antes de uma entrevista, Trump repreendeu os democratas do Congresso, que indicaram que não estão esperando a liderança do presidente na formulação de um pacote para ajudar a economia. “Alguém precisa dizer aos democratas do Congresso que o coronavírus não liga para partido político. Precisamos proteger TODOS os americanos!”, Trump escreveu no Twitter.

Em entrevistas, meia dúzia de republicanos próximos à campanha do presidente disseram que seu esforço de reeleição havia se tornado um navio de guerra político, lento e difícil de manobrar, bem diferente da corrida ágil que Trump realizou em 2016. Vários conselheiros trabalharam na terça-feira para convencer Trump a não deixar a campanha anunciar um comício agendado para o final do mês na Flórida; no fim, os conselheiros conseguiram o que queriam.

Assessores enviaram sinais contraditórios sobre como planejam abordar Biden: alguns querem retratá-lo como uma versão 2020 de Hillary Clinton; outros querem defini-lo como algo muito semelhante a Sanders, por causa de algumas das posições progressistas que Biden adotou.

Não se pode simplesmente projetar os resultados das primárias nas eleições gerais, mas o aumento do comparecimento dos eleitores democratas até agora não só ajudou Biden como também ilustrou qual pode ser a vulnerabilidade mais flagrante de Trump. O ex-vice-presidente estabeleceu uma liderança de delegados devido, pelo menos em parte, a uma onda de eleitores suburbanos, entre eles muitos de jurisdições abastadas.

O time de verdadeiros estrategistas políticos de Trump é pequeno, apesar da grande equipe empregada por sua campanha, e só muito recentemente seu gerente se mudou para Washington, onde está localizada a sede. Depois de um vazamento de dados logo no início, as informações estão bem protegidas e as pesquisas formais são solicitadas apenas a cada poucos meses. Na terça-feira, quando Trump se reuniu com conselheiros no final da manhã para analisar os resultados das últimas pesquisas da campanha, alguns dos dados já estavam desatualizados.

O deputado Francis Rooney, republicano da Flórida que não está buscando a reeleição, disse que a mera probabilidade de Biden ser o candidato já “transforma tudo em uma corrida”.

Rooney disse que Biden é “moderado, bem fundamentado e verdadeiramente agradável – e Sanders não é nenhuma dessas coisas”.

Fazendo eco a várias autoridades importantes de ambos os partidos, Rooney disse que, se Biden vencer a indicação, sua vitória ilustrará até que ponto as eleições de 2016 foram um referendo sobre o candidato democrata, e não sobre Trump.

“A questão é quantas pessoas votaram nele porque não queriam Hillary Clinton”, disse ele, argumentando que a política de centro-esquerda de Biden efetivamente faz dele “uma Hillary sem os outros pontos negativos”.

Os conselheiros de Trump argumentam o contrário – e, de fato, foi seu entusiasmo para investigar os documentos do filho de Biden, Hunter, que provocou o processo de impeachment do presidente.

Mas o que alarma muitos republicanos no que diz respeito ao impacto político do vírus é que ele sobrecarregará as notícias de tal maneira que será difícil dar destaque a suas pesquisas sobre Biden ou chamar atenção para suas gafes.

O ex-deputado Kevin Yoder, republicano do Kansas varrido na reação suburbana contra Trump em 2018, disse que a ascensão de Biden complicou bastante as perspectivas de Trump.

“Joe Biden será muito palatável para muitos dos moderados que votaram contra os republicanos nas eleições do meio do mandato”, disse Yoder, prevendo que os republicanos precisariam que os apoiadores amargurados de Sanders ficassem em casa, porque “não veremos uma reviravolta nos subúrbios independentes”.

DeWine disse com mais franqueza: “Se for Biden, você verá republicanos descontentes indo às urnas para votar nele, porque esses eleitores querem simplesmente algo que seja normal e sensato”, disse ele. / Tradução de Renato Prelorentzou

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